Em respeito à terra – Crocadon Farm, Cornwall

Área externa com gazebo de madeira, mesas e cadeiras ao redor, e um guarda-sol, rodeada por vegetação.

Que graça tem para o leitor, saber sobre um lugar que já fechou? Talvez nenhuma, mas precisei escrever porque foi um dos projetos mais fantásticos que já tive o prazer de conhecer, que não vingou por ser muito distante de tudo. Deixo o meu reconhecimento. E seguirei o chef, onde quer que vá.

Paramos o carro num descampado que servia de estacionamento e, dez segundos depois, atrás do capim dourado e das árvores que margeavam uma trilha lateral, a silhueta de um homem altíssimo e elegante cruza um pequeno portão. A luz do sol do fim do dia brilhava quente em suas costas e a coleira de um border collie o puxava aos solavancos, em nossa direção.
Estava numa cena de Jane Austen.
“Bem-vindos!” – ele disse. “Em breve estarei lá!”.
O “lá” era o salão da Crocadon Farm, um restaurante “solo-cêntrico”, nos explicaram, com um menu criado a partir de tudo que brota na fazenda, sempre orgânico ou de cultura regenerativa. O homem altíssimo era o chef Dan Cox.

Caminho de terra entre vegetação exuberante, ladeado por plantas altas e folhas grandes, com cercas e um antigo edifício de pedra ao fundo.

O filme não parou de rodar enquanto entrávamos pelo corredor lateral da construção feita de pedra, com plantinhas pelo chão que eram meio mato, meio horta. Tive ímpetos de mastigar tudo ali, mas disfarcei meu lado bicho e mantive o focinho em pé.

Desembocamos num pátio central em que tudo era cinza, fora o azul do céu: o cascalho no chão, os tampos das longas mesas de piquenique, as casas de pedra, o telhado do quiosque no meio do pátio. Imaginei um café com croissant recém-saído do forno vindo da padaria que funciona ali, fechada àquela altura do dia.
Enquanto a hora da reserva não chegava, passeamos pela horta que tinha de tudo: uma estufa que parecia uma instalação artística, com fios que suspendiam galhos aqui e ali, flores comestíveis, kohlrabi, mizunas, e variedades que nunca ouvi falar, fossem de couves, cenouras, repolhos, nabos ou rabanetes, além dos 50 tons de beterraba que reencontraria depois, esparramados pelo cardápio.

No salão, os bancos de inspiração nórdica cobertos de peles davam a pista de que, mesmo no Verão, a temperatura cai bastante à noite. Tudo se resolve com a gordice emblemática e incontornável da Cornualha, o cultured cream, que ali vinha num canapé com shiso crocante em folha e creme, em excelente abre-alas.
Mas fujo do assunto…

Cozinha estilizada com chefs trabalhando, mostrando preparação de pratos e utensílios de cozinha.
Mesa de jantar redonda em madeira com cadeiras de madeira, cobertas com peles. Decoração simples e aconchegante em ambiente iluminado.
Prato gourmet com sobremesa apresentada em uma fina camada verde, decorada com folhas de hortelã e pequenos pontos de molho branco e verde, servida em um suporte de pedra.


Logo que recebi o cardápio, em notas de rodapé, soube que comeria um carneiro mestiço das raças Jacob e Zwartbles, maturado por 5 semanas e abatido com 6 anos de idade. Passou a vida melhorando o solo, diziam.
Gosto da abordagem direta britânica, que não cerca de eufemismos nossos hábitos carnívoros, mas convém não dizer, assim de sopetão, a idade da vítima.
Brincadeiras à parte, a declaração vinha para esclarecer que a carne de um carneiro ‘maduro’ pode tão deliciosa quanto a de um cordeiro – que é abatido com 120 dias, em média – quando o animal é bem tratado. E era.

Três chefs cozinham em uma cozinha rústica e bem iluminada, com uma bancada de madeira e utensílios de culinária.

Rimando com o conceito orgânico da casa, há cidras de baixa intervenção, uma parceria com uma microcervejaria local e vinhos naturais; alguns melhores, outros bem difíceis. O espumante foi “funky” demais, mas tomamos rótulos agradáveis.

Uma sobremesa decorativa em uma tigela branca, com camadas de creme ou mousse e pétalas de rosa em cima, servida em uma superfície de madeira.

Seguimos com a vieira de pesca artesanal, com rabanete branco e caldo de rosas. Nunca imaginaria que desse certo, mas era delicadíssimo o todo, com rabanetes que não deixam a textura ficar enjoativa.

Prato gourmet com uma mistura de vegetais frescos, flores comestíveis e uma base de molho verde, servido em um prato redondo sobre uma mesa de madeira.

Então, veio um dos melhores pratos da sequência; uma poesia em forma de abobrinhas – as primeiras da estação, disse o chef – com margaridas e menta. Carrego a textura crocante dos legumes e o frescor dos sabores até hoje.

Um prato elegante com um molho laranja sendo derramado de uma jarra, sobre guarnições de legumes coloridos.

A lagosta vinha com a cenoura mais doce e tenra do planeta – a híbrida sugarsnax 54 –, além de abóbora duschesne e folhas de pimenta. Estava bom, mas o molho fermentado ofuscava um tanto o crustáceo.

Prato de comida gourmet apresentando uma salada com folhas verdes, fatias de vegetal e flores comestíveis, servido em uma louça rústica sobre uma mesa de madeira.

Na sequência, polvo com duo de beterrabas – a badger flame e a avalanche – com anis hyssop, em caldo delicadíssimo. Como já escrevi outras vezes, a alta gastronomia está fugindo de polvo por conta da pesca de pote, que está exterminando com as fêmeas. Ali, explica o chef, só serviram porque foi um bycatch da pesca da lagosta. As beterrabas eram inacreditáveis demais, coisa de outro planeta, com seu caldo assado e caramelizado lentamente. Espetacular.

Prato elegante com uma composição de folhas verdes e fatias de vegetal, servido em um prato de cerâmica sobre uma mesa de madeira.

Depois, um robalo pescado com linha, aspargos, kohlrabi em molho de azedinha e urtiga, bem executado.

Prato de carne com fatias de vegetais como rabanete e uma folha grande verde, em fundo de mesa de madeira.

Finalmente, o carneiro macio, claramente bem tratado, não partiu em vão. Veio com nabo temari vermelho – um híbrido mais doce que o normal – e flor de sabugueiro. Na foto, antes da regada do seu caldo profundo.

Um prato com uma sobremesa verde em uma tigela artesanal, acompanhado de um arranjo floral colorido em um vaso de cerâmica.

Nos doces, um sorbet de verbena limão, como pré-dessert ácida, em contraste com a sobremesa de morangos verdes do jardim, com o tradicional pudim local e merengue de ervas da horta. E não, você nunca comeu morangos… Os da Cornualha são considerados alguns dos melhores que há, com alto teor de açúcar. Eu não comeria outra coisa de abril a agosto.

Bolo de sobremesa em uma tigela com morangos, folhas verdes e pedaços de um ingrediente branco, enquanto uma colher toca o prato.

Fora o tempo entre os pratos, longo demais, a refeição foi perfeita em todos os sentidos: procedência, criação, execução, propósito, ambiente e serviço.
Dan Cox acredita que quanto mais se regenera o solo, mais sabor o alimento tem. Não só concordo como sou a prova viva; alguém que escreve sobre comida há anos e garante que os ingredientes dali tinham muito mais sabor.

Assim, terminava uma das melhores refeições do ano. Saí querendo voltar.

Fim

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[Abaixo, um vídeo sem a menor vocação para o sucesso, que não sabia que seria postado…]

Uma pessoa segurando uma garrafa de vinho com rótulo artístico apresentando um polvo e o texto 'Beck Ink'.
Estufa coberta com rede, contendo mudas de plantas em mesas de cultivo.
Vista interna de um viveiro de mudas, com plantas verdes em bandejas sob uma cobertura de lona verde que filtra a luz do sol.
Flores pink em um jardim com uma cerca ao fundo e céu azul.
Entrada de uma estufa, com paredes de plástico transparente e uma estrutura de madeira, cercada por plantas verdes.

Lisboa, debaixo d’água – um roteiro de restaurantes

Vista panorâmica de uma praça em Lisboa, com um monumento ao centro e edifícios históricos ao redor. Pessoas caminham e se sentam nas escadas do monumento, enquanto nuvens brancas pairam sobre o céu azul.

