O melhor do MEU mundo – Cidade do México

Agora o mundo deu pra listas. Até o New York Times, ora vejam, resolveu se inspirar no 50Best e escolheu os 50 lugares nos EUA que o jornal mais gosta, no momento. 

Taí… decidi fazer a minha. 

Não se trata de vaidade ou presunção; são apenas os melhores do MEU mundo. Sim, um mundo torto como qualquer outro, em que a gente tem de trabalhar em vez de ficar à toa, acorda de mau humor, janta com gente chata ou recebe uma lasca de concreto na testa, em animada aceleração a partir de um andaime no 20º andar de um prédio na Cidade do México, bem no momento em que sai do hospital. Pois é, aquele hospital onde o marido foi ajeitar o pé torcido, um dia antes, na calçada do Museu de Antropologia. Talvez por conta de sequências como essa, as pessoas impliquem com agosto. Injustiça… O meu foi bom. 

Meu amigo Paco Torras diz que eu não frequento restaurantes, frequento pessoas. Reagi de início, mas é a pura verdade. 

“Se o Zé estiver no fogão, pede o spaghetti ao vôngole!”

“Pede o bacalhau, mas tem que ser com a pimenta que o Francisco faz.”

“Gosto do boulevardier, mas só se Tatiana estiver no bar”.

Pois é. A vida não é press trip; gostamos de uns pratos, mais que de outros; de uns cantos, mais que dos outros; às vezes do ambiente, mas não dos pratos; às vezes de tudo, e então chega a conta. Pois assim montei minha lista, convicta de que mesmo com 25 anos de escrita gastronômica (sem convites), o meu “melhor” pode não se casar com o vosso…. Acontece. 

Agosto foi marcado por uma quarentena de quinze dias na Cidade do México. Ao contrário da última visita, já não tinha o mesmo apetite para insetos graças à uma indisposição que fez o favor de se estender por quase toda a viagem. Se na outra visita consegui flanar por mercados de rua, comer tacos em barracas e mastigar todas as chicatanas que pude, nessa fiz um circuito menos “raiz”.

Há alguns anos, escrevi sobre os 4 restaurantes mais marcantes da cidade [aqui]. Dos quatro, quis repetir o QUINTONIL, não por ter sido a melhor refeição da temporada, mas por ter um conjunto, entre ambiente e comida, muito agradável. Infelizmente, na minha volta em agosto, o ambiente já não era o mesmo e achei a reforma muito infeliz. Os pontos altos foram a carta e o serviço, muito bons; aliás, foi a maior proporção de atendentes por mesa que vi. Recomendo fortemente o branco mexicano LA LLAVE 2017, blend de Chenin e Sauvignon Blanc, sempre do Valle de Guadalupe, minha região vinícola favorita no país. Fresco, agradável e com ótima acidez. 

Começando do princípio, busquei pouso em Roma, bairro cheio de joias arquitetônicas e perfeito para riscar a maior parte da minha lista de desejos, a pé. Não menos importante, havia por perto várias opções para a reposição de meus 400 ml de cafeína diários. A preferida pelo atendimento, qualidade do grão e métodos de extração foi a ALMANEGRA, com sua sala pequena e espartana. Gostei especialmente dos grãos da pequena região de Nayarit, no Centro-Oeste do México, da Finca Kalid.

Sempre me prometo dedicar textos individuais a cada restaurante, e lá vou eu rabiscar um troço por ordem de visita, mas a verdade é que o tempo livre nunca me permite cobrir todos eles (afinal não vivo disso) e daí surgiu a vontade de adiantar a lista.

Sobre o ELLY’s, restaurante que cabe em qualquer momento, seja para um drink, um copo de vinho, boa música, comida ou ambiente, já escrevi aqui. Sobre o MÁXIMO BISTROT, um galpão lindo, com comida bem francesa-manteiguinha, também já escrevi aqui. Além disso, dediquei um post ao CICATRIZ CAFÉ, um bar de vinhos naturais, aqui, no maravilhoso Glupt!, de Luiz Horta.

