O melhor do MEU mundo – Cidade do México

Agora o mundo deu pra listas. Até o New York Times, ora vejam, resolveu se inspirar no 50Best e escolheu os 50 lugares nos EUA que o jornal mais gosta, no momento. 

Taí… decidi fazer a minha. 

Não se trata de vaidade ou presunção; são apenas os melhores do MEU mundo. Sim, um mundo torto como qualquer outro, em que a gente tem de trabalhar em vez de ficar à toa, acorda de mau humor, janta com gente chata ou recebe uma lasca de concreto na testa, em animada aceleração a partir de um andaime no 20º andar de um prédio na Cidade do México, bem no momento em que sai do hospital. Pois é, aquele hospital onde o marido foi ajeitar o pé torcido, um dia antes, na calçada do Museu de Antropologia. Talvez por conta de sequências como essa, as pessoas impliquem com agosto. Injustiça… O meu foi bom. 

Meu amigo Paco Torras diz que eu não frequento restaurantes, frequento pessoas. Reagi de início, mas é a pura verdade. 

“Se o Zé estiver no fogão, pede o spaghetti ao vôngole!”

“Pede o bacalhau, mas tem que ser com a pimenta que o Francisco faz.”

“Gosto do boulevardier, mas só se Tatiana estiver no bar”.

Pois é. A vida não é press trip; gostamos de uns pratos, mais que de outros; de uns cantos, mais que dos outros; às vezes do ambiente, mas não dos pratos; às vezes de tudo, e então chega a conta. Pois assim montei minha lista, convicta de que mesmo com 25 anos de escrita gastronômica (sem convites), o meu “melhor” pode não se casar com o vosso…. Acontece. 

Agosto foi marcado por uma quarentena de quinze dias na Cidade do México. Ao contrário da última visita, já não tinha o mesmo apetite para insetos graças à uma indisposição que fez o favor de se estender por quase toda a viagem. Se na outra visita consegui flanar por mercados de rua, comer tacos em barracas e mastigar todas as chicatanas que pude, nessa fiz um circuito menos “raiz”.

Há alguns anos, escrevi sobre os 4 restaurantes mais marcantes da cidade [aqui]. Dos quatro, quis repetir o QUINTONIL, não por ter sido a melhor refeição da temporada, mas por ter um conjunto, entre ambiente e comida, muito agradável. Infelizmente, na minha volta em agosto, o ambiente já não era o mesmo e achei a reforma muito infeliz. Os pontos altos foram a carta e o serviço, muito bons; aliás, foi a maior proporção de atendentes por mesa que vi. Recomendo fortemente o branco mexicano LA LLAVE 2017, blend de Chenin e Sauvignon Blanc, sempre do Valle de Guadalupe, minha região vinícola favorita no país. Fresco, agradável e com ótima acidez. 

Começando do princípio, busquei pouso em Roma, bairro cheio de joias arquitetônicas e perfeito para riscar a maior parte da minha lista de desejos, a pé. Não menos importante, havia por perto várias opções para a reposição de meus 400 ml de cafeína diários. A preferida pelo atendimento, qualidade do grão e métodos de extração foi a ALMANEGRA, com sua sala pequena e espartana. Gostei especialmente dos grãos da pequena região de Nayarit, no Centro-Oeste do México, da Finca Kalid.

Sempre me prometo dedicar textos individuais a cada restaurante, e lá vou eu rabiscar um troço por ordem de visita, mas a verdade é que o tempo livre nunca me permite cobrir todos eles (afinal não vivo disso) e daí surgiu a vontade de adiantar a lista.

Sobre o ELLY’s, restaurante que cabe em qualquer momento, seja para um drink, um copo de vinho, boa música, comida ou ambiente, já escrevi aqui. Sobre o MÁXIMO BISTROT, um galpão lindo, com comida bem francesa-manteiguinha, também já escrevi aqui. Além disso, dediquei um post ao CICATRIZ CAFÉ, um bar de vinhos naturais, aqui, no maravilhoso Glupt!, de Luiz Horta.

A PANADERIA ROSETTA também já teve seu post aqui, mas não tinha desenrolado as linhas sobre o seu irmão tão famoso quanto: o RESTAURANTE ROSETTA. Um lugar lindo, com pé direito altíssimo, moveis leves e claros e muitos cipós, flores, legumes e pássaros pintados pelas paredes. Pelo conjunto, é incontornável. Adorei as entradas, especialmente do prato de tomates verdes com feijão preto, uma espécie de ricota de cabra, berinjela, melaço e um vinagrete muito fresco e também de um mil folhas de cevada, excelente. Dentre os principais, preferi massas aos pratos de peixe. A carta de vinhos é quase toda de orgânicos, biodinâmicos e naturais. Tentei experimentar os mexicanos, como sempre faço, mas acho que a produção de naturais de lá está no mesmo momento da brasileira: há mais erros que acertos, mas sempre vale tentar.