Fui perseguida por Ingrid, maltratada por Joseph, stalkeada por Kristin, e me aborreci com Leonardo. Por sorte, Marta não me alcançou.

Prática comum nos EUA, batizar tempestades agora é moda em Portugal. Como “amigos’ que não anunciam a visita, essa turma me fez inesperada companhia nas três semanas em que estive em Lisboa, trazendo ciclones que me empurravam pelas ruas, granizo que mirava em minha testa (é grande!), e pôças gigantes que me distenderam minhas coxas.

A verdade é que desastres climáticos não ficam mais ‘fofos’ quando batizados, mas são práticos na hora do xingamento.

Felizmente, há restaurantes.

A VOLTA (INEVITÁVEL) AO PRADO

Placa com o nome 'Prado' em frente a edifícios históricos em uma rua iluminada pelo sol.


A saudade era tanta que enfrentei bravamente os 30 minutos de ventos a 120km/h na caminhada do Príncipe Real até o Prado enquanto os cabelos açoitavam meu rosto. Cada passo vencido foi motivado pelas lembranças da última visita, fosse o estufado de boi Barrosã; um ovo de codorniz escorregadio e sedutor com cremezinho de cogumelos cheio de umami e…. PAF! Vira o guarda-chuva pela décima vez.

Força, Cristiana! Em breve haverá vinho!

O Prado é meu porto seguro, desde 2019, por um sem-número de motivos. O salão, nas lindas mãos da competente Becas, flui rapidamente e sem afetações, rimando com a casa. O serviço de vinhos está à altura da carta que é das minhas preferidas na cidade, com equipe muito bem-preparada para entender o cliente e traduzir seus desejos, não à tôa são “ouro” na Star Wines List. Por fim, adoro o esquema de pequenos pratos que acomoda fomes e bolsos P, M ou G.

A cozinha de António Galapito passa longe da cansada e apelativa fórmula “trufa / caviar / wagyu / foie gras”. Ao contrário, tem foco na criação, sempre com os melhores produtos, frescos e da época, vindos dos quatro cantos de Portugal.

Nas duas visitas que fiz nesta viagem, saí com vontade de voltar, fosse para a abóbora manteiga com soro de queijo de cabra, brioche e pistaches; quem sabe, para as gambas da costa fresquíssimas com maçã verde, azeitonas e alcaparras e caldo perfeito de algas kombu. Uma poesia. Também não esqueço da enguia defumada com manteiga de cabra, tupinambo e trompetas negras, com ‘peso’ ideal contrabalançar o olhar gelado de Ingrid, pela janela. O colágeno da aleta de robalo com mexilhões [foto abaixo], emulsão de alho e coentros, parecia um lip gloss, perfeito em acidez, equilibrado e denso.

[Faço aqui uma pausa ranzinza sobre o atum]

“Atum de cativeiro sabe a cavala”, disse Galapito. Em português brasileiro, quer dizer “tem gosto de cavala”, isso porque o peixinho cavala é grande parte da ração do peixão atum.

Mais do que ninguém, NADA tenho contra produtos de cativeiro, já que a avassaladora maioria não entende a diferença. Digo o mesmo sobre o gosto metálico das ovas do esturjão industrial ou da falta de firmeza e personalidade do camarão de tanque. Se ninguém nota, tanto melhor para o planeta, mas há quem venda gato por lebre, exibindo peças insípidas como troféus, com margens absolutamente incompatíveis. Um grande retrocesso para o setor.

Pois bem, ali era selvagem e fresco. Vinha com suco de pimentões grelhados, vinagrete feito de óleo de pimentões defumados e garum de salmonete. Estava, realmente, de chorar.

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Prato com peixe grelhado, decorado com ervas e legumes, servido em um restaurante, com água, pão e óleo de oliva ao fundo.

O sommelier do Jura me recomendou um dos melhores rótulos da viagem: um branco feito com a uva ‘galego dourado’, autóctone de Portugal, muito aromático e gordo na boca, cheio de tangerina, maçã verde, mineral e salino, que acompanhou lindamente vários pratos. Era um Quinta de San Michel 2023.

Sugiro encomendar um vento a favor, na volta.

BROTO

Um prato com fatias de peixe grelhado e um cítrico sendo ralado sobre elas.


Tem cinco meses, a criança.

A casa recém-inaugurada de Pedro Pena Bastos, no Chiado, também serve pequenos pratos. Provei de tudo um pouco e voltei para os que casaram comigo.

Repeti a tarte de vagens e ervilhas com requeijão defumado, alho frito e noz pecã, pequenina e livre de culpa, para se comer quase de uma vez só.

Também repeti o pregado curado, com delicado molho de tangerinas – da época – e purê de brócolis, que muito me lembrou as preparações do Ocyá, no Rio. Da segunda visita, o peixe era sarda, também muito boa.

Como toda a casa que que engatinha, houve pequenas inconsistências entre visitas, mas nada grave, como a molhenga de tomates com ovos orgânicos de galinha pedrês (carijó), paiola, óleo de feno e salada de mizunas, que na primeira visita foi um prato “familiar”, caloroso e inesquecível, da segunda, foi menos feliz. Ainda assim, voltaria para testar uma terceira. Molhenga é o molho untuoso da francesinha e paiola é a carne do porco sem gordura, maturada por 48hs.

Prato de comida com folhas de couve sobre um pedaço de carne, servido em uma tigela branca com molho escuro.

Me encantei com a salsicha de porco com couve lombarda, purê de batata e molho do cozido. Uma delícia. A preparação é comum ao Inverno de toda a Europa, sejam chamados de “embrulhos de couve”, em Portugal, ou “choux farci” na França, e por aí vamos… mas a diferença está na profundidade do caldo do cozido, no ponto perfeito da couve, na qualidade do animal. Lembrei uma versão com foie gras e pistaches que comi no Les Parcelles, em Paris, sobre a qual escrevi aqui, e que sempre ficou na memória. Pois bem, acabou de perder o pódio… Ah! E não se esqueça de pedir o pão, para não perder uma gota do caldo do cozido, e me agradeça depois.

Memorável, também, a sobremesa de cacau 75% de São Tomé com sorvete de pinheiro (delicioso, e lembrava abacate), umas raspas de laranja, rega de azeite fresquíssimo e pinhões.

Vale sempre investir nos queijos portugueses, e ali há ótimos.

A carta de vinhos é muito simpática e a sommelière argentina, uma presença atenta no salão.

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FLAMMA

A brasa, que batiza a casa, fez do seu perfume um companheiro à mesa. Sua “presença”, de início, me incomodou. Cabelos e roupas eram defumados aos poucos, olhos lacrimejavam e a fumaça se interpunha entre os aromas do meu vinho e eu, como um chato que interrompe a conversa. Depois do breve desconforto inicial, a história foi outra.

Um prato elegante com espetinhos de carne ou frutos do mar, servidos em um molho cremoso e decorados com cebolinhas picadas.

Achei o Flamma surpreendentemente barato para a criatividade e ingredientes que oferece. A chef brasileira Alessandra Borsatto – que passou por casas pesadas como as de Alexandre Silva, Avillez e Henrique Sá Pessoa, além de uma temporada em San Sebastián – é apaixonada por comida japonesa e pintxos e consegue fazer milagres numa retaguarda mínima, onde reina o carvão vegetal, de cascas de coco.

ZERAMOS um cardápio de mais de 20 itens, feito de espetinhos na brasa, cheios de latinidade e com muita presença de vegetais, que poderiam me distrair um dia inteiro. Entre eles, sonhos de parmesão com pasta de caju e ají; um milho baby na grelha – que gostei bastante – com pipoca, emulsão de milho frito, tajín (cítricos e malaguetas desidratadas) e talos de cebolinha por cima. Gostei, ainda, de um sashimi de atum balfegó que vinha em espeto, sobre um molho Nikkei que misturava leche de tigre, malaguetas, óleos de gergelim e soja, flocos de alga nori e cebola fresca. Também muito bom o caranguejo de casca mole, empanado em tempura delicada para não roubar sua textura, que vinha sobre um escabeche diferente, feito com tamarindo e sementes de coentro. Nas carnes, coração de frango na marinada anticuchera de especiarias brasileiras, e uma farofa de mini-milho para chuchar o espeto. Junto com o angus na brasa com alho frito, tratou de matar as saudades de casa.

