Um Bolhão e uma Beltrão

Fui cutucada para fora da cama por um fuso trocado. Olhei o relógio sem qualquer preguiça e caminhei, pantufa e robe do hotel, até a sacada ainda molhada pela tempestade do dia anterior. Esperava o frio muito frio do Norte, mas senti gostosos 13 graus enquanto a (ainda) noite das 7:15hs se transformava em dia, pontualmente às 7:29 da manhã, com um coro de gaivotas anunciando a transição.

A vista é “brutal!”, me disseram. E era.

O Porto é mesmo lindo.

Não foi uma ou duas vezes que ouvi de amigos que moram por lá: “mas a Cristiana nunca vem aqui?”. Burramente, brasileiros têm a memória de distâncias muito grandes entre Norte e Centro Sul, mas são três horas que voam, especialmente para quem lê ou trabalha, no trem veloz que parte de Lisboa. Com wifi decente, carro restaurante e vista, me perguntava por que nunca tinha ido antes.

Mercado do Bolhão

Aliás, faria a viagem de novo e com gosto só para caminhar por entre as barracas e placas ‘mui ordenadas’ do MERCADO DO BOLHÃO, que funciona na Baixa desde 1839, quando ainda era um mercado de rua aberto. Naquele tempo, era zona enlameada atravessada por um regato que, bem ali, teimava em formar um…bolhão de água (eureca!). Desde 1924, com a Câmara Municipal tentando organizar a bagunça, é estrutura fechada, pavimentada, limpa e bem iluminada, com cobertura das galerias e tal.

“Maria do Álvaro”, “Temos Lata”, “As Irmãs Araújo”, “Inês das Plantas”, “Salsicharia Lindinha”, “Rosinha Florista”… As barracas são poesia auto-explicativa e conseguiram arrancar um sorriso a cada parada. Além da venda de grãos, frutas, legumes, carnes e peixes, embutidos, flores ou conservas, come-se muito bem por ali, em mesinhas espalhadas pelas laterais com direito a cerveja, copo de vinho e o melhor ponto final que conheço: a doçaria portuguesa.

Salão do Euskalduna

Quando marquei a viagem ao Porto, assim meio de surpresa, recorri aos amigos da área. Três deles me indicaram o EUSKALDUNA como melhor restaurante da cidade que, aliás, acaba de ganhar sua primeira estrela Michelin. A casa é feita de um balcão de 12 lugares e duas mesas de 4. Tudo muito bom, mas convém estar preparado para as quase 4 horas do menu de 10 passos. Dentre todos, uma lula gigante dos Açores que ganhou meu coração. Na base, os tentáculos em creme feito com arroz koji, echalotas e malagueta; o corpo vem no centro com uma espécie de beurre blanc feito com vermute no lugar do vinho branco e, por fim, um pó de tinta de choco e a raspa de um cítrico japonês. Recomendo fortemente a harmonização feita de vinhos menos tradicionais de pequenos produtores e gostei particularmente do espumante rosé de pinot noir da Quinta do Rol, 7 anos sobre as borras. Perlage delicinha. Essa vinícola de Lourinhã, aliás, é famosa por suas aguardentes de fazer inveja a qualquer Cognac (mas esse é outro texto).

Lula e Nage era o nome do prato perfeito

Salão do Almeja

Perto do Bolhão e para quem quer uma ótima cozinha à la carte, recomendo fortemente o ALMEJA (dica de Miguel Pires), estacionado naquele ponto perfeito entre o gourmet e o gostoso, em geral tidos como rivais. Não são e ali se pode provar. Tudo bem feito, elegante e bem montado, mas provoca algo mundano de “quero mais”.

Cabeça de Xara muito delicada – queria comer três

Todas as salas são acolhedoras de um jeito simples e retrô, mas fiquei no salão mais claro, ao fundo, que prometi revisitar no Verão. O menu e carta de vinhos são curtos, mas precisos. Tudo que provei (6 pratos porque, claro, ataquei o do vizinho…) estava delicioso. Destaco a tosta de cabeça de xara, escabeche e maçãs, linda e equilibrada. Em seguida, um imperdível arroz de cabrito e miúdos, cheio de colágeno, daqueles feitos com um caldo impecável, de estalar a língua. Para terminar, o bolo de tangerina com creme de limão, granizado de kalamansi (um cítrico do sudeste asiático) e soro de leite. Leve e ótimo, generoso, divertido. Uma pausa dramática para dizer que há outros dois menus de almoço, sendo que um deles custa 9,90 euros – espiei e parecia delicioso. O serviço de sala foi impecável (mérito de José Pedro): eficiente, discreto, mas também muito bem-humorado. Aliás, toda a gente do Porto é imensamente gentil.

Arroz de miúdos e cabrito – uma delícia

E assim terminou mais um dia feito de Bolhão, comilança e Beltrão com a (já) saudade embarcando comigo, na estação. Rimei.

https://mercadobolhao.pt/

http://www.euskaldunastudio.pt/

https://www.almejaporto.com/

Veja mais fotos do Bolhão e dos restaurantes, no destaque do Instagram [aqui].

Seis dias em José Ignacio

[Um roteiro gastronômico-cultural]

Não gosto de confessar preconceitos, mas sou da contramão. Li num site, por exemplo, que Comporta era “os Hamptons dos anos 70, St.Barths dos anos 80 e Trancoso dos anos 2000’ e dei um bocejo profundo, daqueles de ficar com câimbra no maxilar. Se já não conhecesse a cidade, deixava de ir bem ali, no fim dessa frase.

O lugar “da vez” raramente me pega; até porque quando vira “da vez” já perdeu a identidade e encareceu por todos os motivos errados.

O primeiro sintoma é um resort, que se diz “exclusivo”, devora um belo naco da paisagem e blinda os hóspedes de tudo aquilo que fez do lugar um destino adorável, lá no princípio. Depois, some o comércio local, vêm as lojas de grife que nada dizem daquela cultura, a música lounge, vendedores trilíngues e o antigo restaurante pé na areia vira aquela coisa pasteurizada, trufada e com vinhos milionários de quem escolhe pela coluna da direita.

O problema do pré-julgamento é que a exceção te põe o dedo no nariz e diz: eu não disse que valia a pena?

Há uns 20 anos, em breve passagem por Montevideo, esbarrei em José Ignacio, a “cidade da vez” do Uruguai. Nem deu tempo de vestir o preconceito porque, quando me dei conta, já estava encantada com aquele farol no meio do nada, com as casinhas espalhadas (que não podem ultrapassar 6 metros de altura), com a vegetação rasteira e florida das dunas à beira-mar, um leão marinho ocasinal, as ruas batizadas com o nome dos pássaros e o cheiro de lenha queimada dos restaurantes.

Já sabia, então, que a pequena vila de pescadores era pouso de uruguaios e argentinos endinheirados, mas antes que eu pudesse entortar a boca e dizer “humpf!”, já estava no avião pela segunda vez.

José Ignacio tem a escala uruguaia como vantagem. O país de 3 milhões de habitantes segue, felizmente, ainda um pouco fora do radar mundial, com 98% dos seus turistas chegando de países vizinhos, o que não bagunça tanto a identidade. Além disso, os quase 800 habitantes permanentes ainda conseguem conter os impulsos destrutivos dos 40 ou 50 mil visitantes de alta temporada.

Mesmo tendo aparecido no NYTimes e Condé-Nast como o destino incontornável, conserva um charme meio Búzios dos anos 50, em que havia (claro) o globe-trotter rico, mas também uma cena artística muito forte com Lygia Clark, Helio Oiticica e tal.

A comida de José Ignacio é simples e adorável como no resto do país e pode ser traduzida numa palavra: assados. São legumes, carnes, muitos peixes, queijos feitos na brasa, além do leite denso e gordo que faz o incontornável dulce de leche, e tudo isso regado a muito vinho. Não sei o que acham, mas eu não preciso de muito mais.

