A esquina de casa – Parcelles, Paris

A cada viagem que faço, procuro o “restaurante da esquina” ideal; uma espécie de gênio da lâmpada do meu estômago, que merecia morar sempre perto de casa. 

Tombe a fome para saladas ou gordices, a ‘esquina’ está sempre lá, perfeita. Não tem rococós, pinguinhos calculados, esculturas comestíveis ou utensílios caríssimos; só qualidade. Ali, o serviço é eficiente e quase invisível, elucidativo sem ser afetado e, nem preciso dizer, a sala de estar da minha alegria orbita em torno do vinho. 

O ponto já era ímã desde os tempos do Taxi Jaune, restaurante fundado em 1934 onde artistas e outras figuras de importância iam atrás da famosa carne de cavalo. Em lugares afetivos como esse, saudades não são facilmente substituíveis, mas não havia ninguém melhor do que Sarah Michielsen, com seus 20 anos de experiência (dirigiu o Gusto, também o Le Temps au Temps e conseguiu uma estrela Michelin no seu antigo Itinéraires) para comprar o antigo restaurante e ainda fazer o público voltar com força, fazendo do Parcelles um dos bistrôs mais queridos do momento, uma unanimidade em guias de todas as cores.

A passagem do ponto se deu no auge da pandemia (um bom momento para se livrar das amarras de uma cozinha estrelada). O movimento incluiu também a abertura de uma adega-épicerie do outro lado da rua, com patês, terrines, rillettes, além de um sotaque espanhol nos jamóns, morcillas e chorizos para levar, junto com uma ótima seleção de vinhos predominantemente orgânicos, biodinâmicos e naturais. 

Aquela apreensão que me acomete a cada novo restaurante, passou na primeira espiada na prateleira ao lado: tinha um Selosse, um Cappellano, um Échezaux do Dujac, um Hermitage do Jean-Louis Chave… Pas mal. Apesar das garrafas-estrela, a carta de Bastien Fidelin tem vinhos para todos os bolsos, com a equipe preparada para conversas sobre harmonização ou estilos que combinam com cada cliente. 

A comida de Julien Chevallier é a que chamam de “bourgeoise” (cozinha-conforto-caseira-de-classe-média) com apresentação descomplicada, mas que ali vem com segredos que fazem toda a diferença: um vinagrete de tozazu, aqui, um nabo japonês hinona kabu, ali. E os preços não assustam, para os padrões franceses: entradas e sobremesas em torno de 13 euros e principais em torno de 25, com a adição, todos os dias, de um prato vegetariano . 

Fui de beterrabas com folhas de vinagreira, sabayon de estragão e meu adorado queijo de ovelha dos Pirineus: o tomme de brebis. Segui com um abraço na forma de repolho cozido recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (invejei vieiras e mollejas vizinhas). Terminei com torta de figos de Solliès, que estavam na época, montados sobre uma base de mascarpone que me fez sentar no colo da avó francesa que nunca tive. 

Não sei bem o que faz do restaurante um cenário agradável, talvez a rua histórica e calma, talvez a luz bonita que entra pelas janelas. Quem sabe a fórmula tenha sido não mexer no time que já estava ganhando no restaurante anterior: lindo balcão de zinco art-déco com um neon retrô acima do bar e, ainda, as paredes de pedra e mosaicos no chão do prédio do século XVIII. 

Não bastasse tudo isso, tive ótima companhia (o melhor tempero que há). Sugeri o almoço certa que ia surpreender um casal de amigos que tudo conhece (Álvaro Loureiro e Pedro Figueiredo). 

Foi surpresa? Não. Quem sabe, sabe…

www.parcelles-paris.fr/

le menu

Arbois. Por quoi pas?

Uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

salada de beterrabas com vinagreira, sabayon de estragão e queijo tomme de brebis

mollejas com sálvia do vizinho

repolho recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (bomba calórica – leve, de verdade – fantasiada de saudável)

torta de figos de Solliès com mascarpone

a prateleira da inveja

E o estômago diz “mi casa” – Elly’s, Cidade do México

Cheguei a Nova York na véspera do dia em que o fim simbólico da Covid e a esperança de reabertura gradual da cidade seria marcada com uma grande festa ao ar livre, no Central Park. A cidade, disseram, finalmente começava a mudar de cor. Acontece que o céu mudou, também.