Entre as sobremesas, gostei muito do marmelo com queijo coalho e a folha “limonada” que tem o nome mais simpático da vida, a lúcia lima, que vai ao carvão, e volta sobre um leite condensado com erva-mate e praliné de sementes de girassol.

A sala também merece destaque.

João Marujo, figura simpática e carismática, além de marido e sócio da chef, era quem fazia a recomendação de vinhos no Canalha. Agora, é excelente interpretador de desejos no Flamma e nos deu dicas absolutamente precisas de vinhos de baixa intervenção, a começar com o espumante do Loire, Bellivière Lei P’Tits Vélos extra brut, cheio de maçãs no nariz, fresco, leve e ótimo custo-benefício e, também, um palomino salino, cítrico e mineral chamado Sotovelo, que escoltou muito bem nossa viagem no prato.

Voltarei um dos 8 lugares da calçada, se o tempo permitir, mas naquele dia, Joseph, Kristin, Lorenzo ou Marta, já tinha feito reserva.

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JNCQUOI FISH

Uma mão segurando uma panela de cobre com risoto, adornada com ervas frescas, sobre uma superfície de mármore.


Fui nadando, na companhia de Joseph, até a Avenida da Liberdade.

Depois de tantos cardápios parrudos capazes de fazer o corpo vencer o frio, senti falta do mar; e o Inverno é grande época para os peixes, mais gordos e saborosos.

Na elegante JNcQUOI House, townhouse portuguesa que é parte do grupo que inclui 8 restaurantes entre Lisboa e Comporta e mira no “luxo”, acabam de inaugurar dois restaurantes que homenageiam o Atlântico: o Fish, no térreo e o Table, um balcão de 10 lugares no subsolo para uma experiência mais gastronômica.

Luxo ali, para mim, não é o celebrado caviar no bolinho de bacalhau ou o hot dog trufado, é ter inúmeros peixes recém-pescados me espiando do balcão gelado e a excelência das preparações de Filipe Carvalho [foto], que provei.

O atum laminado vinha gordo, delicioso, com aipo rábano, cítricos e ovas de truta; o peixe-rei, que não está no cardápio impresso, mas está na época, vinha inteiro, fritinho, com maionese de kimchi e lima – viciante (!); a gema gorda dos ovos de codorniz estrelados com carabineiros ao alho estalava na língua; e o arroz de lavagante vinha mergulhado em caldo delicioso e denso. Por fim, provei um delicado peixe-galo ao sal, num dia, e um linguado gordo, no outro. Escrevendo essas linhas, já quero voltar.

O serviço no Fish é impecável e atento. Sob a batuta do gerente geral do hotel, Morgan Inesta, recém-chegado do grupo Ducasse, em Paris, garçons, maîtres e recepcionistas dançam um afinadíssimo balé. Fiquei hipnotizada por um rapaz que limpava obsessivamente a borda de um prato.

Nos vinhos, ninguém menos que Filipe Wang, um dos melhores sommeliers de Portugal, na minha opinião. Ignorei a presença de Joseph e me atirei, de olhos fechados, nas harmonizações precisas. Entre vários copos, passeei pelo Listrão dos Profetas 2024, do Maçanita; por um espetacular weissburgunder Wasenhaus 2023, um porto da safra de Wang e.. Pasmem!, tinha Ratafia JmSélèque.

Por favor, não deixem de pedir a gordice que é o pão de leite no forno com creme inglês.

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JNCQUOI TABLE

Chef apresentando pratos em uma cozinha moderna, com garrafas de bebida ao fundo e um prato de comida na mesa.

A dupla de Filipes também está no subsolo, encantando no JNcQUOI Table. Ali, o menu-degustação teve belos momentos:

Uma sapateira com santola e abacate, nasceu para o salino e crocante côteau champenoise Les Mesnil sur Oger do Robert Moncuit, que se sentou ao seu lado. Também houve um delicadíssimo camarão marreco em tartare, com gel de ponzu e maionese de sriracha. Igualmente memorável era o atum com maionese de pepino, sorvete de alcaçuz, crocantes de maçã granny smith, uma pimenta tão necessária quanto delicada, e alcaçuz muito sutil. Dos pratos mais criativos da noite. As vieiras vêm com couve-flor, caviar ossetra e espuma de manteiga noisette com toque de vinagre de jerez, e muito combinaram com o branco português de altitude, da Susana Esteban, que estagia sob uma camada de véu e tem na boca toques de curry e maçã verde.

Pausa para dar foco a um brioche delicioso, com manteiga francesa extra-seca e crosta estaladiça, como num brioche suíço.

Um pão folhado dourado e macio em um prato preto, com uma garrafa de vinho ao fundo.

Adorei o tortellini de rabo de porco e trufas com crocante de parmesão, espuma de manjericão e presunto, com o contraponto da ervilha lágrima de cozimento perfeito e lagostins de qualidade excelente. Uma festa de muitas camadas e texturas. Ótima surpresa o narai kinmon da Suginomori, um junmai daiginjo delicado, que apesar do polimento e das lindas notas florais, ainda tinha delicado umami. Acompanhou um salmonete com escamas crocantes, diferentes texturas de tomate, lingueirão, feijão verde, molho de caril de ervas e um maravilhoso e denso molho de espinhas e fígados do salmonete. Poderia tomar um balde.

A sobremesa poderia facilmente ser o Madeira Terrantez 20 anos da Henrique & Henriques, mas adorei o frescor da pré-dessert: uma sopa de lima, cremoso de hortelã e sorvete de casca de limão. Depois, tangerina com creme de café e pó de amêndoas, e três folhinhas de cidreira que fizeram toda a diferença para levantar o todo.

O Jncquoi Table é onde a base francesa clássica encontra os incríveis peixes e frutos do mar de Portugal. A manteiga está por todo lado, mas de forma equilibrada e sem atropelar o produto.

Ah! Se todos fossem assim…

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KHAYYAM

Ambiente de jantar acolhedor com mesa coberta por toalha branca, duas cadeiras confortáveis e decoração com plantas, tapete colorido e prateleira cheia de objetos variados.

Como Kristin não largava do pé, cobicei uma viagem por climas áridos.

É um luxo ter uma boa comida iraniana, em LIsboa. O Khayyam tem sabores originais, com uma profusão de tâmaras, almondegas suculentas com especiarias originais e iogurtes.

A cozinha iraniana tem muitos vegetais, frutos secos, além de carnes de frango ou vaca em kebabs ou ensopados. Sobretudo, tem muito arroz e açafrão.

Logo de entrada, as pastinhas com tiras de um pão da casa (que parece o barbari, achatado e comprido, de crosta dourada, mas macio por dentro), podem nos fazer companhia até o fim da refeição. O mast-o-moussir, por exemplo, é pasta feita com iogurte bem denso feito com echalotas persas, secas e vinha decorado por pequenas pétalas de uma flor que não investiguei.

Cada província, no Irã, tem seu jeito de preparar almôndegas. Minhas koofteh, grelhadas por fora e macias por dentro, eram de vitela, com arroz muito perfumado, um tanto de açafrão, lentilhas bem firmes, tâmaras e cebolas caramelizadas. Não se consegue parar de comer. O arroz basmati é muito perfumado – demora 4 horas para ficar pronto – e tem menos carboidratos por conta do número de lavagens. Alivia a culpa?

De quebra, há muitas opções vegetarianas com perfumes persas. Aliás, e nada a ver com nada, descobri que zeytoon é azeitona….

Como um pequeno bistrô iraniano de bairro, de comida simples, mas saborosíssima, o restaurante tem tapetes pelas paredes, pelos encostos de cadeira, chãos e mesas. Um projeto da acadêmica Sépideh Radfar, professora de Iranologia da Universidade de Lisboa, tem ótimos menus a preço fixo no almoço, para bolsos de todo tipo.

Sinceramente, um achado.

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CANALHA

Fachada de uma loja chamada 'CANALHA', com grandes janelas exibindo prateleiras e copos. Interior iluminado com utensílios de cozinha e um funcionário visível ao fundo.