A PANADERIA ROSETTA também já teve seu post aqui, mas não tinha desenrolado as linhas sobre o seu irmão tão famoso quanto: o RESTAURANTE ROSETTA. Um lugar lindo, com pé direito altíssimo, moveis leves e claros e muitos cipós, flores, legumes e pássaros pintados pelas paredes. Pelo conjunto, é incontornável. Adorei as entradas, especialmente do prato de tomates verdes com feijão preto, uma espécie de ricota de cabra, berinjela, melaço e um vinagrete muito fresco e também de um mil folhas de cevada, excelente. Dentre os principais, preferi massas aos pratos de peixe. A carta de vinhos é quase toda de orgânicos, biodinâmicos e naturais. Tentei experimentar os mexicanos, como sempre faço, mas acho que a produção de naturais de lá está no mesmo momento da brasileira: há mais erros que acertos, mas sempre vale tentar.

O melhor restaurante, como um todo, foi o LOREA, recomendação do querido Rafa Costa e Silva, com carta de bebidas, serviço e comida excelentes. O único senão é a escadaria para entrar, que emenda numa outra imensa, para ir aos banheiros. Fora isso, tudo perfeito, a começar pelos drinks impecáveis, tanto os sérios como o de bourbon e cevada, quanto os animados como o de grapefruit e lavanda. O serviço de vinhos foi o melhor que vi na cidade e a carta tem joias como o Jerez da Ximénez-Spinola (medium) e uma boa seleção de vinhos a copo para a harmonização, embora bastante europeia – senti falta de um rótulo local, numa cozinha tão voltada para os produtos de excelência mexicanos. Dos meus pratos preferidos, posso assegurar que a salada de beterrabas vale a visita. A flor – um cardillo – vem mergulhada no próprio suco de beterraba com creme de erva cidreira e garante a textura maravilhosa. Além dele, a inesquecível tortilla de huitlacoche, o milho enegrecido pelo fungo, uma das iguarias mexicanas incontornáveis. Nas sobremesas, a casca do plátano (primo da banana-da-terra) processada para se tornar comestível, também emprestava muito interesse e vinha com sorvete de iogurte e morango. Foi a sobremesa mais original que comi.

O CONTRAMAR é uma casa de frutos do mar clássica, com a equipe mais (milagrosamente) bilíngue entre os restaurantes visitados. Todos muito eficientes naquele salão e varanda imensos, constantemente cheios. Não é uma casa que busca a inventividade; serve pratos bons e simples (tiraditos, peixes grelhados, sashimis e tal), com ingredientes excelentes. A carta é de vinhos convencionais, corretos. Pausa para uma torta de figos de massa bruta, bem simples, mas viciante, que repetimos. 

Meu estômago buscava abrigo em restaurantes italianos, em dias de crise. Gostei muito de dois, por motivos diferentes. O OSTERIA DEL BECCO por um ambiente que consegue ser elegante, intimista e animado, ao mesmo tempo, com uma adorável área aberta, ao fundo. Não menos importante, uma adega de vinhos convencionais imensa no segundo andar, com vários rótulos que não estão necessariamente na carta, mas podem ser comprados e servidos ali. Há um delicioso vitello tonnato, ótima seleção de peixes crus, boas pizzas, além do serviço de vinhos adorável de Ivan, mas as massas não têm ponto tão religioso e o tiramisú não é o forte da casa. O SARTORIA me encantou pela qualidade dos ingredientes, de cabo a rabo: do pão do couvert, passando pelo azeite e vinagre que o acompanham; peixes frescos; massas feitas com boa farinha (maravilhoso fogie al pesto de menta e amêndoas) e no ponto mais correto que achei na cidade. O capricho vai até os sorvetes de fabricação própria, de sobremesa. O serviço foi muito simpático e atencioso, em todas as visitas, e a carta de vinhos mais eclética e original.