Uma tempestade tropical decide virar furacão (o primeiro em 30 anos, nessa costa) raios e trovões interrompem a cerimônia e alertas no meu telefone dizem: corram para um abrigo!

De lá para cá, em duas semanas, vivi uma enchente, um tornado, perdi um parente no Brasil e vi a passagem de outro pelo hospital. Escrever sobre comida, convenhamos, não era lá prioridade.

Com tantos anos de refeições obrigatórias na vida, me dei conta de que há poucos lugares para os quais quero voltar. Há sempre lugares divertidos, cheios de conceito, com ótimas causas, com lindo ambiente, inaugurações imperdíveis e empreendimentos de amigos, mas há poucos lugares que entram na gente com naturalidade, como se nos pertencessem (e nós a eles). São como a casa do estômago, onde ele mora sem esforço, abre a porta, tira o sapato e se deita no sofá. Quando a coisa aperta, garanto: é pra lá que ele quer voltar. E, por acaso, seu último endereço foi na Cidade do México, onde passei a quarentena obrigatória antes de chegar aqui.

Por conta de uma briga do horário da reserva com minha memória, cheguei meia hora antes, com o restaurante ainda fechado. Podia ter doído, mas o excelente Emiliano, host/escritor/ator mexicano que fala português e outras quatro línguas fez minha esclerose parecer muito natural. Adiei a fome passeando pela vizinhança, com esticada até o Bosque de Chapultepec e finalmente entrei no ELLY’S.

A casa dos anos 30 em estilo bauhaus é uma graça, com vários ambientes que acomodam os espíritos de um almoço, happy hour ou jantar, todos embalados pela coleção infinita de discos de vinil do sócio Andres Herran, estacionada na entrada. Queria ter me sentado na área dos fundos, ao ar livre, onde ficava “la barra” (ou o balcão), até para ver a chef Elizabeth Fraser em ação, mas o calor me fez parar na sombra do salão anterior.

La barra: com certeza, o lugar mais gostoso da casa

A carta tem tamanho certo, com ótima seleção de vinhos, inclusive naturais, e a cozinha é mediterrânea com toques mexicanos. Adorei os mezze, divertidos e muito bem feitos, que já me ganharam pela qualidade dos pães. Tinha ricota curada com zaatar e azeite; favas fritas sobre tahine verde; purê de cenouras baby; salada de pepino persa com queijo feta, noz de castilla e trigo bulgur, além de deliciosos picles.

Mezze: leves e bem executados

O tartare de cordeiro com tâmaras, hortelã, cebola e pepino, sobre as folhas de alface, era fresco e picante. Me encantei pela simples couve branca chamuscada com molho caesar, raspas de limão, queijos e farofa de pão tostado (o uso da grelha é um ponto alto da chef), mas voltaria 20 vezes para a mousse de fígado de frango com damasco.

Meu estômago foi levado ao segundo piso, com vários outros ambientes de muito bom gosto, visitou a sala de degustação e estacionou num conjunto de sofás onde tomou um ótimo café e a sobremesa. Cheguei em Manhattan, é fato, mas ele segue sentado por lá, tomando coquetéis imaginários na barra e aproveitando o clima do jantar.

Deixo ficar.

Charmay (chardonnay/beaujolais), do Octavin (Jura). Uma delícia de vinho, glou glou, como pedia o dia de Verão.
Tartare de cordeiro com tâmaras, hortelãs, cebola e pepino, sobre folhas de alface.
Couve branca chamuscada com molho caesar, grana padano, raspas de limão e farofa de pão tostado.
A deliciosa mousse de fígado com damascos
Um dos (vários) ambientes do segundo andar
Além da óbvia goiaba, a essas alturas meu estômago já não anotava nada, a não ser que estava bom
Pelas mãos de Emiliano, a organização dos discos que ele põe para tocar, de acordo com o clima:
de hip hop a clássicos, passando pelo jazz.

ELLY’S

ellysmx.com