De frente para o Tejo, a cobertura do MAAT me pareceu o guarda-chuva ideal para os violentos baldes d’água despejados por Joseph, sobre a cidade. Quando o tempo deu uma trégua, subi ao telhado do museu e entendi que, a partir de lá, se pode atravessar uma ponte sobre os trilhos que desemboca pertinho de uma das tascas mais queridas de Lisboa: o Canalha, Shangrilá do estômago.

João Rodrigues é, seguramente, um dos melhores chefs do país, que tem ali um projeto simples e adorável. Comece com o clássico bolinho de bacalhau; ou ainda os pasteizinhos de perdiz, muito bem temperados; os ovos de gema densa, com deliciosa sobrasada e cogumelos e o suco da cabeça de carabineiros despejados sobre eles; também o robalinho, se estiver na época, fresquíssimo e inteiro; ou mesmo um ribeye de chorar de bom com batatas ótimas. Ah! Para quem “sweet tooth”, há doces – e muito, muito doces. Não espere grandes acompanhamentos. A proposta ali é ser um restaurante de bairro excelente, com ingredientes sazonais. E entrega.

Fica aqui a dica de um programa casado.

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MAR

Prato de frutos do mar com lagostas e camarões em uma panela de metal com alça.


MARÉ, de JOSÉ AVILLEZ (Cascais)


Os restaurantes que vão da Boca do Inferno até o Guincho, com a exceção do estrelado do Fortaleza do Guincho, com seus menus-degustação, não têm exatamente foco em criação. Brilham pelas preparações clássicas que valorizam o ingrediente puro do Atlântico, avistado em ondas que explodem logo abaixo de nossas mesas.

Com os vizinhos Mar do Inferno e Monte Mar fechados para o Inverno, o Maré, de José Avillez parecia o ponto de encontro de todas as famílias de Cascais, que se reúnem em torno dos peixes.

Tenho uma relação afetiva com o Mar do Inferno, com seus peixes fresquíssimos expostos pelas vitrines, e assados inteiros no sal. No Maré, há poucas opções de peixes inteiros. São servidos em postas, e sempre na brasa. Então, meu foco ali foram os frutos do mar.

Gostei das gambas da costa, realmente frescas e de sabor muito doce, que estavam na sugestão. Também adorei as bruxas, pequenas primas da cavaquinha, conhecidas como cavaco-anão ou santiaguinho [foto]. Totalmente locais e abundantes por ali, e estavam bem cheias de sabor.

O serviço foi excelente e acolhedor, como o espírito da casa. Bela carta de vinhos.

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BAR DO FUNDO (Sintra)

Tomamos coragem de encarar aquele manto branco do céu antes que arrebentasse, e apresentar Sintra aos filhotes enquanto Tempesta – a deusa das tempestades –, distraída, distribuía tarefas para Leonardo e Marta.

A ideia era passar pelo Palácio da Pena e Quinta da Regaleira e almoçar em “qualquer lugar”, sem muita pesquisa. Pois bem… O “lugar”, ofendido, respondeu.

Não esperava muito do Bar do Fundo, além da bela vista, mas o todo me arrebatou. Comida correta, serviço simpático, as montanhas que mergulham no mar, e o deque de onde se avistava aqueles 50 tons de cinza.

O casco de sapateira recheado estava ótimo, assim como o correto arroz tostado de carabineiros. No copo, voltei à vinícola San Michel para um Malvarinto de Janas 2023, fresco e delicioso.

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VINHOS

Interior de um restaurante com mesas cobertas por toalhas brancas, cadeiras de madeira e velas acesas. Ao fundo, uma prateleira com garrafas e uma janela que revela um ambiente externo iluminado.


BAR ALIMENTAR

Cheguei às 19, numa casa vazia em que me lembraram que eu teria de ceder o meu lugar em 2 horas. Quando parti, às 20:30, havia apenas 4 lugares – e só no balcão – em meio a uma casa lotada.

Bar Alimentar é o nome perfeito para aquele canto. O ambiente é uma graça, com paredes branquinhas, iluminação gostosa, música boa e luz baixa, distribuídas entre os pequenos salões, gostosos de estar. Num deles se pode, inclusive, sentar junto à vitrine para namorar o movimento da cozinha.

A reserva é obrigatória nesse bar de cheia de gente bonita, com comida superior à média, para uma casa de vinhos – aliás, como o Bar Belisco, no Rio.

Era delicioso e equilibrado o crudo, com toques cítricos, mas doces, no auge da época. Segui a sequência sugerida por João, barman dublê de cozinheiro e garçom, e não me arrependi. A língua vem bem assada e muito farta, num pão de fermentação natural, com salsa verde e malagueta. Para grandes fomes.

O grande acerto da última visita, no entanto, foi uma equilibrada salada de Inverno, com tupinambo e stracciatella fazendo um creme na medida, leve como um iogurte; tudo em temperatura ambiente. A hortelã nos tira do Inverno e faz lembrar que é uma salada.

Nas duas vezes em que lá estive fui muito bem atendida, tanto por Vasco quanto por João.

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PARRA

Mesa redonda de mármore com talheres e copos, cercada por duas cadeiras vermelhas, em um restaurante com vista para uma rua externa através de uma janela de vidro.

Apesar de haver opções de pequenos pratos e, por vezes, pop-ups de chefs convidados, a ideia ali é tomar um copo, ou vários, levar uma garrafa, ou várias, de um estilo, ou vários.

Com sorte você encontra o sócio, Artur Emashev, para ótimas dicas e bom papo.

Artur é um sommelier russo, que saiu do país quando a guerra começou. Foi gerente geral de um grupo de restaurantes em São Petersburgo – a capital gastronômica do país – e. apesar de seu wine bar lisboeta ter apenas dois anos, já está redondo e com muita qualidade. Tem excelentes produtores, que conhece pessoalmente e um profundo conhecimento que repassa para a equipe, num salão feito majoritariamente de ucranianos e russos. Em breve, a loja ao lado será adicionada ao projeto, já bastante feliz.

Da última visita, o Champagne de Montagne de Reims: Chartogne-Taillet Sainte Anne foi ótimo custo-benefício. Extra-brut floral, mineral e cítrico.

Passeei pelo Saint-Roman Sarnin Berrux 2017 e parti, em seguida, para um surpreendente vinho da Toscana, projeto pessoal de Federico Staderini, chamado CUNA. A pinot fin, antigo clone da pinot noir e uva cult do momento (badalada na Borgonha por Arnoux-Lachaux, Romanée Conti, entre outros), faz esse vinho marcante, mas elegante, com cerejas maduras, violetas e especiarias. Foi sugerido para acompanhar o veado da sugestão, com castanhas, purê de aipo e marmelo, prato concebido pelo chef Hugo Candeias, que fez um pop-up na casa.

Fiz reverência a um Madeira, como sempre. Era o Barbeito Single Harvest 2011. Além dele, coisa linda foi o riesling austríaco da Loimer, um TBA 2019 cheio de damasco e limão.

Também houve um Vigna del Volta, da espetaculosa Elena Pantaleaoni, O Parra é distribuidor exclusivo dos rótulos La Stoppa.

Não é bobo, não, esse Artur.

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ROCCO

Homem vestindo um terno preto e gravata, sorrindo e parado em um corredor com prateleiras de vinho ao fundo.

Não falo da comida, e sim dos vinhos; em especial da experiência da última visita aos banheiros.

Sim, os banheiros do Rocco já têm grande fama, com seus papéis de parede cheios de plantas e flores, com tantos espelhos que chego a ficar tonta. Já presenciei tiks e mais toks, poses, bocas e pezinhos por ali. O que nunca tinha visto – et ça m’interésse – era o mundo de garrafas que se esconde na adega atrás dos lavabos, como uma passagem para outro mundo. Essa sim, fez a cabeça girar.

Quem desce as escadas vindo do lobby do hotel Ivens, chega até lá diretamente. Já quem desce do restaurante, faz a curiosa passagem espelhada e florida, por entre pias e toalhinhas, que considero bem mais divertida.