Os jantares começam a partir de 21hs e há quem chegue, na alta temporada, para uma refeição à meia-noite.

Pelas ruas, não há pistas da quantidade de pessoas na cidade que, felizmente, consegue ser animada de um jeito muito silencioso e elegante. Mas ao entrar nos restaurantes, sempre pensava: onde se esconde toda essa gente?

ONDE COMER

LA HUELLA

O La Huella não é uma novidade. É, sim, um porto seguro em José Ignácio, desde 2001. Ali não há luxo (que bom!), só a qualidade dos peixes frescos e outras coisas do mar num amplo deck coberto com madeira e mantas distribuídas pelas cadeiras, para quando o vento gelado bater.

Podia viver só das divinas amêijoas, mas vale pedir um “lisa” (peixe untuoso local, primo distante do bacalhau) que ali vem cru, com gema de ovo. Para fomes maiores, recomendo a corvina branca, simplesmente na brasa e um inevitável flan para terminar, já que é pecado rejeitar ‘dulces’ na terra de bons ‘leches’.

SOLERA BAR DE VINOS Y TAPAS

Num canto improvável – assim meio escondido atrás de um posto de gasolina – plantaram uma semente de sucesso com dois containers emparelhados e uma lona estendida entre eles. Com o tempo, o espaço ganhou um teto, um chão, melhor iluminação e foi assim, sendo construído pela adorável Soledad Bassini e Fernando Rodriguez, que comemoraram 5 anos do Solera, agora em dezembro.

O lugar foi uma surpresa e uma delícia: um bar de vinhos e tapas de inspiração espanhola e ingredientes locais com gente bonita que não pára de chegar. Na alta temporada, há quem só consiga jantar só à meia noite.

Comi maravilhosos aspargos e outros ingredientes da estação, como os buñuelos de grão de bico, kale e acelga. Além deles, um ótimo cordeiro com pão chato da casa e iogurte, crudos e tal, tudo dentro daquela estória de pequenos pratos para rimar com grandes copos, que me deixou muito feliz. Um lugar para morar.

JUANA

Tem aquele escurinho bem encomendado, mais intimista, bom para um bate papo de perto, beber um copo, namorar, mas funcionou lindamente para a nossa mesa de oito. A alegria se espalha por vários ambientes, salinhas à meia luz, que incluem um adorável jardim com aquela tripa de lâmpadas penduradas, no fundo da casa.

O Juana Cocina Bar foi uma inesperada e excelente novidade, principalmente pela comida local e sazonal, como gosto.

Adorei especialmente o tiradito de peixe rey, o “camembert” uruguaio derretido na panelinha, a corvina com hummus de beterraba, o rack de cordeiro na brasa com polenta crocante, as sobremesas, a carta de vinhos etc etc.

Um lugar para voltar.

RESTAURANTE da BODEGA GARZÓN

“É só a receita clássica, com ojo de bife, azeitonas, cominho e ovos”.

Já provei umas 20 versões de empanadas, mas nenhuma chegou nem perto.

Saída de um forno de barro pelas mãos do talentoso Nicolás Acosta, fiquei com a lembrança espetacular que foi só o início da refeição que começou no assador da Bodega Garzón e terminou igualmente impecável, no salão do restaurante, com as explicações de Francis Mallmann que se sentou ao meu lado (enquanto eu tentava controlar a emoção).

Provei uma língua marinada divina que empatou em alegria com o blinis com caviar uruguaio e o denso creme feito com leite local; depois veio a fainá, a ‘farinata’ piemontesa, uma torta de grão de bico que é preparada no Uruguai desde o início do século passado; em seguida a corvina a la plancha com purê de couve-flor, vegetais e salmoriglio (molho de ervas e limão). Terminei feliz com uma torta de pistaches, limão, ricota e mascarpone. Sem exagero nenhum, das melhores refeições que fizemos na viagem.

De mãe e avó uruguaias, Francis Mallmann conta que passa uns 5 meses por ano naquelas terras, quando se encarrega de supervisionar a cozinha do restaurante da Garzón, sob seu comando.

Para ele, os ingredientes obrigatórios do Pueblo são os cordeiros de Rocha (melhor criação de ovinos do país), a corvina negra, que começa a chegar em outubro e tem a melhor temporada em janeiro, os queijos (cada vez melhores) e especialmente os pêssegos Rey del Monte, que devem ser comidos em janeiro, “mas só se não chover muito”, senão dá tudo errado.

Quem sabe escutar, não precisa de mais nada.

[Viajei a convite da vinícola, mas o leitor que me acompanha sabe que aqui não há viés. Posso garantir que foi a melhor refeição que fiz por lá.]

ONDE FICAR

POSADA TAMARINDO

Foi minha casa por uma semana. Uma casa linda e gentil, com a equipe mais afetuosa e atenta que alguém pode desejar.

Aos quartos, não falta nada. Há muito conforto e elegância.

ESTANCIA VIK

Gostam de chamar de ‘retiro’.

É uma estância em estilo colonial espanhol, com 4 alas mirando os pontos cardeais e um pátio central. Nasceu como casa da família Vik e hoje é um hotel de luxo, silencioso, distante de tudo, onde se pode andar a cavalo, contemplar a natureza e as intervenções de artistas uruguaios em cada canto da propriedade (só a casa, 4.600m2, a propriedade, 50.000m2).

Como meu olhar sempre passa sempre pelo estômago, adorei a refeição tamanho família, feita em uma mesa longa de “hacienda”, como na minha infância. Mario Oliveira, nosso anfitrião, comenta a estrutura de tijolos do salão e mostra que não há argamassa. A estrutura e abóbada são todas de encaixe, reproduzindo o estilo antigo.

Ali, naquele lugar mágico, sobre uma adega idem, comi deliciosos vegetais, bela salada de alcachofras e legumes da estação com couves crocantes e o melhor cordeiro da viagem. Tudo muito bom e regado a 3 tannats da Garzón, que mostram a versatilidade da uva emblemática do Uruguai, que escoltou bem todas as etapas.

Se é para me ‘retirar’, prefiro assim.

O QUE VER

CASAPUEBLO

A cidade conseguiu atrair gente como Carlos Páez Villaró, que não veio na vida a passeio.

Para falar só da Casapueblo, uma incrível construção em cimento branco que começou como seu pequeno ateliê em 1958, em Punta Ballena, e foi crescendo anos a fio numa sucessão de ondas esticadas com desvios, subidas e descidas de uma cabeça loucamente privilegiada até virar a construção grandiosa que é, eu teria que fazer uns 50 textos.

Ali, cada “rincón” é dedicado a um amigo (e que amigos! Vinicius, Picasso, Vargas Llosa etc) e tem um espírito único. Sua coleção colossal de pinturas, cerâmicas, esculturas e murais é reflexo de tantas experiências em países, culturas, religiões, expressões musicais e políticas diferentes que parecem ser a obra de umas cinco vidas.

Mais lindo que isso tudo foi poder conversar com Annette, sua viúva, e visitar os cômodos privados do casal. Um privilégio. Meu e dos 7 gatos, que por ali se esticam. Apesar do tour particular, qualquer espaço aberto à visitação da CasaPueblo vale a viagem. Uma série de celebrações está pensada para os seus 100 anos, que aconteceriam em 2023. A hora é agora.

MACA

A cabeça voou com a linda floresta de eucaliptos que margeava a estrada e só pousou numa construção em madeira de formas onduladas, quilômetros depois: era o novo Museu de Arte Contemporânea do artista Pablo Atchugarry.

A Fundação já tinha em seus jardins o Parque das Esculturas, uns 25 hectares com obras imensas que juntam arte e natureza, mas desde janeiro deste ano ganhou um prédio espetacular de 5.500m2. A ideia nasceu há 15 anos, inspirada justamente na floresta que cerca a propriedade, mas acabou sendo executada somente na pandemia e levou dois anos e meio para ficar pronta.

