Há tão poucas construções à vista que, da beira daquele despenhadeiro, consegui projetar a vida há 557 anos. E o pub já estava lá.
O grande programa de um dos primeiros povoados da Cornualha, instalado no vilarejo de Gunwalloe – que existe ao menos desde 1086 – era ver navio afundar. De um dos naufrágios veio parte da madeira dos quartos e do bar da estalagem/pub Halzephron, que fica no topo de um penhasco, de frente para o mar.
Da praia lá embaixo, tesouros de navios espanhóis, portugueses, holandeses ou ingleses foram surrupiados pela população local através dos anos: de conhaques a moedas e lingotes de ouro e prata.
Atrás de uma das paredes da estalagem, um alçapão leva ao túnel que desemboca na igrejinha do séc.XV, ali perto. Dizem que uma das cavernas da praia dava na casa de um contrabandista local.
Pensava nos 5 séculos de história que a casa avistou, enquanto goles de Porthleven, pale ale da cervejaria local Skinners, escorregavam pela garganta.
Passeei pelos salões de pé direito corcunda, abaixando a cabeça a cada vão de porta e admirando objetos náuticos amontoados por todo lado. Nas paredes do cômodo nos fundos, fechado para o almoço, várias pinturas de navios e mesas com toalhas engomadas, em azul marinho e branco, claro. De frente para a minha mesa, no bar, a foto do avô do dono, um pescador com rede, cesto e cachimbo, me espiava.
Comecei com um chowder (sopa de peixe) pedaçudo e delicioso, com toque defumado que aqueceu e fez esquecer do vento implacável, lá fora e segui com uma salada simples e fresca de caranguejo, enquanto o marido foi de sopa de cogumelos e um corte de alcatra, ambos muito bons.
De sobremesa, a treacle tart, talvez a torta mais doce do mundo, feita de melaço, uma lembrança afetiva do povo britânico. Tá explicado.
O desvio de rota foi lindo. Gunwalloe é um dos 46 lugares na Grã-Bretanha com o selo AONB “área de beleza natural fora do comum”, mas além do pub, igreja e praia, há pouco para se ver, ali.
Na saída, lendo sobre o vilarejo, vi que o último censo há 20 anos trazia a população de 219 pessoas, incluindo os da aldeia vizinha.
Decerto, há mais fantasmas de contrabandistas e marinheiros náufragos, bebendo naquele bar.












Um deleite!!!!
E que imgem!!!!
Muito lindo!!!