Depois de um ótimo atendimento no restaurante e um monte de perguntas minhas sobre os copos indicados, o gentil sommelier Antonio Roxo fez um tour pelas prateleiras da adega, feita predominantemente de clássicos para um público idem. São champagnes, vinhos verdes, brancos, tintos ou de sobremesa, fortificados ou licorosos, de Norte a Sul de Portugal, além de rótulos italianos, franceses, neozelandeses, que incluem também grandes nomes do Mundo, como Château Margaux, por exemplo, ou jóias como vinhos Madeira especialíssimos, de lotes de apenas 600 garrafas. Há, ainda, curiosidades como a garrafa única do Czar 1999, da Ilha do Pico, o vinho tinto tranquilo com mais álcool do mundo: impressionantes 19% sem açúcares ou leveduras adicionados; também uma pequena pipeta que sobrou de um lote de ABF do Vallado, de 1843.

Achei a Disney no subsolo.

Troquei o balde de chuva que caía lá fora, por outro de saliva, cultivada ao longo de torturantes dois minutos e meio de montagem cuidadosa e bem narrada, de um delicioso tiramisú, no restaurante.

Encerro aqui a temporada de 2026, numa cidade que me impressiona cada vez mais pela qualidade média dos produtos e pescados, e pelo nível da hospitalidade.

Mesmo sem poder flanar pelas ruas, os restaurantes foram as mais lindas bóias num oceano vertical sem fim.

Todas as fotos dos pratos, vinhos e ambientes descritos acima podem ser vistas nos destaques “Lisboa 4” e “Lisboa 5” no meu Instagram crisbeltrao.

Alugue um escafandro e mergulhe.

saiba mais sobre o Rocco

Um pub de 500 anos – Halzephron, Cornwall

Há tão poucas construções à vista que, da beira daquele despenhadeiro, consegui projetar a vida há 557 anos. E o pub já estava lá. 

O grande programa de um dos primeiros povoados da Cornualha, instalado no vilarejo de Gunwalloe – que existe ao menos desde 1086 – era ver navio afundar. De um dos naufrágios veio parte da madeira dos quartos e do bar da estalagem/pub Halzephron, que fica no topo de um penhasco, de frente para o mar.

Da praia lá embaixo, tesouros de navios espanhóis, portugueses, holandeses ou ingleses foram surrupiados pela população local através dos anos: de conhaques a moedas e lingotes de ouro e prata.

Atrás de uma das paredes da estalagem, um alçapão leva ao túnel que desemboca na igrejinha do séc.XV, ali perto. Dizem que uma das cavernas da praia dava na casa de um contrabandista local.

Pensava nos 5 séculos de história que a casa avistou, enquanto goles de Porthleven, pale ale da cervejaria local Skinners, escorregavam pela garganta.

Passeei pelos salões de pé direito corcunda, abaixando a cabeça a cada vão de porta e admirando objetos náuticos amontoados por todo lado. Nas paredes do cômodo nos fundos, fechado para o almoço, várias pinturas de navios e mesas com toalhas engomadas, em azul marinho e branco, claro. De frente para a minha mesa, no bar, a foto do avô do dono, um pescador com rede, cesto e cachimbo, me espiava.

Comecei com um chowder (sopa de peixe) pedaçudo e delicioso, com toque defumado que aqueceu e fez esquecer do vento implacável, lá fora e segui com uma salada simples e fresca de caranguejo, enquanto o marido foi de sopa de cogumelos e um corte de alcatra, ambos muito bons.

De sobremesa, a treacle tart, talvez a torta mais doce do mundo, feita de melaço, uma lembrança afetiva do povo britânico. Tá explicado.

O desvio de rota foi lindo. Gunwalloe é um dos 46 lugares na Grã-Bretanha com o selo AONB “área de beleza natural fora do comum”, mas além do pub, igreja e praia, há pouco para se ver, ali.

Na saída, lendo sobre o vilarejo, vi que o último censo há 20 anos trazia a população de 219 pessoas, incluindo os da aldeia vizinha.

Decerto, há mais fantasmas de contrabandistas e marinheiros náufragos, bebendo naquele bar.

Halzephron

Sapatos confortáveis – Bar Crispin, Londres

Close-up of a glass of amber-colored drink on a table in a bar, with a water glass and a bottle in the background. People can be seen socializing outside the bar.

Alguns dos segredos de uma vida feliz: “usar sapatos confortáveis” e “saber de lugares abertos o dia inteiro, com bons vinhos, não tão caros e de boa qualidade”.

Frasco de água no Bar Crispin com a inscrição 'BAR CRISPIN'.

Assim fui parar no Bar Crispin, no SoHo londrino, depois de muito andar para lá e para cá.

Espremidinho na Rua Kingly, o bar tem ‘varandica’ e salão pequenino feito de espelhos triangulares, bancos altos, mesas de zinco e detalhes em rosa, que me lembraram uma decoração futurista dos anos 70. 

O serviço é muito simpático – às vezes distraído –, a comida é boa e a carta é ótima e bem grandinha, feita basicamente de vinhos de baixa intervenção, orgânicos e biodinâmicos, de toda a Europa.

Um prato com fatias de pão integral e uma bola de manteiga fermentada batida, sobre uma mesa de metal escuro.

Pedir o pão é uma alegria, e ela vem com manteiga fermentada batida.  

O pequeno ‘sando’ de camarão é uma bobagem deliciosa. Num pão branco fininho, daqueles que saíram de moda, o camarão empanado vinha com molho cítrico e tempero na medida.

Um mini sanduíche de pão branco com uma croquete empanada e maionese, montado sobre um prato branco.

O steak tartare tem estilo mais gordo e fechado que os nossos, com cominhos e outros tons indianos, sem tanta acidez, valorizando a carne. Gostoso.

Prato com steak tartare servido em um pão redondo, colocado sobre uma mesa de pedra em um ambiente de bar moderno, com iluminação suave e paredes de cor clara.

Já o mackerel (primo da cavala) vinha em porção generosa, chamuscado e oleoso – afinal, assim é o peixe –, com harissa (aquela pastinha de pimenta, que ali tinha um toque de chá e especiarias) e creme azedo fazendo bom contraste. Quando tudo terminar, então você me agradece por pedir o pão.

Prato com fatias de mackerel chamuscado, servido com molho em um cenário de mesa com pão, copo de vinho e utensílios.

Brinquei com os copos do dia, na lousa: um Falanghina Cooperativa Campani 23 simples, fresco e frutado, e um ótimo espanhol, Silice Viticultores Blanco 23, de Ribeira Sacra, feito de treixadura, albariño e Palomino, muito interessante, quase salgado e com muito aroma de levedura.

Um copo de bebida em uma mesa de metal em um bar com prateleiras ao fundo, onde estão dispostos garrafas e utensílios de bar.

O sorvete de aipo com maçã e mousse de creme fresco rimava com o dia, lá fora. Fui a ele, com sapatos confortáveis, claro.

Sorvete de aipo com mousse de creme fresco servido em uma tigela branca, acompanhado de um prato vazio e colheres de inox sobre uma mesa de metal.

Bar Crispin

Magnolia Bistrot & Wine Bar

“Esse lugar tem Feng Shui”, disse uma amiga. “Sempre gostei de tudo que existiu aqui”. 

Fui obrigada a concordar.

Por acaso estivera ali, um dia antes, olhando minha praça preferida através da janela do bistrô e achando a cena encantadora. 

Tenho foto da Praça das Flores em cada uma das estações do ano, mas sempre pela manhã, quando vou até o Copenhagen Coffe Lab para o abastecimento regular dos meus cafés especiais, depois de atravessar a rua com o meu pão preferido: o de trigo barbela da Marquise. 

Pela primeira vez peguei o entardecer visto da janela do Magnolia, como num enquadramento de filme. Fazia 9 graus e o azul profundo do céu lisboeta despencava lentamente, enquanto a praça começava a se iluminar. 

Talvez o mérito do cenário bem pensado seja do fotógrafo belga Yves Callewaert, que junto com a chef brasileira Camila Martins montou o espaço em maio do ano passado. Não saberia dizer, só sei que foi ótima ideia deixar o lindo afresco da antiga padaria Renascente no teto, que me rendeu um torcicolo de admiração. 

o afresco da antiga padaria Renascente

A casa é uma graça e feita para “morar”, com um cardápio cheio de pequenos pratos despretensiosos, leves e divertidos: há uma couve-de-bruxelas assada com tahine; camembert com mel de tomilho; aspargos grelhados com páprica defumada, cominho e raspas de limão; três tipos de “buns”, petiscos coisa e tal. Gostei muito da couve-flor assada com tahine, ervas frescas e cebola crocante e das almôndegas de borrego com iogurte de hortelã.