O interior é impactante, com um teto feito com eucalipto red grandis tratado e moldado na França, cheio de formas geométricas, umas dentro das outras.

O projeto do arquiteto Carlos Ott abriga a coleção permanente da Fundação Atchugarry (Julio le Parc, Carlos Cruz-Diez, Joaquín Torres García, nosso grande Vik Muniz entre outros) e, também, exposições itinerantes de 3 meses como, por exemplo, a dos artistas Christo e León Ferrari, que aconteceu este ano.

A Fundação, que não conta com recursos governamentais, é o grande sonho de um homem só, que pretende tornar a arte acessível para todos. Faz conferências, concertos, oficinas de arte e um belo trabalho junto às escolas. Ano passado, por exemplo, houve um show de Toquinho, que tocou ali para mais de 12 mil pessoas, num espaço de vários cenários simultâneos que incluía também o balé nacional.

Não bastasse tudo aquilo, um outro galpão, menor, me permitiu mergulhar na obra de Pablo Atchugarry e ver as as diferentes cores, tipos de mármore e tratamentos que o artista dá às suas esculturas, sempre esguias, drapeadas e fluidas. Mais adiante, uma capela muito contemporânea com sua versão da Pietà, de Michelangelo.

Este programa imperdível fica exatamente entre Punta del Este e José Ignacio. Não podia ser melhor.

[e é claro – vide foto abaixo – que meu olhar tinha de pousar sobre uma obra feita com madeira de oliveira. Toda a madeira, aliás, usada não só nos prédios como nas obras, é certificada]

OS VINHOS DA GARZÓN

Viajei para o Uruguai a convite da vinícola. Eleita a melhor bodega do Novo Mundo e, também, entre as 5 melhores do Mundo nos últimos 3 anos, com vinhos negociados na Place de Bordeaux, vários deles com pontuações acima de 90 nos principais rankings do mundo, meu pobre texto já chega perdendo.

O que poderia dizer de novo?

Só posso dizer do que vi e provei.

Sentada diante de Alberto Antonini (sou fã absoluta do enólogo consultor, dos mais respeitados do planeta), ao lado de Christian Wylie (Managing Director de uma empresa que está em 50 países) e na diagonal de German_bruzzone (o talentoso enólogo, 3a geração mergulhada em vinhos), pensei: “o melhor que posso fazer é ficar quieta”.

Em 10 minutos, Antonini já tinha falado umas 5 frases antológicas que eu gostaria de ter anotado, não fosse o embaraço de pegar o celular para escrever, no jantar.

Aos vinhos:

Já era fã do Albariño de entrada (que não tem muito da referência espanhola – é “outra” coisa que sempre me dá saudades do Uruguai), mas reforço o côro da querida Cris Neves, que bem representa a marca no Brasil, quando digo que o Cabernet Franc Petit Clos 2018 é coisa espetacular de beber. Me encantei com um fresco e vibrante Marselan 2020 e tive a honra de estar entre as primeiras a provar o icônico Balasto também 2020 (safra histórica da casa) que esperava que causasse algum impacto, mas não tanto.

O nariz é das coisas mais lindas dos últimos tempos, com camadas e camadas de fruta madura, nota herbácea e de chocolate amargo, looongo como se não houvesse amanhã. Uma beleza.

Podia falar de vários outros (foram 6 dias só bebendo Bodega Garzón) mas paro por aqui.

De resto, fico com o encantamento pelo apoio da vinícola às artes plásticas, música, balé, cultura em geral. Uma escolha importante e rara num mundo bagunçado.

Lisa com gema de ovo curada do La Huella

Solera Vinos y Tapas

Juana e seu jardim ao fundo

O quarto adorável da Posada Tamarindo

A elegante Estancia Vik

Casa Pueblo. Incontornável.

Maca. Um mar de esculturas a céu aberto.

O enólogo Germán Bruzzone e os vinhos do dia

Mallmann. Genial, simpático e estiloso.

A esquina de casa – Parcelles, Paris

A cada viagem que faço, procuro o “restaurante da esquina” ideal; uma espécie de gênio da lâmpada do meu estômago, que merecia morar sempre perto de casa. 

Tombe a fome para saladas ou gordices, a ‘esquina’ está sempre lá, perfeita. Não tem rococós, pinguinhos calculados, esculturas comestíveis ou utensílios caríssimos; só qualidade. Ali, o serviço é eficiente e quase invisível, elucidativo sem ser afetado e, nem preciso dizer, a sala de estar da minha alegria orbita em torno do vinho. 

O ponto já era ímã desde os tempos do Taxi Jaune, restaurante fundado em 1934 onde artistas e outras figuras de importância iam atrás da famosa carne de cavalo. Em lugares afetivos como esse, saudades não são facilmente substituíveis, mas não havia ninguém melhor do que Sarah Michielsen, com seus 20 anos de experiência (dirigiu o Gusto, também o Le Temps au Temps e conseguiu uma estrela Michelin no seu antigo Itinéraires) para comprar o antigo restaurante e ainda fazer o público voltar com força, fazendo do Parcelles um dos bistrôs mais queridos do momento, uma unanimidade em guias de todas as cores.

A passagem do ponto se deu no auge da pandemia (um bom momento para se livrar das amarras de uma cozinha estrelada). O movimento incluiu também a abertura de uma adega-épicerie do outro lado da rua, com patês, terrines, rillettes, além de um sotaque espanhol nos jamóns, morcillas e chorizos para levar, junto com uma ótima seleção de vinhos predominantemente orgânicos, biodinâmicos e naturais. 

Aquela apreensão que me acomete a cada novo restaurante, passou na primeira espiada na prateleira ao lado: tinha um Selosse, um Cappellano, um Échezaux do Dujac, um Hermitage do Jean-Louis Chave… Pas mal. Apesar das garrafas-estrela, a carta de Bastien Fidelin tem vinhos para todos os bolsos, com a equipe preparada para conversas sobre harmonização ou estilos que combinam com cada cliente. 

A comida de Julien Chevallier é a que chamam de “bourgeoise” (cozinha-conforto-caseira-de-classe-média) com apresentação descomplicada, mas que ali vem com segredos que fazem toda a diferença: um vinagrete de tozazu, aqui, um nabo japonês hinona kabu, ali. E os preços não assustam, para os padrões franceses: entradas e sobremesas em torno de 13 euros e principais em torno de 25, com a adição, todos os dias, de um prato vegetariano . 

Fui de beterrabas com folhas de vinagreira, sabayon de estragão e meu adorado queijo de ovelha dos Pirineus: o tomme de brebis. Segui com um abraço na forma de repolho cozido recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (invejei vieiras e mollejas vizinhas). Terminei com torta de figos de Solliès, que estavam na época, montados sobre uma base de mascarpone que me fez sentar no colo da avó francesa que nunca tive. 

Não sei bem o que faz do restaurante um cenário agradável, talvez a rua histórica e calma, talvez a luz bonita que entra pelas janelas. Quem sabe a fórmula tenha sido não mexer no time que já estava ganhando no restaurante anterior: lindo balcão de zinco art-déco com um neon retrô acima do bar e, ainda, as paredes de pedra e mosaicos no chão do prédio do século XVIII. 

Não bastasse tudo isso, tive ótima companhia (o melhor tempero que há). Sugeri o almoço certa que ia surpreender um casal de amigos que tudo conhece (Álvaro Loureiro e Pedro Figueiredo). 

Foi surpresa? Não. Quem sabe, sabe…

www.parcelles-paris.fr/

le menu

Arbois. Por quoi pas?

Uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

salada de beterrabas com vinagreira, sabayon de estragão e queijo tomme de brebis

mollejas com sálvia do vizinho

repolho recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (bomba calórica – leve, de verdade – fantasiada de saudável)

torta de figos de Solliès com mascarpone

a prateleira da inveja

Minha vida Fontaineblense…

[os jardins do Castelo de Fontainebleau, grande alegria na pequena cidade]

Gostei dos pães da Boulangerie Dardonville e achei, com facilidade, a insubstituível manteiga Bordier. Havia boas loja de vinhos convencionais e outra ótima de vinhos naturais, adotei uma cafeteria com bons grãos etíopes e um outro canto, com chás. Há bistrôs corretos, queijos espetaculares, excelente confeitaria e, para a hora da saudade, boas pizzas e um bom japonês. 