Assim termina a lista, que só pode ser escolhida dentro daquilo que visitei, por 15 dias (injusta, portanto). Muito ficou de fora, de propósito, e outro tanto porque simplesmente não fui. Isso tudo é pra dizer que listas são mesmo uma bobagem (concorde! discorde! seja feliz!), mas o que importa, e muito, é que são o pedido mais frequente dos seguidores deste blog.

Deixo as fotos para o Instagram, onde marco cada uma com a hashtag #crisbeltraociudaddemexico. Lá, também podem ser encontrados cafés, delicatessens e outras paradinhas, de qualidade. “Sem mais, despeço-me” e espero que tenham gostado do passeio sincero, um beijo, tchau.

***

Entre os visitados, meus preferidos por categoria (para quem tem preguiça de ler o texto – fazemos o possível para melhor atendê-los):

COMIDA MEXICANA CONTEMPORÂNEA – Lorea

PARA VOLTAR A TODA HORA – Elly’s 

AMBIENTE – Elly’s, Massimo Bistrot, Osteria del Becco, Rosetta (não soube escolher; são estilos diferentes)

SERVIÇO – Contramar, Quintonil, Osteria del Becco

RESTAURANTE ITALIANO – Sartoria

PEIXES E FRUTOS DO MAR – Contramar

BAR DE VINHOS NATURAIS – Cicatriz

CARTA DE VINHOS – Osteria del Becco, Massimo Bistro, Rosetta (foco em naturais)

CAFÉ DA MANHÃ – Padaria Rosetta

Websites:

quintonil.com

almanegra.cafe

instagram: @panaderiarosetta

ellys.mx.com

maximobistrot.com.mx

cicatrizcafe.com

rosetta.com.mx

lorea.mx

contramar.com.mx

losteriadelbecco.com

sartoria.mx

E o estômago diz “mi casa” – ELLY’S, Cidade do México

Cheguei a Nova York na véspera do dia em que o fim simbólico da Covid e a esperança de reabertura gradual da cidade seria marcada com uma grande festa ao ar livre, no Central Park. A cidade, disseram, finalmente começava a mudar de cor. Acontece que o céu mudou, também.

Uma tempestade tropical decide virar furacão (o primeiro em 30 anos, nessa costa) raios e trovões interrompem a cerimônia e alertas no meu telefone dizem: corram para um abrigo!

De lá para cá, em duas semanas, vivi uma enchente, um tornado, perdi um parente no Brasil e vi a passagem de outro pelo hospital. Escrever sobre comida, convenhamos, não era lá prioridade.

Com tantos anos de refeições obrigatórias na vida, me dei conta de que há poucos lugares para os quais quero voltar. Há sempre lugares divertidos, cheios de conceito, com ótimas causas, com lindo ambiente, inaugurações imperdíveis e empreendimentos de amigos, mas há poucos lugares que entram na gente com naturalidade, como se nos pertencessem (e nós a eles). São como a casa do estômago, onde ele mora sem esforço, abre a porta, tira o sapato e se deita no sofá. Quando a coisa aperta, garanto: é pra lá que ele quer voltar. E, por acaso, seu último endereço foi na Cidade do México, onde passei a quarentena obrigatória antes de chegar aqui.

Por conta de uma briga do horário da reserva com minha memória, cheguei meia hora antes, com o restaurante ainda fechado. Podia ter doído, mas o excelente Emiliano, host/escritor/ator mexicano que fala português e outras quatro línguas fez minha esclerose parecer muito natural. Adiei a fome passeando pela vizinhança, com esticada até o Bosque de Chapultepec e finalmente entrei no ELLY’S.

A casa dos anos 30 em estilo bauhaus é uma graça, com vários ambientes que acomodam os espíritos de um almoço, happy hour ou jantar, todos embalados pela coleção infinita de discos de vinil do sócio Andres Herran, estacionada na entrada. Queria ter me sentado na área dos fundos, ao ar livre, onde ficava “la barra” (ou o balcão), até para ver a chef Elizabeth Fraser em ação, mas o calor me fez parar na sombra do salão anterior.