A carta de vinhos de baixa intervenção é curta, mas muito correta e a equipe é muito gentil (com brasileiros, na maioria, dominando a cena). Ah! E antes que me esqueça, a música é ótima.

Um lugar daqueles de bairro, para ir a toda hora. Longa vida ao Magnolia, mais uma linda flor na “minha” praça. 

couve-flor assada com tahine, ervas e cebolas crocantes
almôndegas de cordeiro com iogurte de hortelã e pistaches
brioche de pescada com iogurte temperado, molho de shoyu e mel e wasabi crocante
uma vista de dia
uma vista à noite

Instagram: @magnolia_lisboa

Para mais imagens e videos, veja o destaque do meu instagram sobre o Magnolia, aqui.

A parcela dos anjos e a outra, dos nem tanto

Sou péssima fisionomista, terrível com nomes, mas jamais me esqueço do que comi ou bebi. Não falo isso com qualquer orgulho. Não serve para muita coisa, além de evitar que gaste um bom dinheiro em algo que não presta ou de ganhar mais peso (ainda) com comida ruim. Trocava por habilidades sociais mais úteis.

Era 2014 e estava num almoço de trabalho no Ferreira Café, um restaurante de comida portuguesa em Montreal, quando provei um espetacular Coche 2010, de Dirk Niepoort. Um bom vinho tem sempre a virtude de me calar (anotem, pode ser útil). Acho que é o momento em que minha cabeça desmemoriada se ocupa de achar a gavetinha de “informações a guardar, para sempre” e decide desligar as demais funções do meu corpo.

O primeiro gole abriu outro compartimento mental e lembrou de uma taça do Niepoort Navazos 2009 que bebi num menu degustação no extinto Oud Sluis, na Holanda, e decidi que um sujeito capaz de fazer ‘isso e aquilo’ merecia, sem dúvida, uma pesquisa mais profunda.  

Desde Montreal, portanto, me encarreguei de conhecer absolutamente todos os rótulos da Niepoort que consegui encontrar, baratos ou caros. Talvez por isso, quando finalmente recebi Dirk e seu filho Daniel no meu restaurante, em 2018, eu exibisse um sorrisinho daqueles de terapeuta, como quem conhece os segredos do paciente. Foi um almoço adorável, feito dos belos vinhos levados por eles e, até por isso, de grandes silêncios de minha parte.

Edgar Alendouro, ótimo leitor de sedes alheias

Apesar da proximidade etílica com Dirk, fui parar na Cave Niepoort a convite de Nina, sua mulher, produtora de chás e personagem do último post, com quem estivera um dia antes. A ideia era ver as gavetas de secagem de seus oolong orgânicos e as pipas usadas de Porto que perfumam seu Pipachá, encerrando com chave de ouro a visita à plantação, no dia anterior.

“Edgar está pronto para lhe receber”, disse Nina.

Quando o portão se abriu, Marcela Lebl nos esperava diante de dois imensos tanques de aço com um astronauta e um foguete pintados, obra de João Noutel, um artista do Porto. E assim começou o tour às Caves Niepoort da Serpa Pinto, em Vila Nova de Gaia.

Enoturismo é um departamento novo na empresa; os armazéns e as velhas caves do século XIX só foram abertas à visitação no fim de 2021.

Mais que um passeio, é uma viagem no tempo que começa com aquele empilhado de barricas gigantes de todas as épocas sobre o chão de terra batida e desemboca no antigo escritório/laboratório da vinícola, lindo e congelado no tempo, com suas amostras, pipetas, notas e fotos da família pelas paredes.

No fundo, um grande salão cinza une o passado, no armazém com pé direito alto, paredes úmidas e janelas escuras e o presente, feito das prateleiras elegantemente iluminadas de um bar, sala de degustações e loja. Em vários nichos e estantes distribuídas pelo espaço, vinhos próprios ou de parceiros como a Equipo Navazos, além daqueles que importa com exclusividade da França, Alemanha ou Itália.

O bar/loja/sala de degustação

Cheio de ótimas intenções, lá estava Edgar Alendouro, antigo sommelier-fundador do Euskalduna (considerado como um dos melhores restaurantes do Porto), com passagem também pelo Mugaritz, que agora se encarrega das visitas técnicas, do clube de vinhos, da loja, dos chás e dos eventos privados da Niepoort.

– Que estilo de vinhos você gosta?, perguntou.

Falei “assim”o básico:

– De Portugal, vinhos de regiões mais frias ou Madeira… de resto: Borgonha, Piemonte, Jura, Jerez, sei lá…

– A vantagem desse espaço – disse Edgar – é que cada degustação pode ser única e adaptável ao gosto do cliente.

E é verdade. Afinal, a Niepoort tem de tudo, tanto de estilos quanto de regiões: faz coisas no Minho, Vinhos Verdes, Douro, Dão, Bairrada, Alentejo (sem mencionar os vinhos que produz fora de Portugal).

Ótimo leitor de desejos, Edgar começa a abrir coisas perfeitas. Poderia falar de várias delas (provamos dez), mas destaco algumas:

  1. Vinhas Velhas Bairrada (Bical e Maria Gomes) 2018 – com nota oxidativa, é fresco, mineral, salino, com boa acidez e o solo de argila calcária mostrando ao que veio. As vinhas são velhas, de 80/90 anos e o vinho envelhece em foudres (de 1.000 litros) usadas por mais de 30 anos, do Mosel. Vinha os foudres, que equilibram a madeira num mundo que, infelizmente, ainda parece viciado nela!
  2. O Ururabo (significa “flor”em Bantu), um vinho feito em botas antigas de Jerez. Produzido pela primeira vez em 2019, no Douro, é 100% gouveio (casta subestimada que funcionou perfeitamente bem para esse estilo de vinho). Vinificado com um branco normal, com a vantagem de ter desenvolvido a “flor” emprestada pela ‘bota’ (tonel de 500 litros) cedida por um amigo espanhol. Doze lindos meses com ela. Um vinho com muita fruta (viva a gouveio!) e complexidade.
  3. Já tinha provado várias safras do Conciso (tinto), mas a 2019 foi uma das preferidas, com sua fruta vermelha fresca e nota floral. Feito predominantemente de baga e jaén é um glouglou de pura alegria. Ainda jovem, mas com futuro promissor.
A bateria do dia e marido ao fundo

Quando pensei que não era possível melhorar algo ótimo, foi.

Não se sabe ao certo o que levou o avô de Dirk a comprar os imensos garrafões esverdeados, de 8 a 11 litros, de uso farmacêutico. A hipótese mais provável foi a alta do preço do vidro, à época, daí ninguém ter pensado na evolução do vinho, e sim na economia: o jeito era engarrafar o maior volume de vinho no menor número de garrafas.

O lindo Demijhon do Porto que bebi

Nascia ali um estilo, inaugurado pela vinícola: os Garrafeira do Porto [que já existiam na Madeira, em vidros de 20 a 25 litros].

Os Garrafeira começam como um Porto estilo ruby (passando de 4 a 6 anos em pipas) e, ao final do estágio em madeira, são envasados na ‘demijohn’, o tal garrafão. Para a minha sorte e por incrível generosidade de Dirk, bebi um Garrafeira 1977 (feito em 1972) que abrira com amigos no dia anterior. Sim, um vinho de 50 anos no meu copo.

Garrafeiras são muito raros e caros (os da Niepoort, mais ainda) até porque só recentemente foram regulamentados. Para quem tem o Ruby como referência, garanto que esse é “outro bicho”; também frutado no aroma, mas bem mais aberto e mais fresco que os outros estilos, com ótimo equilíbrio entre fruta e dulçor. O gole daquele 77 veio cheio de damascos e figos secos. Um privilégio.

E não parou por aí.

Um dos cantos da adega

Descendo mais um nível, conheci um espaço ímpar reservado para os “N Collectors”, um clube de 872 membros admitidos por convite, que tem acesso a vinhos raros que podem ser degustados ali. O número é uma alusão ao ano de fundação da empresa e naquela seção da cave histórica, que abriga também uma linda coleção de abridores de garrafas da família, foi montada uma cozinha com equipamentos modernos (a turma do Mugaritz já cozinhou ali) para dar apoio às degustações conduzidas por Edgar.