De resto, boas livrarias, umas galerias de arte, um teatro. Tudo numa cidade do tamanho de Ipanema. É claro. Há o onipresente “peru no pires” em forma de castelo, principal ímã turístico da cidade.

Passei bons dias em Fontainebleau, cidade em que todos vão aos fins de semana para Paris, inclusive meu filho, que agora estuda por lá. 

Paris perde quase 11.000 habitantes por ano para cidades periféricas. Não é má solução, em termos de custo de vida. Casais jovens não acham mais imóveis para alugar na capital (viraram Air BnB) e moram mais tempo com os pais, antes de tomarem a decisão de viver pará lá e para cá, num trem. 

As pequenas cidades se transformam, lentamente, e o adeus aos grandes centros me parece permanente.

Deixo aqui um pequeno guia cheio de afeto, (qualquer lugar onde o filho esteja é o melhor do mundo), para aqueles de passagem.

RESTAURANTES

L’AXEL – Apesar do tamanho de Fontainebleau, coube uma estrela Michelin da cidade. Num pequeno salão intimista e agradável, Kunihisa Goto serve ostras da bacia de Marennes Oléron com emulsao de frutas exóticas, mexilhões de Bouchot do Mont St Michel com curry feito de feijão branco (coco de Paimpol), uma deliciosa vichyssoise de bacalhau e um bom pombo com beterrabas, figos da época, vinagrete de framboesa e cogumelos chanterelles. A carta e o serviço de vinhos foram excelentes.

GINA – o restaurante italiano, recém-inaugurado (setembro de 22) fica no Hotel La Demeure du Parc, onde tive a sorte de me hospedar (ótimos quartos e serviço). O salão é talvez um dos ambientes mais agradáveis e o menu italiano tem alguns itens cenográficos como uma porchetta imensa, costeleta à milanesa gigante e tal, que causam impacto no serviço feito pela equipe de salão. Gostei particularmente de um menu degustação em torno de frutos do mar. O serviço é simpático e o menu de almoço, apesar de enxuto, tem clássicos eficientes. A casa tem ótimos drinks, mas a carta de vinhos tem rótulos e regiões mais comerciais e com margens “de hotel”.

FUUMI – Tive vontade de voltar. Além dos peixes mais frescos da cidade e um arroz de alho assado que comi compulsivamente, comida japonesa quente de muita qualidade brota do balcão do chef Kenta Iyori, que se ocupa da chapa. Do fogão, um espetacular chawanmushi de bonito e shiitake com alho poró, caranguejo desfiado e camarões de Madagascar. Cobicei ramens vizinhos… Ótimo junmai dai-ginjo Sho Chiku Bai (Shirakabegura) da região de Hyogo, na Ilha de Honshu. O restaurante foi criado por Kunihisa Goto, o chef do vizinho L’Axel, a estrela Michelin da cidade.

LA PETITE ARDOISE – um verdadeiro bistrô, para momentos de comida clássica com foco na procedência dos ingredientes, como os escargots de Pampfou, ovos da Fazenda Laveau 77, coisa e tal. O foco é bem local e, até por isso tem queijos, muitos queijos, numa rua que apelidamos de “A Dias Ferreira” de Fontainebleau.

ANTICA TRATTORIA – um dos restaurateurs mais bem sucedidos da cidade (Enrico Einaudi) estudou no Insead, uma das melhores escolas de negócios do Mundo em torno da qual a cidade também orbita (e meu filho estuda, pausa para uma propaganda nada subliminar). Largou o trabalho de controladoria na cidade grande e decidiu abrir vários restaurantes por ali. De sua Trattoria brotam imensas filas em torno de boas massas, pizzas e um serviço eficiente e simpático.

LE FRANKLIN – não esperava muito da casa com jeito de bar na esquina noturna mais animada da cidade, mas a taberna com comida da região de Aveyron, no sul da França, estava bem gostosa, dentro de um espírito bem carnívoro e de embutidos e gordices como aligot, foie gras e tal. Pedi uma salada para disfarçar a gula, e estava boa.

LE PATTON – gostei especialmente da construção, uma mansão do século XIX que conta com uma varanda coberta muito agradável para almoço ou jantar, com a vista do jardim nos fundos. A ideia, desse restaurante que já tem 12 anos de idade é guardar o espírito da casa que já está na família há 4 gerações. O menu do dia foi boa opção e tinha boudin noir, que não costumo recusar. Tem um jeito (no almoço) de business account.

LE SOMMELIER DU CHÂTEAU – o foco fica na varanda agradável e seus vinhos, que podem ser acompanhados de tapas e outros. Lá dentro, a cozinha é criativa, com ingredientes mais leves que muitos vizinhos (carpaccio de vieiras com maracujá, baunilha e limão ou aspagos grelhados com bottarga e pesto de ail des ours, o alho-selvagem), mas um pouco demorada.

BISTROT DES AMIS – do mesmo dono da Antica Trattoria, o lugar tem a vantagem de estar aberto em dias e horários ingratos e isso (acreditem) vem bem a calhar para um passante. Comi bons ceviches que, pela tradição da região e estranhamento dos brasileiros, sempre levam muitas frutas e flores. Achei algo que adoro: a muxama de atum (fatias finas de atum curadas, como um presunto) que ali vinha com amêndoas, uma das especialidades da casa.

PADARIAS E CONFEITARIAS

BOULANGERIE DARDONVILLE – Era dela a cesta de pães servida no meu hotel e também os reencontrei em alguns dos melhores restaurantes da cidade. Provei de vários grãos, tamanhos, preparações, tanto doces quanto salgadas, com ótima qualidade.

SUZY ET ARLETTE – Descobri que a padaria ganhou o concurso da região do Seine et Marne na categoria pain au chocolat (para quê, meu bom Deus?), mas também adorei outros tantos itens de confeitaria, para a infelicidade dos meus quadris. Tudo delicioso, além do atendimento alegre e divertido.

L’A PÂTISSERIE – KG – sem dúvida, a melhor confeitaria da cidade, pela qual me apaixonei na casa da amiga residente e gourmet Mariana Schapira. Há doces divinos como o de creme de amêndoas com yuzu ou o crocante de caju com frutas vermelhas.

CAFÉS ESPECIAIS

PAUL ET PAULETTE – Há uma boa loja com grãos para quem tem cafeteira em casa. Como não era meu caso, e depois de muito procurar, bati ponto nessa adorável cafeteria, para lattes, expressos e filtrados, com grãos variados de ótimas procedências. Atendimento muito simpático dos proprietários.

CHÁS

CHEZ ELEMIAH – é um salão de chá com comidinhas lindas veganas que não cheguei a provar. Foquei na bebida que tomava antes ou depois de um giro na galeria de arte, à côté.

QUEIJOS

LES TERROIRS DE FRANCE – não se deixe levar por vitrines mais ordenadas, aqui há um mestre queijeiro (a terceira geração na família) que explica com cuidado e carinho cada tipo de queijo e seu momento. Excelente seleção. Não esqueçamos que a região (Seine et Marne) é a terra do queijo brie e do menos conhecido (mas não menos delicioso) coulommiers, de massa mole e feito com leite de vaca. “Fica a dica” e o encantamento com a loja de Christophe Lefebvre e sua mulher.

VINHOS

VIVAVINO – passei por diversas lojas (não necessariamente impressionantes) de vinhos convencionais, mas me encantei, mesmo, pela seleção e atendimento dessa pequena loja de vinhos naturais, que serve comida aos fins de semana. Ótima escolha de produtores e atendimento. Convém chegar cedo se a ideia é sentar num dos 8 ou 10 lugares da casa. Os sócios conhecem profundamente os produtores e seus vinhos.