La barra: com certeza, o lugar mais gostoso da casa

A carta tem tamanho certo, com ótima seleção de vinhos, inclusive naturais, e a cozinha é mediterrânea com toques mexicanos. Adorei os mezze, divertidos e muito bem feitos, que já me ganharam pela qualidade dos pães. Tinha ricota curada com zaatar e azeite; favas fritas sobre tahine verde; purê de cenouras baby; salada de pepino persa com queijo feta, noz de castilla e trigo bulgur, além de deliciosos picles.

Mezze: leves e bem executados

O tartare de cordeiro com tâmaras, hortelã, cebola e pepino, sobre as folhas de alface, era fresco e picante. Me encantei pela simples couve branca chamuscada com molho caesar, raspas de limão, queijos e farofa de pão tostado (o uso da grelha é um ponto alto da chef), mas voltaria 20 vezes para a mousse de fígado de frango com damasco.

Meu estômago foi levado ao segundo piso, com vários outros ambientes de muito bom gosto, visitou a sala de degustação e estacionou num conjunto de sofás onde tomou um ótimo café e a sobremesa. Cheguei em Manhattan, é fato, mas ele segue sentado por lá, tomando coquetéis imaginários na barra e aproveitando o clima do jantar.

Deixo ficar.

Charmay (chardonnay/beaujolais), do Octavin (Jura). Uma delícia de vinho, glou glou, como pedia o dia de Verão.
Tartare de cordeiro com tâmaras, hortelãs, cebola e pepino, sobre folhas de alface.
Couve branca chamuscada com molho caesar, grana padano, raspas de limão e farofa de pão tostado.
A deliciosa mousse de fígado com damascos
Um dos (vários) ambientes do segundo andar
Além da óbvia goiaba, a essas alturas meu estômago já não anotava nada, a não ser que estava bom
Pelas mãos de Emiliano, a organização dos discos que ele põe para tocar, de acordo com o clima:
de hip hop a clássicos, passando pelo jazz.

ELLY’S

ellysmx.com

O castelo da minha infância – MÁXIMO BISTROT, Cidade do México

A fazenda onde eu enchia linguiça e uma janela, em 2018.

No tempo em que eu enchia linguiça, eram dois cubinhos de carne, um de gordura e um tanto de temperos, assim, nessa ordem. Quem mandava eu me ocupar era Dona Laura, nenhum dente na boca. Eu? Fazia aquilo por horas, escorregando as mãos pela tripa sebosa. 

Naquela época, a luz da fazenda ainda era a do gerador. Às vezes, tremelicava. Ficava eu com o dedo parado, sem escorregar nada, esperando firmar. Prendia a respiração. Voltava a luz, eu enchia linguiça. 

Não ligava para a falta de dentes e nem sabia o que era tripa. Não conhecia colesterol, vegano, ensacadeira, abate sem dor. Pegava numa bacia os dois cubinhos de carne, na outra um tanto de gordura, e num prato de florezinhas catava os temperos, assim, nessa ordem. Escorregava compriiiiido as mãos pela tripa sebosa até o nó. 

O mundo lá fora já era chato, e eu nem sabia.

Antes daquilo, já havia o torresmo, o pão frito, a nata frita, o ovo frito. Lá em casa, tudo era frito. Brincou no jardim? Lanchinho. Quer ver desenho animado? Brigadeiro. 

Vivia num castelo feliz, sentada em poltronas macias de gordura, e recostando a cabeça em travesseiros de açúcar. Ali, ninguém jamais comera uma migalha daquele troço chamado culpa. Aliás, minha mãe ainda mora por lá, e não há médico que a arranque de seu trono. 

Não sei bem como aconteceu…

Um dia, me peguei comendo peixes, adorando azeite, coisas cruas e cheias de fibra, passei a me entupir de verduras e legumes, lamber os beiços para pratos veganos e achar que coisas no vapor me olhavam sedutoramente. Mas parte de mim, confesso, ainda vive lá.

Foi justamente esse quarto de alma que pediu uma sopa de cebola cozida em seu soro, gratinada com queijo comté e ‘cruffin’ – um cruzamento de croissant com muffin – num restaurante na Cidade do México: o Máximo Bistrot. 

