O menu de Manu

Em restaurantes, a escada das expectativas é tão longa quanto a descrição de alguns pratos. Já desabei do penhasco muitas vezes, enamorada pela narração detalhada dos ingredientes, só para me espatifar num resultado catastrófico na língua.

Demorei a chegar ao Manu.

Há uns 3 anos, um voo cancelado já tinha me feito perder uma reserva. Desde 2011 no mesmo local, um salão claro, calmo, feito de poucas e generosas mesas redondas me recebeu. Lá estava eu, com um passado de tombos e zero expectativas.

Já na largada, entendi que o jogo era outro.

De casca dura e carne mais firme – exigência de ser brasileira? -, sempre fui devota da ostra nativa (crassostrea brasiliana). Abundante em todo o litoral do país, é desprezada pelos restaurantes em favor de uma espécie exótica grandona, fácil de cultivar, mas menos saborosa. Ali, era a brasiliana e vibrei. De carne meio doce – sabor do mangue – e meio salgada – sabor do mar – tem muita mineralidade regada pelas águas frias de Carabaquara. Vinha com um óleo de coco que arredonda tudo, um toquezinho de maracujá e dedo de moça. Que início!

Em seguida, chega uma vieira marinada com mel ácido e nada doce da abelha nativa mirim-saiki – e viva a teimosia de trabalhar com ingredientes pouco comerciais. Vinha regada de azeite de mexerica, sobre salsa verde de kiwi tostado e beurre blanc com casca de mexerica. Parece muito, mas o resultado foi gostoso e equilibrado.

Mesa de jantar com prato raso contendo uma porção de comida apresentando uma mistura colorida, acompanhada de uma taça de vinho, copos, talheres e um cardápio, em um ambiente moderno.

Gemi alto algumas vezes com o prato de salada e ‘piccalili’, a conserva inglesa precursora dos picles, que viajou para a Polônia e de lá foi parar em Curitiba pelas mãos dos imigrantes. Em geral feita de couve-flor, tem sementes de mostarda e especiarias na preparação, que fazem toda a diferença. A saladinha vinha com verdes e ervas sobre tahine, um caldo bem denso de frango como moldura, numa mistura que gerava uma surpresa a cada colherada. Linda brincadeira. [foto de capa]

A etapa dos pães, que migrou para o meio da refeição, como escrevi há muitos anos, ali vinha com a deliciosa farinha Iraty e biscoitos feitos com dois polvilhos; um deles orgânico, feito por uma família de Morretes.  Para lambuzar, uma manteiga da casa fermentada por 48hs, e a já clássica ‘pomada de porco’, feita com banha, amendoim, coentro de tal, que terminava com um sabor que me lembrou ervilhas.

Escrevi “divino!!!” (assim, tri-exclamado) em minhas notas sobre o prato de perninhas de lula sobre creme de milho com jalapeño e leite fermentado. De uma pseudo-simplicidade, foi uma belíssima surpresa na boca.

Prato gourmet em formato de flor com purê e pedaços de peixe, acompanhado por taças de vinho e uma mesa de mármore.

A acidez da fermentação, aliás, misturada a um quê de especiarias – certamente o lado libanês de Manu – é traço que permeia toda a refeição.

Nota para a harmonização com o rosé Incandescente Les Chemins de Bassac; biodinâmico como a maior parte dos vinhos na carta, feito por brasileiros no Languedoc. Os pratos não são nada fáceis de harmonizar, mas todas as escolhas foram acertadas. Ponto para a sommelière, que infelizmente não anotei o nome.

Na etapa seguinte, reforcei a minha teoria de que não existe prato ruim, e sim prato mal-feito. Lembrei disso porque não gosto de canja, mas a alcachofra chamuscada e macia vinha com uma base de canja densa, feita com a linguiça de Blumenal que emprestou uma picância perfeita e essencial. Por cima, um molho de pimenta de cheiro. O todo me lembrou o resultado na boca de um choux-farci inesquecível que comi. Nada a ver, mas tudo a ver.

Prato gourmet servido em um recipiente arredondado, apresentando uma preparação elaborada sobre um fundo cremoso, com um toque verde em cima.