O melhor restaurante, como um todo, foi o LOREA, recomendação do querido Rafa Costa e Silva, com carta de bebidas, serviço e comida excelentes. O único senão é a escadaria para entrar, que emenda numa outra imensa, para ir aos banheiros. Fora isso, tudo perfeito, a começar pelos drinks impecáveis, tanto os sérios como o de bourbon e cevada, quanto os animados como o de grapefruit e lavanda. O serviço de vinhos foi o melhor que vi na cidade e a carta tem joias como o Jerez da Ximénez-Spinola (medium) e uma boa seleção de vinhos a copo para a harmonização, embora bastante europeia – senti falta de um rótulo local, numa cozinha tão voltada para os produtos de excelência mexicanos. Dos meus pratos preferidos, posso assegurar que a salada de beterrabas vale a visita. A flor – um cardillo – vem mergulhada no próprio suco de beterraba com creme de erva cidreira e garante a textura maravilhosa. Além dele, a inesquecível tortilla de huitlacoche, o milho enegrecido pelo fungo, uma das iguarias mexicanas incontornáveis. Nas sobremesas, a casca do plátano (primo da banana-da-terra) processada para se tornar comestível, também emprestava muito interesse e vinha com sorvete de iogurte e morango. Foi a sobremesa mais original que comi.

O CONTRAMAR é uma casa de frutos do mar clássica, com a equipe mais (milagrosamente) bilíngue entre os restaurantes visitados. Todos muito eficientes naquele salão e varanda imensos, constantemente cheios. Não é uma casa que busca a inventividade; serve pratos bons e simples (tiraditos, peixes grelhados, sashimis e tal), com ingredientes excelentes. A carta é de vinhos convencionais, corretos. Pausa para uma torta de figos de massa bruta, bem simples, mas viciante, que repetimos. 

Meu estômago buscava abrigo em restaurantes italianos, em dias de crise. Gostei muito de dois, por motivos diferentes. O OSTERIA DEL BECCO por um ambiente que consegue ser elegante, intimista e animado, ao mesmo tempo, com uma adorável área aberta, ao fundo. Não menos importante, uma adega de vinhos convencionais imensa no segundo andar, com vários rótulos que não estão necessariamente na carta, mas podem ser comprados e servidos ali. Há um delicioso vitello tonnato, ótima seleção de peixes crus, boas pizzas, além do serviço de vinhos adorável de Ivan, mas as massas não têm ponto tão religioso e o tiramisú não é o forte da casa. O SARTORIA me encantou pela qualidade dos ingredientes, de cabo a rabo: do pão do couvert, passando pelo azeite e vinagre que o acompanham; peixes frescos; massas feitas com boa farinha (maravilhoso fogie al pesto de menta e amêndoas) e no ponto mais correto que achei na cidade. O capricho vai até os sorvetes de fabricação própria, de sobremesa. O serviço foi muito simpático e atencioso, em todas as visitas, e a carta de vinhos mais eclética e original.

Assim termina a lista, que só pode ser escolhida dentro daquilo que visitei, por 15 dias (injusta, portanto). Muito ficou de fora, de propósito, e outro tanto porque simplesmente não fui. Isso tudo é pra dizer que listas são mesmo uma bobagem (concorde! discorde! seja feliz!), mas o que importa, e muito, é que são o pedido mais frequente dos seguidores deste blog.

Deixo as fotos para o Instagram, onde marco cada uma com a hashtag #crisbeltraociudaddemexico. Lá, também podem ser encontrados cafés, delicatessens e outras paradinhas, de qualidade. “Sem mais, despeço-me” e espero que tenham gostado do passeio sincero, um beijo, tchau.

***

Entre os visitados, meus preferidos por categoria (para quem tem preguiça de ler o texto – fazemos o possível para melhor atendê-los):

COMIDA MEXICANA CONTEMPORÂNEA – Lorea

PARA VOLTAR A TODA HORA – Elly’s 

AMBIENTE – Elly’s, Massimo Bistrot, Osteria del Becco, Rosetta (não soube escolher; são estilos diferentes)

SERVIÇO – Contramar, Quintonil, Osteria del Becco

RESTAURANTE ITALIANO – Sartoria

PEIXES E FRUTOS DO MAR – Contramar

BAR DE VINHOS NATURAIS – Cicatriz

CARTA DE VINHOS – Osteria del Becco, Massimo Bistro, Rosetta (foco em naturais)

CAFÉ DA MANHÃ – Padaria Rosetta

Websites:

quintonil.com

almanegra.cafe

instagram: @panaderiarosetta

ellys.mx.com

maximobistrot.com.mx

cicatrizcafe.com

rosetta.com.mx

lorea.mx

contramar.com.mx

losteriadelbecco.com

sartoria.mx

4 comentários sobre “O melhor do MEU mundo – Cidade do México

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