Minha porção saudosista tratou de convencer o resto de que aquilo tudo não deveria ser tão literalmente gordo. A quem eu queria enganar? Manteiga é uma droga, um vício, um redemoinho que força a passagem do corpo para um outro plano. Meus olhos se esbugalham, a cabeça voa e ouço uma voz: Cristiana, não vá para a luz!… 

Quando os outros três quartos de alma ordenaram a auto-flagelação e a negação do demônio, pedi minha redenção na forma de patas de caranguejo moro, uma das estrelas do Golfo do México, de carne muito saborosa. O garçom confirmou o que eu já sabia: “sí, cangrejo à la mantequilla”. Olhei para meu marido como quem teme o julgamento. Será que ele ouviu “mantequilla”? Naahh!…

A sobremesa foi o ponto alto, com um sorvete de queijo de cabra Chaurand com massa phyllo, um creme de goiaba não muito doce, uns pistaches aqui e ali e uma bela regada de azeite por cima. Maravilhosa. 

Pelo que li, a casa mudou de lugar, no meio da pandemia. Não sei como era o ‘antes’, mas agora se instalou num galpão onde funcionava uma oficina de automóveis, de pé direito altíssimo, árvores, móveis claros e paredes forradas à moda antiga, com cal e nopal (cacto) fermentado.

A proposta da casa, nas palavras do próprio chef, é de uma cozinha franco-mexicana. Eu diria que bem mais francesa que mexicana, para alinhar as expectativas, com um toque de cozinha americana contemporânea. Afinal, o chef morou e trabalhou muitos anos nos EUA. 

Confesso que, a meio caminho do segundo prato, aquele flashback tão “rico” me fez invejar a salada da mesa ao lado. Ainda assim, a experiência foi muito agradável. 

Lembrei de minha mãe dizer que era comum, em sua época, colocarem “uma colherzinha assim de vinho do Porto” na mamadeira, para acalmar as crianças. Não que tenha feito conosco. Olhei para aquele castelo de minha infância, pedi uma dose de tequila e pensei: será que fez? Nahhhhh!

Ambiente do Máximo Bistrô
Dos melhores pães que provei em restaurantes, na Cidade
Um eufemismo chamado sopa de cebola
Patas de caranguejo moro e um “pequeno toque” de manteiga
Delicioso sorvete de queijo de cabra chaurand, creme de goiaba e massa phyllo
A carta de vinhos era excelente, mas naquele dia fui de drinks. Aqui, a tequila Jose Cuervo Reserva de La Familia Extra Añejo, culpa da minha mãe.

www.maximobistrot.com.mx

CHILE EN NOGADA – México

– Cheguei à conclusão de que sou a ateia mais apaixonada pela imagem de N.Sra.de Guadalupe, que existe. – Escrevi para a irmã.

– Curioso você falar isso… Joana Mariani, a diretora do documentário “Marias”, comentou certa vez que há 70% de católicos no México, mas 100% de devotos de Nossa Senhora de Guadalupe.

– Bom… não sou mexicana, mas já entrei para a fila.

E por falar em Independência, tudo parecia normal no restaurante – copo de vinho, mesa de madeira, água e tal – até o momento em que fiz meu pedido. De repente, e só para a minha mesa, vem chegando lá de longe um carrinho cheio de salamaleques. Voa uma toalha preta como a capa de um toureiro, acendem uma vela (ao meio-dia) num recipiente de vidro cor-de-rosa esculpido em forma de flor, metem um vaso de porcelana com um gigantesco pompom vermelho num canto e um copinho de tequila bem na minha frente. Por um instante, temi que chegassem mariachis.

Me senti meio ridícula, ali no centro do salão, como quem descobre que foi vendida para um circo, junto com o homem-elefante e a mulher barbada. Todos à volta me olhavam e a culpa era do chile en nogada.

Como pode um prato tão emblemático ter passado despercebido na viagem anterior?