[para imagens dos lugares citados, procure o destaque Fontainebleau, no meu instagram https://www.instagram.com/crisbeltrao/]

Com ou sem som? Dois bistrôs em Paris

Meu metabolismo e eu nos separamos há algum tempo e estou virando uma daquelas pessoas que, se pudesse, jantava às 17:30hs, o último horário em que o corpo aceita trabalhar, sem reclamar. Ali, a casa só abria às 19hs, mas dez minutos antes já estava à porta lançando um olhar mendicante à recepcionista. 

Gosto de ser a primeira a entrar e da energia que vem com a montagem do primeiro prato do turno, quando a equipe ainda não está estressada ou cansada. Sim, se come melhor. Este pequeno preambulo, como queríamos demonstrar, só prova que estou velha e ranzinza.  

O KGB, filhote do Ze Kitchen Galerie (daí se chamar Kitchen Galerie Bis) não é nenhuma novidade e faz sucesso desde 2009. Nunca experimentei o filho porque adoro o restaurante-mãe e acho mais seguro voltar, mas graças à morte do meu metabolismo, decidi arriscar. Talvez o filho menos importante não me faça sentir obrigada a provar o cardápio inteiro – pensei. E o demônio sentado no meu ombro esquerdo gritou: “Brava! Viva a falácia que sempre acompanha as derrotas na sua balança!”. 

Clop, clop, clop: “Madame, bonsoir!”. Pegou casaco e tal e me encaminhou – clop, clop, clop, clop, clop, clop- até a salinha anexa ao salão principal. Posso ver o menu? Claro! Clop, clop, clop…

Há alguns meses, depois de mergulhar numa pesquisa sobre o assunto, decidi escrever sobre o impacto da música ambiente em restaurantes, na minha coluna da Veja Rio (aqui). Na coluna, discorri sobre as conclusões da pesquisa, mas nunca tinha chegado a uma conclusão sobre mim. Pois bem, no KGB não havia música e, dentre todas as vezes que saí sozinha, nunca me senti tão só. 

E de resto? 

Comecei com os ‘zors d’oeuvres’, o trio de entradinhas-surpresa do chef. Os da semana eram um peixe do dia com coalhada e folhas que faziam um interessante contraste de sabor terroso; um caldo de carne riquíssimo com pimenta Sichuan, toque de funcho, cogumelos e um baconzinho para arredondar; por fim, alhos-poró com tarama (pasta de ovas de peixe salgadas e defumadas) e ovas de truta numa deliciosa marinada de soja. 

É claro que fui de pombo de Mesquer (Vale do Loire). Quem nunca comeu e fez cara de “eca” para a tela, não sabe o que perde. Tinha o cozimento perfeito e um fundo também de soja e vinha com milho doce, abóbora, cebola roxa e azeitonas. Como sobremesa, uma delicada dacquoise com creme de flor de laranjeira, sorvete de pistache, praliné de abóbora e tangerina tatsuma.

A comida do chef Martin Maumet capricha em tudo que gosto: raízes, legumes e ervas frescas. A carta é espetacular e o serviço também foi impecável, mas marcado pelo barulho dos saltos e solas por todo o salão, ampliado pelas superfícies frias e sem toalhas que fazem com que aquilo tudo ecoe e os clientes sussurrem para que o vizinho não participe da conversa. Eu sabia exatamente quando um cliente entrava, quando saía ou quando fazia o caminho até o banheiro, já reconhecia os passos do commis e, lá pela sobremesa, sabia distinguir o loafer da garçonete do da sommelière. 

Na mesma semana fui ao LIQUIDE, inaugurado no ano passado, filho do estrelado restaurante Substance, de Matthias Marc. Como sempre, a primeira a entrar, mas no caminho desde a recepção até a mesa colada na cozinha, fui acompanhada por Sultans of Swing e cheguei ao meu assento bem na passagem para Heart of Glass. 

A casa ainda estava vazia, como de início no outro restaurante, mas fiquei animada ali de frente para o show, vendo os cozinheiros liderados pelo jovem chef Jarvis Scott picarem, escaldarem, assarem e fatiarem todo o menu, sacudindo a cabeça e cantando baixinho, como eu.

Comecei matando a saudade do aipo rábano que quase não se vê no Brasil. É bulbo adorável, mas bem “mastigudo”, de dar câimbra no maxilar. Vinha em mil folhas, com castanhas (estão na época) e coberto com espuma de parmesão. 

Pedi o canard colvert (aquele pato selvagem lindinho, o mais comum, de pescoço verde) que tem a carne mais firme que a das outras espécies, mas muito mais saborosa. Como todo animal de caça, obviamente só pode ser vendido na temporada e vinha, ali, com a coxa empanada e o peito (maturado por uma semana) absolutamente macio. A escolta eram cogumelos cèpes, marmelo e um caldo impecável e denso do próprio pato. Muito bom.

Pedi o INESQUECÍVEL savagnin ouillé do Fumey Chatelain para fazer um ton sur ton com “Yellow Brick Road”, na caixa de som (copos lindos da Riedel, a propósito). Obedeci à música “Don’t stop me now” e segui garrafa abaixo, mas me controlei e parei, apesar dos protestos de “Don’t leave me this way”. 

A conclusão é que música ambiente é algo pessoal e intransferível. Mais fácil escolher um vinho do que uma trilha que agrade a uma mesa de 4. Ambos os bistrôs são filhos mais jovens, baratos e despojados que seus pais estrelados, com comida e serviço de muita qualidade. O problema é que, sem a música, fiquei só comigo… e, né? Como estou velha e ranzinza, foi chato. 

Fica aqui a promessa de voltar acompanhada a um e ao outro. Quem sabe mudo de ideia?

zekitchengalerie.fr/restaurant/kitchen-galerie-bis

www.liquide.paris

pombo e suas lindas cores de Outono, no KGB
dacquoise com creme de flor de laranjeira, sorvete de pistache, praliné de abóbora e tangerina tatsuma
mil folhas de aipo-rábano com castanhas e creme de parmesão
pato selvagem (colvert), do Liquide

Pra quem sabe cair do cavalo – Cavalariça, Comporta

Quando pequena, fiz aula de equitação. Tempos curiosos, aqueles…

Meus pais, orgulhosos, ganhavam elogios ao mostrar a foto da filha lindinha, toda fantasiada com calças de culote, capacete, bota, luva, paletó e chicote de couro. Eu, ganhava os tombos. 

Mabrouk era espetacular e nosso amor foi lindo, enquanto durou. Gostava de alisar sua crina e dos dentões que arreganhava enquanto mordia os torrões de açúcar em minhas mãos. Me sentia invencível naquele trote flutuante ao dar voltas pelo picadeiro enquanto fazia os exercícios de ritmo, respiração e solidez sobre a sela. 

Tudo parecia perfeito, até que o infeliz latido de um cachorro ou a buzina inesperada de um carro faziam o bicho lembrar que era um cavalo de salto e se esquecer de mim. Mabrouk relinchava, sacudindo a cabeça, desviava da rota, partia para o meio do campo num galope enlouquecido e wooooooshhhh, saltava um obstáculo. 

Nas 15 vezes em que algo o assustou, eu caí. Meu orgulho se limitava a tentar despencar um pouco mais adiante, depois do terceiro ou quarto salto, mas não tinha muito jeito. Foi curta a minha carreira no hipismo. Ao menos, acabou antes que Mabrouk me matasse. 

Mesmo coberta de hematomas, não contava nada em casa. Foi tudo bem na aula? Foi.

Vocês podem me achar esquisitinha, mas no dia em que resolveram trocar meu cavalo, parei com o treino. 

Para evitar lembranças masoquistas, evitei cavalariças desde meus 11 anos de idade, até que encontrei as de Comporta. 

