
KOMKA
A graça que a idade costuma tirar da gente, empresta aos restaurantes antigos. Entrei no Komka, em Porto Alegre, como quem chega na casa de um amigo de toda a vida.
Edesio Komka, o Deco, sujeito alto e simpático, com pais vindos do leste europeu, tem a mais tradicional churrascaria e galeteria da cidade, desde 1967.
No seu bairro, São Geraldo, mais de 4.000 empresas sofreram com as enchentes. Deco perdeu máquinas e outros bens, viu seus funcionários passarem por dificuldades e fez vaquinha para ajudar, mas os horrores da cheia só reforçaram o sentido de “família” de quem frequenta o local, atrás de um bom “xixo”.

Me senti abraçada pelo pé direito alto, pelo ladrilho azul que cobria as paredes até a metade, as cristaleiras e aparadores antigos, as pás dos ventiladores girando pelo teto, os galheteiros sobre as mesas, os saleiros de vidro, as travessas de inox. Um alívio num mundo de storytellig.
Me projetei morando ali, indo com a família aos fins de semana, cumprimentando os vizinhos de mesa. Assim faz o casal Flavia Mu e Marcelo Schambeck, do restaurante Capincho, que frequenta o Komka com os filhos, atrás da polenta frita, sequinha – que polvilham com parmesão-, ou das carnes, corações e galetos deliciosos; do amarguíssimo radiche com bacon; ou ainda do incontornável sagu embebido em vinho colonial sobre um flan viciante. É sério, que eu podia pedir 15 daqueles potes. Cada colherada é mais um passo no teletransporte para a infância.


Talvez eu devesse, agora, fazer uma pausa para explicar que radiche é a nossa chicória; vinho colonial é o de agricultura familiar, da Serra Gaúcha; e “xixo” é o nosso “espeto” de churrascaria, que ali no Komka é gigantesco e pode vir com alcatra, salsichão, porco e legumes.
Estive em Porto Alegre, este mês. Um destino que nunca considerei “de fim de semana”, com tantas opções, culturais e gastronômicas mais próximas, mas penso sinceramente em voltar e voltar para essa surra de hospitalidade e civilidade que despejo aqui.


WILLIAM & SONS COFFEE CO.
Ficar no bairro de Moinhos de Vento torna a vida mais fácil.

Dá para acordar e caminhar até o Williams & Sons, para o (meu) tradicional meio litro de café de qualidade no coador V-60, que consigo mais facilmente em casa do que pelo mundo.

Ali, você pode encontrar o animado barista Ramon Brissotto, um homem grande, acelerado e de colorido viking, que descreve lindamente a curadoria dos produtores de café e explica as últimas técnicas para melhorar a bebida, como gotinhas de minerais que modulam a água, um dos principais componentes da boa xícara. Provei um ótimo café de Haroldo Barcelos, da Fazenda São Lourenço, de Carmo da Parnaíba, primeiro lugar no Concurso dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro e, de quebra, comi o um pão de queijo, a única comida que servem na casa e, felizmente, tão gostoso que inibe qualquer outra vontade.
William & Sons Coffee Co Porto Alegre
CAPINCHO

Todas as dicas que trago aqui vieram de Flavia, Marcelo e Fred, do restaurante Capincho. E o que falar do Capincho?

De cara, existe uma intersecção de almas, de um casal que fundou o Instituto Identidade RS, tão parecido em propósito quanto o meu próprio Instituto Bazzar. O trabalho é manter viva a cultura gaúcha, suas tradições, as receitas de pai para filho, valorizando ingredientes do bioma do Pampa e da Mata Atlântica, que habitam o seu Estado. Com trabalhos em cantinas de escola a palestras, eventos e outros, vão espalhando essa semente tão difícil de germinar, que é a de valorizar o que é nosso.

O restaurante é de um bom gosto ímpar (mãos de Flavia), com ambientes internos e externos, distribuídos por dois andares aquecidos pelos tijolos das paredes, numa casa de 1930.

É indispensável reservar um tempo para morar no bar, que merecia muito mais litragem do que pude dedicar numa noite. Fred Muller, sócio da casa, apresenta uma das coquetelarias mais elegantes em muito, muito tempo. Não tem nada sobrando ali, seja na apresentação ou no sabor, e suas bases – gins, whiskies, sakês, cachaças, vodcas… – bitters e ingredientes, são todos muito bem escolhidos, com a preocupação adicional de usar coisas da região e da estação.