De repente, um barulho de chaves pesadas e abre-se um portão: “Podem passar”. Era uma espetacular cave/museu com garrafas da família, incluindo uma das cinco demijohns Lalique, lindíssimas, representando cada uma das gerações da família Niepoort. Espiei um nicho cheio de garrafinhas gordinhas de um Colheita 1900, outro com uma de Porto 1869, todas cobertas de pó e umidade, intocadas, com direito à “angel’s share” – as marcas negras da evaporação do álcool das barricas ao longo dos anos – no teto abobadado.

Quando já estava ali naquele “céu”, Edgar apanha uma pipeta e me oferece a amostra de um barril. Era um porto branco 1968, que acabara de ser lançado, definitivamente o copo mais espetacular que bebi no ano, um nariz sóbrio, elegante, com nota cítrica na boca e adoráveis amêndoas e frutos secos de fazer chorar.

Morri? Não. Estou aqui para contar. Em que gaveta mental guardar todos esses vinhos? Num gavetão, meu caixão.

Para quem não teve a experiência que tive no dia anterior – os chás Camélia também podem ser degustados neste espaço num Wine & Tea Tasting.

Os vários modelos de visitas podem ser agendados [aqui].

E mais fotos e vídeos da Cave, no meu Instagram, [aqui]. Boa viagem!

Dirk Niepoort no Bazzar, em 2018

A esquina de casa – Parcelles, Paris

A cada viagem que faço, procuro o “restaurante da esquina” ideal; uma espécie de gênio da lâmpada do meu estômago, que merecia morar sempre perto de casa. 

Tombe a fome para saladas ou gordices, a ‘esquina’ está sempre lá, perfeita. Não tem rococós, pinguinhos calculados, esculturas comestíveis ou utensílios caríssimos; só qualidade. Ali, o serviço é eficiente e quase invisível, elucidativo sem ser afetado e, nem preciso dizer, a sala de estar da minha alegria orbita em torno do vinho. 

O ponto já era ímã desde os tempos do Taxi Jaune, restaurante fundado em 1934 onde artistas e outras figuras de importância iam atrás da famosa carne de cavalo. Em lugares afetivos como esse, saudades não são facilmente substituíveis, mas não havia ninguém melhor do que Sarah Michielsen, com seus 20 anos de experiência (dirigiu o Gusto, também o Le Temps au Temps e conseguiu uma estrela Michelin no seu antigo Itinéraires) para comprar o antigo restaurante e ainda fazer o público voltar com força, fazendo do Parcelles um dos bistrôs mais queridos do momento, uma unanimidade em guias de todas as cores.

A passagem do ponto se deu no auge da pandemia (um bom momento para se livrar das amarras de uma cozinha estrelada). O movimento incluiu também a abertura de uma adega-épicerie do outro lado da rua, com patês, terrines, rillettes, além de um sotaque espanhol nos jamóns, morcillas e chorizos para levar, junto com uma ótima seleção de vinhos predominantemente orgânicos, biodinâmicos e naturais. 

Aquela apreensão que me acomete a cada novo restaurante, passou na primeira espiada na prateleira ao lado: tinha um Selosse, um Cappellano, um Échezaux do Dujac, um Hermitage do Jean-Louis Chave… Pas mal. Apesar das garrafas-estrela, a carta de Bastien Fidelin tem vinhos para todos os bolsos, com a equipe preparada para conversas sobre harmonização ou estilos que combinam com cada cliente. 

A comida de Julien Chevallier é a que chamam de “bourgeoise” (cozinha-conforto-caseira-de-classe-média) com apresentação descomplicada, mas que ali vem com segredos que fazem toda a diferença: um vinagrete de tozazu, aqui, um nabo japonês hinona kabu, ali. E os preços não assustam, para os padrões franceses: entradas e sobremesas em torno de 13 euros e principais em torno de 25, com a adição, todos os dias, de um prato vegetariano . 

Fui de beterrabas com folhas de vinagreira, sabayon de estragão e meu adorado queijo de ovelha dos Pirineus: o tomme de brebis. Segui com um abraço na forma de repolho cozido recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (invejei vieiras e mollejas vizinhas). Terminei com torta de figos de Solliès, que estavam na época, montados sobre uma base de mascarpone que me fez sentar no colo da avó francesa que nunca tive. 

Não sei bem o que faz do restaurante um cenário agradável, talvez a rua histórica e calma, talvez a luz bonita que entra pelas janelas. Quem sabe a fórmula tenha sido não mexer no time que já estava ganhando no restaurante anterior: lindo balcão de zinco art-déco com um neon retrô acima do bar e, ainda, as paredes de pedra e mosaicos no chão do prédio do século XVIII. 

Não bastasse tudo isso, tive ótima companhia (o melhor tempero que há). Sugeri o almoço certa que ia surpreender um casal de amigos que tudo conhece (Álvaro Loureiro e Pedro Figueiredo). 

Foi surpresa? Não. Quem sabe, sabe…

www.parcelles-paris.fr/

le menu

Arbois. Por quoi pas?

Uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

salada de beterrabas com vinagreira, sabayon de estragão e queijo tomme de brebis

mollejas com sálvia do vizinho

repolho recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (bomba calórica – leve, de verdade – fantasiada de saudável)

torta de figos de Solliès com mascarpone

a prateleira da inveja

Minha vida Fontaineblense…

[os jardins do Castelo de Fontainebleau, grande alegria na pequena cidade]

Gostei dos pães da Boulangerie Dardonville e achei, com facilidade, a insubstituível manteiga Bordier. Havia boas loja de vinhos convencionais e outra ótima de vinhos naturais, adotei uma cafeteria com bons grãos etíopes e um outro canto, com chás. Há bistrôs corretos, queijos espetaculares, excelente confeitaria e, para a hora da saudade, boas pizzas e um bom japonês. 

De resto, boas livrarias, umas galerias de arte, um teatro. Tudo numa cidade do tamanho de Ipanema. É claro. Há o onipresente “peru no pires” em forma de castelo, principal ímã turístico da cidade.

Passei bons dias em Fontainebleau, cidade em que todos vão aos fins de semana para Paris, inclusive meu filho, que agora estuda por lá. 

Paris perde quase 11.000 habitantes por ano para cidades periféricas. Não é má solução, em termos de custo de vida. Casais jovens não acham mais imóveis para alugar na capital (viraram Air BnB) e moram mais tempo com os pais, antes de tomarem a decisão de viver pará lá e para cá, num trem. 

As pequenas cidades se transformam, lentamente, e o adeus aos grandes centros me parece permanente.

Deixo aqui um pequeno guia cheio de afeto, (qualquer lugar onde o filho esteja é o melhor do mundo), para aqueles de passagem.

RESTAURANTES

L’AXEL – Apesar do tamanho de Fontainebleau, coube uma estrela Michelin da cidade. Num pequeno salão intimista e agradável, Kunihisa Goto serve ostras da bacia de Marennes Oléron com emulsao de frutas exóticas, mexilhões de Bouchot do Mont St Michel com curry feito de feijão branco (coco de Paimpol), uma deliciosa vichyssoise de bacalhau e um bom pombo com beterrabas, figos da época, vinagrete de framboesa e cogumelos chanterelles. A carta e o serviço de vinhos foram excelentes.

GINA – o restaurante italiano, recém-inaugurado (setembro de 22) fica no Hotel La Demeure du Parc, onde tive a sorte de me hospedar (ótimos quartos e serviço). O salão é talvez um dos ambientes mais agradáveis e o menu italiano tem alguns itens cenográficos como uma porchetta imensa, costeleta à milanesa gigante e tal, que causam impacto no serviço feito pela equipe de salão. Gostei particularmente de um menu degustação em torno de frutos do mar. O serviço é simpático e o menu de almoço, apesar de enxuto, tem clássicos eficientes. A casa tem ótimos drinks, mas a carta de vinhos tem rótulos e regiões mais comerciais e com margens “de hotel”.

FUUMI – Tive vontade de voltar. Além dos peixes mais frescos da cidade e um arroz de alho assado que comi compulsivamente, comida japonesa quente de muita qualidade brota do balcão do chef Kenta Iyori, que se ocupa da chapa. Do fogão, um espetacular chawanmushi de bonito e shiitake com alho poró, caranguejo desfiado e camarões de Madagascar. Cobicei ramens vizinhos… Ótimo junmai dai-ginjo Sho Chiku Bai (Shirakabegura) da região de Hyogo, na Ilha de Honshu. O restaurante foi criado por Kunihisa Goto, o chef do vizinho L’Axel, a estrela Michelin da cidade.