O site do hotel em que ficamos trazia algumas comparações para “situar” os clientes: Comporta é como “os Hamptons dos anos 70, St.Barth dos anos 80, José Ignacio dos anos 2000”. Sinceramente, achei a cidade bem mais pé no chão, com mais qualidade e menos afetada que todos os lugares citados. Talvez José Ignacio seja o espírito mais parecido em tamanho, proposta e público. 

Já tinha lido sobre o restaurante situado nas antigas cavalariças da cidade e, se havia algum desejo gastronômico em mim, era o de conhecer aquele lugar. 

O espaço era lindo, claro, com pé direito alto e janelas de madeira colorida. Nos vãos generosos das antigas baias pintadas de branco ficavam as mesas maiores.

Dizem que famoso por lá é o prato de frango, mas como estava entre amigas loucas por vegetais, fizemos um belo desvio nessa direção.

Não sei dizer o que estava melhor: o pão magnífico (tão bom quanto a manteiga curada e o azeite que o acompanhavam); as croquetas de ombro de porco com maionese de mexilhões e semente de mostarda; a abobrinha orgânica sobre queijo de soro de leite com manjericão; a couve flor assada na frigideira com couve sauté e vinagrete de alho-poró; o divino roll de legumes em folha de repolho e hoisin de amêndoas; o tempurá de couve com cebola e hummus de feijão branco ou a cenoura defumada com creme de amêndoas assadas e laranjas sanguíneas. Tudo excelente.

Então, a nota triste:

Ninguém vai lhe avisar, no momento da reserva, que à noite não circulam mais táxis em Comporta (eram quase 23hs quando terminamos o jantar e ficamos três mulheres ligando para a única cooperativa de taxis da cidade, sem nenhum apoio da casa, do lado de fora). Para evitar aborrecimentos, recomendo fortemente arranjar de antemão o transporte da volta. 

Eu devia ter previsto que, numa cavalariça, a história só podia terminar com um tombo. Doeu, como doíam os da infância, mas continuo esquisitinha… e volto.

http://www.cavalarica.com

Sede no Brooklyn – LaLou, Prospect Heights, NY

Esse post tem uns 6 meses de atraso, assim como tantos outros entalados na ponta dos dedos numa espécie de artrose literária. Culpa da peste.

Passei alguns meses em Manhattan, no ano passado, por motivos diversos. Num surto de otimismo inabalável que durou uns cinco minutos e meio, tive certeza de que a tudo voltaria ao normal e rechearia este blog com inúmeras recomendações, mas não foi bem assim… 

Viagens ainda não eram permitidas, a Covid andava pelas esquinas e o mundo caminhava de máscara. 

Apesar da vida, essa teimosa, continuar acontecendo apesar do medo, recomendar restaurantes no exterior me pareceu um troço besta e anacrônico, a despeito de ter conhecido alguns que gostaria de revisitar em tempos menos dramáticos.

Ainda assim, foi falando de viagens e restaurantes fora do Brasil que esse quadrado nasceu há mais de 20 anos (antes bazzarfood.blogspot, depois crisbeltrao.blogspot) e sempre me alegra receber comentários animados dos leitores com dicas que dei. Além do mais, já que o câmbio, aquele mal-amado, não dá chance ao acaso, leio uma penca de jornais, revistas e a opinião de gente respeitada só para garantir uma refeição decente sem penhorar um rim. Se você teve a sorte de viajar, estamos aqui para ajudar.

O que anda me encantando? 

Refeições simples, ambientes nada pomposos e provar várias coisas pequenas acompanhadas de um bom copo de vinho. Pois tinha tudo isso no LaLou, no Brooklyn. 

O lugar é feito de uma tripa de mesas – gostosa e barulhenta – que fica diante de um bar que emenda na cozinha e termina num jardim coberto, ao fundo, para quem quer mais paz e distância entre as mesas. Naquele ambiente espartano, confesso que não esperava aqueles vinhos ou aqueles pratos.

Fui investigar. A casa é de Joe Campanale, sommelier respeitadíssimo que teve passagem pelo Babbo, é autor de “Vino, The Essential Guide to Real Italian Wine” e, ainda por cima, decidiu fazer vinho na Campania. Nada mal. Apesar de tanto pedigree, a equipe consigue explicar lindamente a carta que tem grande foco em Itália, França, Áustria e outros cantos adoráveis, sem muito blá blá blá. A foto foi do Ganevat pra contar vantagem, mas passeei por outros copos caros ou baratos com a mesma entusiasmo. Belo trabalho.

A alegria não pára nos vinhos, mas não espere exatamente um cardápio. Há meia dúzia de pequenos pratos com ingredientes excelentes, a começar pelo couvert. Vibrei com os pães e, também, com a enguia defumada com feijões brancos e caldo feito da carcaça do peixe. Mas incontornável, mesmo, foi o nada fotogênico repolho chamuscado com pasta de damascos, Jerez e um delicado molho de queijo azul Stilton. Tive vontade de pedir uma dúzia. 

Recomendo em noite despretensiosa povoada por desejos etílicos depois de uma visita ao Brooklyn Museum (são 16 minutos a pé). 

Saúde! (e saúde!)

laloubrooklyn.com

O melhor do MEU mundo – Cidade do México

Agora o mundo deu pra listas. Até o New York Times, ora vejam, resolveu se inspirar no 50Best e escolheu os 50 lugares nos EUA que o jornal mais gosta, no momento. 

Taí… decidi fazer a minha. 

Não se trata de vaidade ou presunção; são apenas os melhores do MEU mundo. Sim, um mundo torto como qualquer outro, em que a gente tem de trabalhar em vez de ficar à toa, acorda de mau humor, janta com gente chata ou recebe uma lasca de concreto na testa, em animada aceleração a partir de um andaime no 20º andar de um prédio na Cidade do México, bem no momento em que sai do hospital. Pois é, aquele hospital onde o marido foi ajeitar o pé torcido, um dia antes, na calçada do Museu de Antropologia. Talvez por conta de sequências como essa, as pessoas impliquem com agosto. Injustiça… O meu foi bom. 

Meu amigo Paco Torras diz que eu não frequento restaurantes, frequento pessoas. Reagi de início, mas é a pura verdade. 

“Se o Zé estiver no fogão, pede o spaghetti ao vôngole!”

“Pede o bacalhau, mas tem que ser com a pimenta que o Francisco faz.”

“Gosto do boulevardier, mas só se Tatiana estiver no bar”.

Pois é. A vida não é press trip; gostamos de uns pratos, mais que de outros; de uns cantos, mais que dos outros; às vezes do ambiente, mas não dos pratos; às vezes de tudo, e então chega a conta. Pois assim montei minha lista, convicta de que mesmo com 25 anos de escrita gastronômica (sem convites), o meu “melhor” pode não se casar com o vosso…. Acontece. 

Agosto foi marcado por uma quarentena de quinze dias na Cidade do México. Ao contrário da última visita, já não tinha o mesmo apetite para insetos graças à uma indisposição que fez o favor de se estender por quase toda a viagem. Se na outra visita consegui flanar por mercados de rua, comer tacos em barracas e mastigar todas as chicatanas que pude, nessa fiz um circuito menos “raiz”.

Há alguns anos, escrevi sobre os 4 restaurantes mais marcantes da cidade [aqui]. Dos quatro, quis repetir o QUINTONIL (Latam50Best), não por ter sido a melhor refeição da temporada, mas por ter um conjunto, entre ambiente e comida, muito agradável. Infelizmente, na minha volta em agosto, o ambiente já não era o mesmo e achei a reforma muito infeliz. Os pontos altos foram a carta e o serviço, muito bons; aliás, foi a maior proporção de atendentes por mesa que vi. Recomendo fortemente o branco mexicano LA LLAVE 2017, blend de Chenin e Sauvignon Blanc, sempre do Valle de Guadalupe, minha região vinícola favorita no país. Fresco, agradável e com ótima acidez. 