Seguimos com robalo de Paranaguá com iogurte de abóbora lacto-fermentada com acidez talvez marcante demais para o peixe, sobre salsa de ervilha, feijões verdes e alface-do-mar.

Achei delicioso o alho-poró que vinha com uma espécie de curry verde à base de hortelã, avelã, um contraste certeiro de physallis e molho de vôngole – uma overdose de umami muito bem-vinda.

Prato de sobremesa com uma porção de mousse escura, acompanhada de taças de vinho e utensílios sobre uma mesa de mármore.

A cavaquinha vinha com caju sobre um “arroz não arroz”. Na verdade, uma massa de arroz que depois é cortada em pedacinhos, com textura muito interessante e ótima na boca. De novo, equilibradas especiarias quebradas por nota cítrica. Excelente.

Prato em uma mesa com um fundo elegante, apresentando um molho espesso e um pedaço de alimento claro no centro, rodeado por um borda de cerâmica.

O cordeiro em ponto perfeito vem da região metropolitana de Curitiba, em criação da família de Manu, com molho de amendoim, vinagrete de pinhão pousado na carne e caldo denso do próprio cordeiro. Parecia um gênio da lâmpada atendendo desejos que eu sequer sabia que tinha.

Prato gourmet com dois pedaços de carne, molho escuro, purê claro e guarnição verde, acompanhado por taças de vinho ao fundo.

A cenourinha solitária termina a etapa salgada e vem deitada em berço esplêndido de um molho feito de levain. É acompanhada de farofa, a melhor das criações humanas.

As sobremesas ficam a cargo de Vanessa, confeiteira da casa desde sempre. Foram mousse de coco queimado, gel de morango (que passa por um processo de desidratação com posterior reidratação no suco concentrado e fica bem intenso), com creme de tahine e sorvete de iogurte. Delicioso!

Prato com sobremesa servido em um recipiente rústico, contendo um creme claro coberto com sorvete, farofa e um toque de molho vermelho, acompanhado por taças de vinho e outros utensílios de mesa.

Uma poesia, a sobremesa de banana com sorvete de queijo, tuile de leite e cuscuz de coco fermentado. Afetividade melhorada.

Prato com sobremesa: uma bola de sorvete acompanhada de crocantes em uma tigela azul com textura espiral.

O café do Norte Pioneiro foi a escolha para o fim da refeição, e gostei. Assim como o café do Alto Noroeste do Rio de Janeiro, tem muita qualidade, mas é pouco conhecido no Brasil. Ali, foi da produtora Ariele, de Curiúva.

Manu quebra dois paradigmas importantes: o primeiro, de que fazer cozinha com ingredientes regionais significa abandonar inspirações do mundo. Claro que não, até porque o Brasil é feito de imigrantes. Sua família ítalo-libanesa, que o diga. O segundo, de que é impossível trabalhar com ingredientes nativos, mega sazonais etc, mas ela teima e consegue.

É disso que trata a alta gastronomia e é isso que se espera dela. Insistência, propósito e originalidade (tão rara), sem nunca esquecer o sabor.

Como falei no início, a escada das expectativas pode levar ao abismo.  Ali, felizmente, era “stairway to heaven”.

Restaurante Manu

Uma cliente sem filtro – Café ao Leu

Pois é… agora dei para almoçar num lugar e tomar café no outro.

Lembro com saudade do café “globinho”, aquele laboratório portátil inventado na Alemanha de 1830, que parecia saído das minhas aulas de química. Achava lindo! Vinha o garçom com água, pó, fogo e pluft! Produzia a bebida magicamente. Por sorte, ignorava que o produto daquele tempo era péssimo. 

Desde que as cápsulas entraram na vida dos restaurantes, sumiram os globinhos e todo o resto, inclusive a maioria das máquinas de café expresso trabalhadas por baristas. Há cafés de cápsulas corretos, mas o pobre filtrado, antes comum em qualquer canto e minha escolha pessoal em 100% das vezes, passou a ser negligenciado, mesmo nas melhores casas. Virei aquela mulher que resmunga ao fim da refeição. 

O que ouço da maioria dos empresários é que pesquisar bons produtores e grãos, comprar equipamentos e treinar a equipe não é esforço que todo cliente valorize. Mais fácil servir um café de cápsula razoável do que ter mais essa dor de cabeça.