Como exemplos, o rum da destilaria Alba, em Monte Belo do Sul, que passa por fermentações longas (ao contrário da nossa cachaça) de 30 a 90 dias, com dupla destilação, o que lhe dá profundidade. Ou ainda, o licor Pacomienne, produzido artesanalmente com 40 ervas, sementes e raízes de horto próprio pela Granja Santo Antonio, fundada por irmãos Maristas, que chegaram ao Sul em 1904.
No balcão do Fred, tomei um delicioso Figo Fashion, com Bourbon (uma das minhas bases favoritas), licor de folha de figo, xarope de figo e angostura. Elegantíssimo aos olhos, equilibrado na boca. Sorri ao lembrar que estou a duas horas de avião entre minha vontade de tomar outra dose, agora.
Ainda no balcão, vem Marcelo Schambeck, o chef, com “algo” de Carlos Barbosa (adoro os nomes…). É nessa cidade da Serra Gaúcha que está instalada a Charcutaria Zampa Grigia, que produz o porco moura, nativo, com salames desenvolvidos em parceria com o Capincho.

Num salame comum, a gordura é moída junto com a carne. Ali, a carne é temperada com erva doce e pimenta e depois se acrescenta a gordura do toucinho, que vem em bolinhas cremosas e amanteigadas, prensadas em fatias finíssimas cortadas na hora, como asas de borboleta transparentes que se desfazem na boca. O chef não descarta o mofo branco que envolve a carne, para emprestar aquele gostinho de queijo brie. Produto de uma leveza ímpar. Também no bar, provamos a tradicional copa lombo sulista com sua deliciosa gordura e, por fim, azeitonas gaúchas de Livramento que demoram um ano depois de colhidas para chegar ao ponto, marinadas com laranja, ervas e azeite.
Passando pela vitrine da cozinha, que dá para o salão, vi um balde cheio de macela aguardando o momento de perfumar a marinada de um cordeiro. Fiquei emocionada. A gramínea nativa – que lembra camomila – eu só conhecia pelos sachês perfumados e livros de Monteiro Lobato da infância, já que recheava a boneca Emília. Só podia ser prenúncio de um bom jantar.
Os pratos, servidos à la carte, foram devorados na mesa mais lindinha da casa, num canto junto à janela. Não houve nada “mais ou menos”.
Começamos com um prato vegano com gosto de mar: um tartare feito de pepinos e melões levemente assados, ainda firmes, com óleo de algas cultivadas na Universidade Federal de Santa Catarina – que pesquisa novas fontes de alimento – com pó de tomates. Flores desidratadas da família Bellé polvilhadas por cima, junto com um pouco de gergelim. Adorei.
Em seguida, um caqui fresco – que ali se diz “cáqui” – com coalhada de iogurte, lâminas de caqui chocolate – que é mais firme – com hortelã, manjericão e vinagrete de maracujá para dar contraste, num todo bem picante. A estrela, sem dúvida, é o coquinho de butiá que gosto, mesmo, de coco queimado. Lembrança afetiva do chef que catava os coquinhos caídos das árvores, na infância. Quebrava com pedras e ficava roendo. Eu fiz questão de roer o prato todo.

Gostei muito, e particularmente, da ideia de levar um coração de galinha, comida simples do Sul, para a alta gastronomia. Aliás, os chefs costumam ir a um bar para comer sanduíche de coração com queijo, maionese, cebola e tomate, no fim do turno. No Capincho, vinha salteado, malpassado (nham!) com ervilhas e seu creme ácido como vinagrete, além de um pouco de óleo de salsa. Acompanhando esse todo, um challah na parrilla bem lambuzado com manteiga de alho.
Então, um camarão vermelho argentino na brasa com óleo de pimenta, amendoim e molho de coentro, com tupinambo assado por baixo (tubérculo de outono), dando textura. Por cima, e para a nossa sorte, um trevo roxo e outro, de quatro folhas.
Ainda pegamos lulas, agora no fim da estação, salteadas, com creme de queijo colonial forte e bem curado, com bottarga da tradicional região de Tramandaí. A cidade tem até festa anual da tainha, devorada assada na taquara estendida, com fogo no chão. Para comer junto, um pão tostado com uva e tomate.

O prato de peixe era uma pescada branca, bem suave e fresca, de Santa Catarina. Vinha com batata yacon assada em cubinhos, um quiabo passado na frigideira, com algas – além da salicórnia da UFSC, um alecrim do mar, alga salina potente e crocante. Por fim, shiso com molho de limão e óleo de pimentão.
E não seria o Sul, não houvesse carnes na brasa. A bochecha de porco vinha laqueada com molho à base de demiglace e tomate, sobre purê de mandioquinha branca plantada em Antonio Prado (mais um nome que adoro). Vale dizer que a mandioca amarela não suporta frio. A branca aguenta bem as geadas e tem sabor que mistura coco e salsão. Por cima, folhas de mostarda e vinagrete de pêra pau, a variedade durinha gaúcha.
Estava tudo tão bom que ainda partimos para uma costela do dianteiro assada por 16hs, com manjerona e broto de girassol trazendo um pouco de leveza ao molho potente. Acompanhava uma moranga coração assada (uma variedade de abóbora crioula resgatada pela família Stefanoski, em Cerro Grande), com suas sementes, creme de queijo de ovelha de Santana do Livramento, vinagrete de casca de laranja e folha de aipo. Uma farofa de mandioca acompanhava a costela que foi raspada em lascas que se desfaziam no prato.