Começando do princípio, busquei pouso em Roma, bairro cheio de joias arquitetônicas e perfeito para riscar a maior parte da minha lista de desejos, a pé. Não menos importante, havia por perto várias opções para a reposição de meus 400 ml de cafeína diários. A preferida pelo atendimento, qualidade do grão e métodos de extração foi a ALMANEGRA, com sua sala pequena e espartana. Gostei especialmente dos grãos da pequena região de Nayarit, no Centro-Oeste do México, da Finca Kalid.

Sempre me prometo dedicar textos individuais a cada restaurante, e lá vou eu rabiscar um troço por ordem de visita, mas a verdade é que o tempo livre nunca me permite cobrir todos eles (afinal não vivo disso) e daí surgiu a vontade de adiantar a lista.

Sobre o ELLY’s, restaurante que cabe em qualquer momento, seja para um drink, um copo de vinho, boa música, comida ou ambiente, já escrevi aqui. Sobre o MÁXIMO BISTROT (Latam50Best), um galpão lindo, com comida bem francesa-manteiguinha, também já escrevi aqui. Além disso, dediquei um post ao CICATRIZ CAFÉ, um bar de vinhos naturais, aqui, no maravilhoso Glupt!, de Luiz Horta.

A PANADERIA ROSETTA também já teve seu post aqui, mas não tinha desenrolado as linhas sobre o seu irmão tão famoso quanto: o RESTAURANTE ROSETTA (Latam50Best). Um lugar lindo, com pé direito altíssimo, moveis leves e claros e muitos cipós, flores, legumes e pássaros pintados pelas paredes. Pelo conjunto, é incontornável. Adorei as entradas, especialmente do prato de tomates verdes com feijão preto, uma espécie de ricota de cabra, berinjela, melaço e um vinagrete muito fresco e também de um mil folhas de cevada, excelente. Dentre os principais, preferi massas aos pratos de peixe. A carta de vinhos é quase toda de orgânicos, biodinâmicos e naturais. Tentei experimentar os mexicanos, como sempre faço, mas acho que a produção de naturais de lá está no mesmo momento da brasileira: há mais erros que acertos, mas sempre vale tentar.

O melhor restaurante, como um todo, foi o LOREA, recomendação do querido Rafa Costa e Silva (e presente agora no guia 50Best Discovery), com carta de bebidas, serviço e comida excelentes. O único senão é a escadaria para entrar, que emenda numa outra imensa, para ir aos banheiros. Fora isso, tudo perfeito, a começar pelos drinks impecáveis, tanto os sérios como o de bourbon e cevada, quanto os animados como o de grapefruit e lavanda. O serviço de vinhos foi o melhor que vi na cidade e a carta tem joias como o Jerez da Ximénez-Spinola (medium) e uma boa seleção de vinhos a copo para a harmonização, embora bastante europeia – senti falta de um rótulo local, numa cozinha tão voltada para os produtos de excelência mexicanos. Dos meus pratos preferidos, posso assegurar que a salada de beterrabas vale a visita. A flor – um cardillo – vem mergulhada no próprio suco de beterraba com creme de erva cidreira e garante a textura maravilhosa. Além dele, a inesquecível tortilla de huitlacoche, o milho enegrecido pelo fungo, uma das iguarias mexicanas incontornáveis. Nas sobremesas, a casca do plátano (primo da banana-da-terra) processada para se tornar comestível, também emprestava muito interesse e vinha com sorvete de iogurte e morango. Foi a sobremesa mais original que comi.

O CONTRAMAR é uma casa de frutos do mar clássica, com a equipe mais (milagrosamente) bilíngue entre os restaurantes visitados. Todos muito eficientes naquele salão e varanda imensos, constantemente cheios. Não é uma casa que busca a inventividade; serve pratos bons e simples (tiraditos, peixes grelhados, sashimis e tal), com ingredientes excelentes. A carta é de vinhos convencionais, corretos. Pausa para uma torta de figos de massa bruta, bem simples, mas viciante, que repetimos. Também faz parte do ranking 50Best Discovery.

Meu estômago buscava abrigo em restaurantes italianos, em dias de crise. Gostei muito de dois, por motivos diferentes. O OSTERIA DEL BECCO por um ambiente que consegue ser elegante, intimista e animado, ao mesmo tempo, com uma adorável área aberta, ao fundo. Não menos importante, uma adega de vinhos convencionais imensa no segundo andar, com vários rótulos que não estão necessariamente na carta, mas podem ser comprados e servidos ali. Há um delicioso vitello tonnato, ótima seleção de peixes crus, boas pizzas, além do serviço de vinhos adorável de Ivan, mas as massas não têm ponto tão religioso e o tiramisú não é o forte da casa. O SARTORIA me encantou pela qualidade dos ingredientes, de cabo a rabo: do pão do couvert, passando pelo azeite e vinagre que o acompanham; peixes frescos; massas feitas com boa farinha (maravilhoso fogie al pesto de menta e amêndoas) e no ponto mais correto que achei na cidade. O capricho vai até os sorvetes de fabricação própria, de sobremesa. O serviço foi muito simpático e atencioso, em todas as visitas, e a carta de vinhos mais eclética e original.

Assim termina a lista, que só pode ser escolhida dentro daquilo que visitei, por 15 dias (injusta, portanto). Muito ficou de fora, de propósito, e outro tanto porque simplesmente não fui. Isso tudo é pra dizer que listas são mesmo uma bobagem (concorde! discorde! seja feliz!), mas o que importa, e muito, é que são o pedido mais frequente dos seguidores deste blog.

Deixo as fotos para o Instagram, onde marco cada uma com a hashtag #crisbeltraociudaddemexico. Lá, também podem ser encontrados cafés, delicatessens e outras paradinhas, de qualidade. “Sem mais, despeço-me” e espero que tenham gostado do passeio sincero, um beijo, tchau.

***

Entre os visitados, meus preferidos por categoria (para quem tem preguiça de ler o texto – fazemos o possível para melhor atendê-los):

COMIDA MEXICANA CONTEMPORÂNEA – Lorea

PARA VOLTAR A TODA HORA – Elly’s 

AMBIENTE – Elly’s, Massimo Bistrot, Osteria del Becco, Rosetta (não soube escolher; são estilos diferentes)

SERVIÇO – Contramar, Quintonil, Osteria del Becco

RESTAURANTE ITALIANO – Sartoria

PEIXES E FRUTOS DO MAR – Contramar

BAR DE VINHOS NATURAIS – Cicatriz

CARTA DE VINHOS – Osteria del Becco, Massimo Bistro, Rosetta (foco em naturais)

CAFÉ DA MANHÃ – Padaria Rosetta

Websites:

quintonil.com

almanegra.cafe

instagram: @panaderiarosetta

ellys.mx.com

maximobistrot.com.mx

cicatrizcafe.com

rosetta.com.mx

lorea.mx

contramar.com.mx

losteriadelbecco.com

sartoria.mx

Uma tarde no vale – Storm King Art Center e Roundhouse, Vale do Rio Hudson, Nova York

The Arch, 1975 – Alexander Calder

Do mesmo jeito que esperava a estrela cadente nas noites da infância, deitada numa toalha no jardim, agora catava um urso.

Manhattan ia saindo de mim, aos poucos. Passei pelos viadutos periféricos, deixei um engarrafamento na ponte George Washington, depois umas indústrias do outro lado do rio, pequenas casas; largava coisas cada vez menores até que surgiu aquilo que os nativos lenape chamavam de weehawken (rochas que parecem fileiras de árvores), as Palisades. Era o início do meu sonho de urso, que brotou na floresta que agora margeava a estrada.

Uma semana antes, eu já vibrava com a dupla estampada no aplicativo do tempo: o desenho do solzinho amarelo, sem nuvens, ao lado de “20 graus”.

Foi Andrea que veio com a ideia do Storm King Art Center, um museu de esculturas a céu aberto no meio do vale do rio Hudson. Para se ter uma ideia da escala, Inhotim tem 390 hectares entre área de visitação e reserva natural. Aqui, ao todo, são 500. É gigantesco.