LA PETITE ARDOISE – um verdadeiro bistrô, para momentos de comida clássica com foco na procedência dos ingredientes, como os escargots de Pampfou, ovos da Fazenda Laveau 77, coisa e tal. O foco é bem local e, até por isso tem queijos, muitos queijos, numa rua que apelidamos de “A Dias Ferreira” de Fontainebleau.

ANTICA TRATTORIA – um dos restaurateurs mais bem sucedidos da cidade (Enrico Einaudi) estudou no Insead, uma das melhores escolas de negócios do Mundo em torno da qual a cidade também orbita (e meu filho estuda, pausa para uma propaganda nada subliminar). Largou o trabalho de controladoria na cidade grande e decidiu abrir vários restaurantes por ali. De sua Trattoria brotam imensas filas em torno de boas massas, pizzas e um serviço eficiente e simpático.

LE FRANKLIN – não esperava muito da casa com jeito de bar na esquina noturna mais animada da cidade, mas a taberna com comida da região de Aveyron, no sul da França, estava bem gostosa, dentro de um espírito bem carnívoro e de embutidos e gordices como aligot, foie gras e tal. Pedi uma salada para disfarçar a gula, e estava boa.

LE PATTON – gostei especialmente da construção, uma mansão do século XIX que conta com uma varanda coberta muito agradável para almoço ou jantar, com a vista do jardim nos fundos. A ideia, desse restaurante que já tem 12 anos de idade é guardar o espírito da casa que já está na família há 4 gerações. O menu do dia foi boa opção e tinha boudin noir, que não costumo recusar. Tem um jeito (no almoço) de business account.

LE SOMMELIER DU CHÂTEAU – o foco fica na varanda agradável e seus vinhos, que podem ser acompanhados de tapas e outros. Lá dentro, a cozinha é criativa, com ingredientes mais leves que muitos vizinhos (carpaccio de vieiras com maracujá, baunilha e limão ou aspagos grelhados com bottarga e pesto de ail des ours, o alho-selvagem), mas um pouco demorada.

BISTROT DES AMIS – do mesmo dono da Antica Trattoria, o lugar tem a vantagem de estar aberto em dias e horários ingratos e isso (acreditem) vem bem a calhar para um passante. Comi bons ceviches que, pela tradição da região e estranhamento dos brasileiros, sempre levam muitas frutas e flores. Achei algo que adoro: a muxama de atum (fatias finas de atum curadas, como um presunto) que ali vinha com amêndoas, uma das especialidades da casa.

PADARIAS E CONFEITARIAS

BOULANGERIE DARDONVILLE – Era dela a cesta de pães servida no meu hotel e também os reencontrei em alguns dos melhores restaurantes da cidade. Provei de vários grãos, tamanhos, preparações, tanto doces quanto salgadas, com ótima qualidade.

SUZY ET ARLETTE – Descobri que a padaria ganhou o concurso da região do Seine et Marne na categoria pain au chocolat (para quê, meu bom Deus?), mas também adorei outros tantos itens de confeitaria, para a infelicidade dos meus quadris. Tudo delicioso, além do atendimento alegre e divertido.

L’A PÂTISSERIE – KG – sem dúvida, a melhor confeitaria da cidade, pela qual me apaixonei na casa da amiga residente e gourmet Mariana Schapira. Há doces divinos como o de creme de amêndoas com yuzu ou o crocante de caju com frutas vermelhas.

CAFÉS ESPECIAIS

PAUL ET PAULETTE – Há uma boa loja com grãos para quem tem cafeteira em casa. Como não era meu caso, e depois de muito procurar, bati ponto nessa adorável cafeteria, para lattes, expressos e filtrados, com grãos variados de ótimas procedências. Atendimento muito simpático dos proprietários.

CHÁS

CHEZ ELEMIAH – é um salão de chá com comidinhas lindas veganas que não cheguei a provar. Foquei na bebida que tomava antes ou depois de um giro na galeria de arte, à côté.

QUEIJOS

LES TERROIRS DE FRANCE – não se deixe levar por vitrines mais ordenadas, aqui há um mestre queijeiro (a terceira geração na família) que explica com cuidado e carinho cada tipo de queijo e seu momento. Excelente seleção. Não esqueçamos que a região (Seine et Marne) é a terra do queijo brie e do menos conhecido (mas não menos delicioso) coulommiers, de massa mole e feito com leite de vaca. “Fica a dica” e o encantamento com a loja de Christophe Lefebvre e sua mulher.

VINHOS

VIVAVINO – passei por diversas lojas (não necessariamente impressionantes) de vinhos convencionais, mas me encantei, mesmo, pela seleção e atendimento dessa pequena loja de vinhos naturais, que serve comida aos fins de semana. Ótima escolha de produtores e atendimento. Convém chegar cedo se a ideia é sentar num dos 8 ou 10 lugares da casa. Os sócios conhecem profundamente os produtores e seus vinhos.

[para imagens dos lugares citados, procure o destaque Fontainebleau, no meu instagram https://www.instagram.com/crisbeltrao/]

Sede no Brooklyn – LaLou, Prospect Heights, NY

Esse post tem uns 6 meses de atraso, assim como tantos outros entalados na ponta dos dedos numa espécie de artrose literária. Culpa da peste.

Passei alguns meses em Manhattan, no ano passado, por motivos diversos. Num surto de otimismo inabalável que durou uns cinco minutos e meio, tive certeza de que a tudo voltaria ao normal e rechearia este blog com inúmeras recomendações, mas não foi bem assim… 

Viagens ainda não eram permitidas, a Covid andava pelas esquinas e o mundo caminhava de máscara. 

Apesar da vida, essa teimosa, continuar acontecendo apesar do medo, recomendar restaurantes no exterior me pareceu um troço besta e anacrônico, a despeito de ter conhecido alguns que gostaria de revisitar em tempos menos dramáticos.

Ainda assim, foi falando de viagens e restaurantes fora do Brasil que esse quadrado nasceu há mais de 20 anos (antes bazzarfood.blogspot, depois crisbeltrao.blogspot) e sempre me alegra receber comentários animados dos leitores com dicas que dei. Além do mais, já que o câmbio, aquele mal-amado, não dá chance ao acaso, leio uma penca de jornais, revistas e a opinião de gente respeitada só para garantir uma refeição decente sem penhorar um rim. Se você teve a sorte de viajar, estamos aqui para ajudar.

O que anda me encantando? 

Refeições simples, ambientes nada pomposos e provar várias coisas pequenas acompanhadas de um bom copo de vinho. Pois tinha tudo isso no LaLou, no Brooklyn. 

O lugar é feito de uma tripa de mesas – gostosa e barulhenta – que fica diante de um bar que emenda na cozinha e termina num jardim coberto, ao fundo, para quem quer mais paz e distância entre as mesas. Naquele ambiente espartano, confesso que não esperava aqueles vinhos ou aqueles pratos.

Fui investigar. A casa é de Joe Campanale, sommelier respeitadíssimo que teve passagem pelo Babbo, é autor de “Vino, The Essential Guide to Real Italian Wine” e, ainda por cima, decidiu fazer vinho na Campania. Nada mal. Apesar de tanto pedigree, a equipe consigue explicar lindamente a carta que tem grande foco em Itália, França, Áustria e outros cantos adoráveis, sem muito blá blá blá. A foto foi do Ganevat pra contar vantagem, mas passeei por outros copos caros ou baratos com a mesma entusiasmo. Belo trabalho.

A alegria não pára nos vinhos, mas não espere exatamente um cardápio. Há meia dúzia de pequenos pratos com ingredientes excelentes, a começar pelo couvert. Vibrei com os pães e, também, com a enguia defumada com feijões brancos e caldo feito da carcaça do peixe. Mas incontornável, mesmo, foi o nada fotogênico repolho chamuscado com pasta de damascos, Jerez e um delicado molho de queijo azul Stilton. Tive vontade de pedir uma dúzia. 

Recomendo em noite despretensiosa povoada por desejos etílicos depois de uma visita ao Brooklyn Museum (são 16 minutos a pé). 

Saúde! (e saúde!)

laloubrooklyn.com