E assim, o café especial filtrado achou seu reduto em lojas especializadas ou é feito em casa. Virou coisa da tribo viciada em qualidade; aquela que não passa sem um café bem passado.

Escrevi sobre o incansável Léo Gonçalves na última coluna da Veja Rio [aqui], especialmente sobre o aspecto sustentável de sua empresa que investe em pequenos produtores e, por isso mesmo, acha fundamental apoiá-los, chova ou faça sol (literalmente). 

Léo acredita que quando se trata de qualquer produto agrícola – com certeza sempre afetado por chuvas, secas, pragas e outros fatores imprevisíveis – mais importante do que comprar um produto apenas quando está espetacular é comprar sempre daquela pessoa que persegue a melhor qualidade, diante de inevitáveis surpresas. O objetivo é manter o produtor vivo para, nos anos possíveis, ter o melhor. 

Pois bem, por culpa dele, ando almoçando mais em Copacabana. 

Seu Café ao Leu, um pequeno balcão com duas mesinhas na Almirante Gonçalves, pertinho do mar, é uma espécie de canto da sereia. Semana passada, antes que me desse conta, estava de pé com os olhos grudados nos movimentos circulares do bule que regava o “café do Clayton”. Bebi Clayton, Renato e, quando já estava na saída, decidi provar o “Filtrado da Casa”.

Do Clayton, um catuaí vermelho e amarelo do Alto Caparaó, delicado, complexo e aromático e o igualmente delicioso Renato, um catucaí 144, cereja descascado da Chapada Diamantina. Ambos no V60, com Felipe ao fundo.

Além de vender lotes específicos torrados na casa, como os “rapazes” que bebi e tantos outros, Léo também cria seus blends. Podem ser misturas de vários produtores, regiões ou ainda de cafés de uma só origem, mas sempre têm altíssima qualidade. O mais interessante? Ficam ali, bonitinhos, numa garrafa térmica.

A opinião do barista é que a garrafa térmica costuma ser vista como um vilão, mas não é. “Vilão é café de baixa qualidade que a pessoa coloca na garrafa que, rapidamente, fica com um sabor insuportável. Quando se trabalha com bons cafés, o método de preparo é só mais um detalhe e, ainda que esfrie, continuará com qualidade. Você pode até coar um Café ao Leu numa meia, que ele vai estar bom de beber. Claro que o importante é que a garrafa térmica esteja bem higienizada e, é claro, a meia também” – disse, brincando, e eu adorei.

Essa estória da garrafa térmica me encheu de esperança. Vou sugerir aos donos de restaurantes que não custa deixar uma ali num cantinho, com um ótimo café filtrado do Léu antes do turno, sem desviar a atenção das equipes na hora do show, com serviço rápido, sem estresse. Quem sabe?

Afinal, antes um bom filtrado na garrafa térmica do que eu, essa cliente sem filtro, resmungando no fim da refeição. 

website e pedidos, aqui

Instagram: cafeaoleu

lote de catuaí vermelho de José Alexandre Lacerda, vindo de uma saca esquecida na lavoura que fermentou espontaneamente emprestando aromas incríveis à bebida. Um dos vários lotes em edição limitada que aparecem por lá.

Angá Ateliê Culinário

Achava linda, a pitanga, fruto que prometia tanta coisa com aquele vermelho sedutor e seus gomos arredondados que lembravam os de uma balinha, decerto cheia de açúcar. 

Promessas, promessas… 

A admiração platônica rendeu até minha mãe me enfiar uma delas, goela adentro. Encrespei o rosto e me tremi toda com o queixo empurrado para trás e olhinhos fechados, como quem quer dar marcha-ré no gosto estacionado na boca. 

Ecaaa! Que troço mais ácido!.

Foram três anos em Petrópolis, dos meus 9 aos 11 de idade, com almoços animados para 20 ou 30 pessoas, organizados pela minha mãe, mensalmente. Eram tardes de cantoria com meu pai no violão, seu inseparável negroni, sanduíches de pepino e muito papo em torno da piscina.