Já tinha cheiro de artistas, aquela área. Na metade do século 19, o rio era importante rota comercial e de turismo, viabilizando o crescimento de Nova York, ao sul. O ponto era perfeito para pintores que retratavam o vai e vem dos barcos e as dramáticas nuvens que se formavam constantemente em torno da montanha Storm King, ao fundo.

Em 1958, Ralph Ogden arrematou 200 hectares de terra na região e comprou as primeiras esculturas nos anos 60, fundando o museu. A coleção que se restringia à área em torno da sede acabou crescendo e tomando cada canto da propriedade, ganhou merecida importância e, algum tempo depois, a cereja do bolo: uma gentil doação de mais 300 hectares para que a paisagem seguisse intocada.  

Nem dá para explicar a escala das coisas. “O arco” de Calder, com seus 15 metros de altura, nos recebeu na entrada como um imenso cão de guarda que garante a humildade de quem visita o parque.

Vi muitas famílias, gente de toda idade, cada uma a seu passo, e descobri que tenho particular atração por espelhos, desde que não me reflitam. “Fallen Sky”, de Sarah Sze (obra que enfrentou o desafio de uma montagem no meio da pandemia) e “Mirror Fence”, de Alyson Schotz, foram duas de minhas obras preferidas. No outro lado do espectro, a linda escultura em cedro de Ursula von Rydingsvrd, lembrou as escavações de minha mãe.

Dezenas de peças me encantaram por motivos diferentes, fosse pelo movimento que o vento emprestava ao objeto, como no giratório de George Rickey; pela cor vermelha das obras de Alexander Liberman, que rasgavam a paisagem pastoril; ou pela aparente impossibilidade física de uma peça como “Suspended”, de Menashe Kadishman, que parecia querer desabar sobre os passantes.

A bolha no pé, fruto de uma sandália errada (por que diabos não pus meu tênis?) me lembrou a fome, esquecida com tanta boniteza. Era hora de partir para Beacon.

Um programa nasceu para o outro, tanto porque rima em beleza quanto em praticidade. A cidadezinha, como tantas que ficam a pouco mais de uma hora de Nova York, é daquelas lindinhas, com a vida que gira em torno da rua principal que, apesar da escala mínima, tem antiquários, joalherias, roupas de grife e (impossível não notar) a presença imponente das corredeiras que atravessam a pequena ponte. E ali, num dos pontos mais lindos da cidade, se pode almoçar no Roundhouse.

Encontramos um pátio animadíssimo que não aceita reservas e só existe quando o tempo permite, mas garanto que é grande o suficiente para não deixar ninguém esperando muito tempo, num dia de sol.

Fazendas, destilarias e vinícolas próximas abastecem a casa de comida “americana moderna”, com muitas saladas, pequenos pratos e massas, todos com ingredientes da estação. Há algo de terapêutico no barulho das corredeiras. Quem discorda pode escolher o salão interno, projetado sobre o rio, com mais vista e menos som. Lá dentro, as reservas nos dias em que o pátio não abre, não só são desejáveis como recomendadas. Brindamos a alegria de um dia perfeito com um tocai friulano simples, fresco e correto, de uma vinícola a 40 minutos dali.

Lembrei da estrela cadente dos jardins da infância que nunca aparecia, mas rendia assunto. Cada um de nós, ali na grama, passou a vida fingindo que o importante era ela, mas assim como o urso (que também não vi), era só desculpa para voltar.

para a coleção completa e mais informações: stormking.org

roundhousebeacon.com

“Mirror Fence”- Alyson Shotz
Fayette: For Charles and Medgar Evers – Charles Ginnever. Todo o passeio, no campo ou floresta.
The Roundhouse, um restaurante adorável.
A vista do restaurante

E o estômago diz “mi casa” – Elly’s, Cidade do México

Cheguei a Nova York na véspera do dia em que o fim simbólico da Covid e a esperança de reabertura gradual da cidade seria marcada com uma grande festa ao ar livre, no Central Park. A cidade, disseram, finalmente começava a mudar de cor. Acontece que o céu mudou, também.

Uma tempestade tropical decide virar furacão (o primeiro em 30 anos, nessa costa) raios e trovões interrompem a cerimônia e alertas no meu telefone dizem: corram para um abrigo!

De lá para cá, em duas semanas, vivi uma enchente, um tornado, perdi um parente no Brasil e vi a passagem de outro pelo hospital. Escrever sobre comida, convenhamos, não era lá prioridade.

Com tantos anos de refeições obrigatórias na vida, me dei conta de que há poucos lugares para os quais quero voltar. Há sempre lugares divertidos, cheios de conceito, com ótimas causas, com lindo ambiente, inaugurações imperdíveis e empreendimentos de amigos, mas há poucos lugares que entram na gente com naturalidade, como se nos pertencessem (e nós a eles). São como a casa do estômago, onde ele mora sem esforço, abre a porta, tira o sapato e se deita no sofá. Quando a coisa aperta, garanto: é pra lá que ele quer voltar. E, por acaso, seu último endereço foi na Cidade do México, onde passei a quarentena obrigatória antes de chegar aqui.

Por conta de uma briga do horário da reserva com minha memória, cheguei meia hora antes, com o restaurante ainda fechado. Podia ter doído, mas o excelente Emiliano, host/escritor/ator mexicano que fala português e outras quatro línguas fez minha esclerose parecer muito natural. Adiei a fome passeando pela vizinhança, com esticada até o Bosque de Chapultepec e finalmente entrei no ELLY’S.

A casa dos anos 30 em estilo bauhaus é uma graça, com vários ambientes que acomodam os espíritos de um almoço, happy hour ou jantar, todos embalados pela coleção infinita de discos de vinil do sócio Andres Herran, estacionada na entrada. Queria ter me sentado na área dos fundos, ao ar livre, onde ficava “la barra” (ou o balcão), até para ver a chef Elizabeth Fraser em ação, mas o calor me fez parar na sombra do salão anterior.

La barra: com certeza, o lugar mais gostoso da casa

A carta tem tamanho certo, com ótima seleção de vinhos, inclusive naturais, e a cozinha é mediterrânea com toques mexicanos. Adorei os mezze, divertidos e muito bem feitos, que já me ganharam pela qualidade dos pães. Tinha ricota curada com zaatar e azeite; favas fritas sobre tahine verde; purê de cenouras baby; salada de pepino persa com queijo feta, noz de castilla e trigo bulgur, além de deliciosos picles.

Mezze: leves e bem executados

O tartare de cordeiro com tâmaras, hortelã, cebola e pepino, sobre as folhas de alface, era fresco e picante. Me encantei pela simples couve branca chamuscada com molho caesar, raspas de limão, queijos e farofa de pão tostado (o uso da grelha é um ponto alto da chef), mas voltaria 20 vezes para a mousse de fígado de frango com damasco.

Meu estômago foi levado ao segundo piso, com vários outros ambientes de muito bom gosto, visitou a sala de degustação e estacionou num conjunto de sofás onde tomou um ótimo café e a sobremesa. Cheguei em Manhattan, é fato, mas ele segue sentado por lá, tomando coquetéis imaginários na barra e aproveitando o clima do jantar.

Deixo ficar.

Charmay (chardonnay/beaujolais), do Octavin (Jura). Uma delícia de vinho, glou glou, como pedia o dia de Verão.
Tartare de cordeiro com tâmaras, hortelãs, cebola e pepino, sobre folhas de alface.
Couve branca chamuscada com molho caesar, grana padano, raspas de limão e farofa de pão tostado.
A deliciosa mousse de fígado com damascos
Um dos (vários) ambientes do segundo andar
Além da óbvia goiaba, a essas alturas meu estômago já não anotava nada, a não ser que estava bom
Pelas mãos de Emiliano, a organização dos discos que ele põe para tocar, de acordo com o clima:
de hip hop a clássicos, passando pelo jazz.

ELLY’S

ellysmx.com