A gula também deu conta de um prato de 3 queijos de vaca (Madrugueiro, Geada e Origem) e um Santana, de ovelha. Tudo foi regado por mais um drink de whisky turfado com água de flor de laranjeira, vodca, creme de leite e clara de ovo, criado por Fred Muller.
O doce desfecho veio no sorvete de folha de figo infusionada no leite, figo fresco e sua calda, com amendoim tostado.

Uma sobremesa bem sazonal (e deliciosa) foi a de abóbora pescoço em sorbet sobre creme de chocolate 70%, de amêndoas amazônicas temperadas pela Magian cacau, ali de POA, com tuille de especiarias.
E ainda, uma sobremesa clássica de merengues que varia conforme a estação. A base é um merengue ácido com vinagre de framboesa, morango, baunilha e raspas de framboesa fresca, com jeito de raspadinha, com quatro suspiros: puro; com calda do morango e baunilha; de cacau com pimenta; e com pó de hibiscos (na estação!) da feira do Rafa do Sítio Capororoca (uma pequena zona rural bem no meio da cidade).
Essa imensa descrição da refeição veio é culpa da pena de abandonar qualquer prato.
Retirem meu excesso de explicação, que existe por necessidade didática. É realmente uma experiência deliciosa e sem afetamento, com muito sabor e isso basta.
E, antes tarde do que nunca, Capincho é o nome que se dá à capivara, no Rio Grande do Sul
PÂTISSIER – POR MARCELO GONÇALVES

Um lugar que me encantou, absolutamente, foi o Pâtissier. Um bistrô, confeitaria e imenso armazém de coisas lindas, como quadros, móveis, objetos e livros, garimpados ao longo da vida de Marcelo Gonçalves, em ferros-velhos e feiras de antiguidades. Seria ótimo, só “viver” o espaço, não fosse também um clássico da boa mesa de Porto Alegre.

Passamos à tarde para um café, uma dose de cachaça e sua confeitaria generosa e afetiva, mas também há pratos salgados, para outros momentos do dia.

Marcelo, sentado num banco – que concebeu, por acaso, a partir das embalagens de 3030 ovos e foi parar numa exposição de arte – conta que achou manuscritos com receitas de sua mãe, que se foi, no ano passado. Do caderninho, provei um naco da divina torta de coco queimado com baba de moça, que só mães e avós sabem fazer.
Também pedimos o mil-folhas de bergamota, de perfume bem intenso. Aliás, peçam tudo de bergamota na cidade. A fruta ali, é outra estória.

Pâtissier, por Marcelo Gonçalves
BENJAMIN OSTERIA MODERNA
Por fim, falo do Benjamin Osteria Moderna, um projeto arquitetônico grandioso que surge “assim” meio inesperado, por trás da fachada de um prédio comercial. E não é qualquer prédio. O restaurante é homenagem dos filhos Bruno, Mauro e Fernanda Zaffari ao pai, que batiza a casa: João BENJAMIN Zaffari. O restaurante fica no JBZ, sede do conglomerado gaúcho que comanda supermercados, shoppings, empresas de logística e outros negócios, de uma das famílias mais icônicas da cidade.

A casa, de pé direito altíssimo, começa com um bar imponente que se desdobra num salão imenso com quadros em preto e branco, cabines em couro, toalha nas mesas e projeto de Sid Bergamin. Um ambiente que chama um jantar mais elegante ou almoço de negócios.

O chef é o paulista Bruno Hoffmann, que trabalha os clássicos da cozinha italiana, usando ingredientes locais. Gostei particularmente da conserva de berinjela, balsâmico e castanhas (da época, sempre busque o da época), e do cavatelli com semolina, camarões e lagostas com creme de açafrão e limão siciliano. Delicado, redondo e bem feito. A torta cremosa de queijos regionais e compota de laranjas (é tempo de cítricos) também estava muito saborosa.


A carta tem predominância de vinhos clássicos convencionais, especialmente italianos, com um ou outro natural, entre rótulos estrangeiros e estrelas da região. Provamos o tinto da família, o João Benjamin, feito de cabernet sauvignon, merlot e tannat, para rimar com o lugar.

Vale pedir os ótimos queijos regionais com compota de araçá (viva a Mata Atlântica!), incluindo o TUNA, da Queijaria Tempo (“a menor do mundo”, de Mariana Guarienti e Rodrigo Polidoro), que tem apenas 3 vacas Jersey criadas lindas, leves e soltas, em plena zona rural de Porto Alegre.

E assim termino meus 3 dias na cidade.
Se esse post lhe pareceu longo, foi a saudade.




