Ainda salivo com a lembrança da primeira dentada bem dada num bife à Wellington, que engolia com a maionese de batatas, o bacalhau com azeite e um tanto de porco bem gordo que vinha com 50 versões de farofa que precediam a goiabada cascão derretida com sorvete de queijo minas da Leiteria Brasil e um manjar de coco com ameixas. Todos parte de um cardápio para convidados que pouco variava (e pouco ligávamos). 

Foi uma infância balofa, em que tudo era frito: pão frito, queijo frito, banana frita, ovo frito; o lanchinho da tarde era brigadeiro. Sabe-se lá como sobrevivi. 

A casa, e a rotina dos almoços, nos acompanhou por muito tempo até sua venda, há uns 15 anos. Passei bom tempo evitando a Serra, por conta das saudades, mas tudo voltou à cabeça e com muita força, na tarde de ontem. 

Lydia Gonzalez se formou em Gastronomia, viveu 3 anos na Europa, estagiou em 12 restaurantes e trabalhou em alguns estrelados antes de se dedicar à cozinha brasileira, sua paixão. 

Minha chegada em seu Angá Ateliê Culinário, em Nogueira, veio com o cheiro de terra molhada, mato e hortênsias, como no jardim de casa. 

Conheci a chef num evento recente, em que eu e ela tentávamos aprender um tanto sobre os meles de abelhas nativas brasileiras. Suas perguntas e comentários me fizeram reconhecer alguém que, como eu, estuda e se apaixona por causas várias que cercam o que a gente come, e brotou bem ali a vontade de conhecer seu restaurante. 

Sorte a minha.

Já no couvert, me deparei com um patê de aves, como aquele que não podia faltar nos sábados da minha infância. Ao seu lado, o quê? Uma chimia de pitanga, palavra derivada do alemão “schmier” (passar algo em outra coisa), que muito fala da cultura deixada pelos imigrantes de Petrópolis. 

Ao provar a compota, não fiz careta, nem nada. A mistura fez um contraste perfeito com o cremosíssimo Morro Azul, um queijo de vaca com mofo branco, que espalhei em cima do polvilho feito com grãos dos diversos pães da casa.

Então, Lydia nos traz um pratinho com jiló fatiado e explica que era uma das comidas preferidas de seu pai, que já não está entre nós. Vinha com banana passa – até hoje, um dos doces favoritos de minha mãe – numa combinação inusitada e viciante. Pensei com carinho nos nossos pais faltantes e comidas que não podiam lhes faltar. Bastou para aquele jiló ter gosto de colo. 

berinjela defumada com iogurte de amendoim, farofinha com cacau cabruca da Bahia
atum com queijo fresco de vaca e bolinho de arroz anã

Houve uma delicadíssima berinjela defumada com iogurte de amendoim, ao lado da farofinha grossa com pedaços de cacau cabruca, que emprestou causa e sabor ao prato. Depois um atum com queijo fresco e bolinho de arroz anã, variedade cultivada às margens do Rio Paraíba do Sul, que ainda margeia boa parte da minha vida. E ainda testemunhei a ótima ideia que foi regar com mate e limão um lombo de porco com abóbora. Por fim, a poesia que foi uma sobremesa de “verdes” (pepino, maçã verde, uvas e melão) com sorvete de queijo Boursin.

Lydia, porco com abóbora e molho de mate com limão e couve, o mato preferido de minha mãe

Um casal na mesa ao lado disse aos amigos, ao chegar: “Falei para eles que esse é o melhor restaurante da Serra!”, mas Lydia respondeu, prontamente: “Me diga depois do almoço porque o pior inimigo de um cozinheiro é a expectativa e o melhor amigo é a fome”. 

Bem, aqui estou eu, contrariando a chef e elevando expectativas, mas saí dali leve e feliz, com vontade de bater no liquidificador um tanto da minha infância com aquele almoço, só para dar um considerável upgrade gastronômico nas minhas memórias. 

Assim me senti: voltando para casa, sem nunca ter estado lá.

Encomende um dia de sol e vá. 

Contato do Angá Ateliê Culinário, aqui

para mais fotos e pratos, veja o destaque no meu intagram, aqui

sobremesa de verdes e sorvete de queijo de cabra
da carta de vinhos predominantemente locais, de baixa intervenção e pequenos produtores, um ótimo riesling renano da Cão Perdigueiro, do Rio Grande do Sul