Claro! Estive no país em maio, mas só no fim de agosto começa a colheita das nozes que batizam a receita (en nogada, ahá!), daí estar sendo sugerido por todo canto, dessa vez. O país é um imenso consumidor de nozes – quase um quilo per capita por ano – e o quinto maior produtor mundial. São plantadas principalmente ao Norte, inclusive na cidade de Puebla, de onde vem a versão mais famosa da origem do prato, que é parcialmente verdadeira.

Essa versão afirma que o prato foi inventado em 1821 pelas monjas do Convento de Santa Mônica, em honra a Agostinho I (Agustín de Iturbide), um militar que teve participação fundamental na independência mexicana e a quem foi oferecido um banquete na casa do bispo, em sua visita à cidade.

A receita, na verdade, é de origem barroca, como afirma o Eduardo Joárez, do Instituto Nacional de Antropologia e História de Puebla. Era uma sobremesa que já aparecia em livros de culinária desde o século 18 e foi criada décadas antes da chegada de Agostinho na cidade. É certo, no entanto, que foi oferecida como parte do menu em sua homenagem, quando Iturbide passou pela cidade em direção a Veracruz, onde firmou os tratados onde a Espanha aceitava a Independência do México.

Os mariachis não apareceram, mas meu chile (uma pimenta grande como um pimentão, pouco ardida, da variedade “poblano”) veio recheado com o importante simbolismo da Independência e enfeitado com fitas nas cores da bandeiram espetadas numa de suas extremidades. O que fez a fama das monjas não foi a receita, mas colocar salsa e romã salpicadas sobre o todo, como reforço ao colorido do estandarte. O menu da casa do bispo, aliás, tinha 14 pratos – faça aqui seu sinal da cruz.

E a Santa?

Nossa Senhora de Guadalupe também era padroeira do exército insurgente, daí a história.

Não se sabe ao certo o momento em que alguém adicionou carne moída à receita, fazendo a sobremesa entrar na caixinha de prato principal. Há inúmeras variações do chile en nogada, mas a tradicional, com pimentão, carne moída, frutas secas, leite, queijo, nozes e romãs, tudo junto e misturado é uma alegria só.

Fiquei pensando na sobremesa que virou prato. Faz sentido… No México, sejam santos ou receitas, nada, nunca, será sem sal.

As mães de Tenochtitlán – PANADERIA ROSETTA, Cidade do México

Ensaiava a foto dessa concha – um dos pães mais conhecidos do país – e lembrava de minha primeira vez aqui, na Cidade do México.

Sentada, torta, com o olhar pregado no visor da câmera, tentava firmar o foco no vaso de flores sobre a mesa de um restaurante no Centro Histórico. Não conseguia. Minha cadeira parecia exageradamente bamba e a tarefa, impossível.

Um tilintar crescente, como um trem de cristal correndo sobre os trilhos, começou a desviar minha atenção. A mesa sobre a qual apoiava meu cotovelo também decidira bambear. Fiquei tonta, muito tonta, e despreguei o olhar teimoso do visor. O salão repleto, havia poucos segundos, agora parecia de cidade fantasma. A cena não fazia sentido e eu “ouvia” tudo em câmera lenta: “Señora, hay que salir ahora mismo!!!”.

Reagi ao puxão no braço e não à premência das palavras que ainda rodopiavam na minha cabeça confusa, enquanto as prateleiras em vidro, de piso a teto, pareciam derreter. Finalmente entendi que as garrafas que batiam grogues, umas nas outras, eram o tal do trem que me fizera acordar.

O terremoto de 6,6 na escala Richter, com epicentro em uma cidade vizinha, se fez notar, e muito, na capital.

Não sabia que a terra não tremia. O chão virara uma espécie de pêndulo e eu, uma surfista que tentava se equilibrar naquela prancha, enquanto árvores, edifícios e postes bailavam. Fomos orientados a sair calmamente do restaurante até estacionar sob um vão, dito seguro, do prédio. Ficamos todos ali: cozinheiros, garçons e clientes, com os olhos grudados no teto que rebatia a nossa impotência.

Foram 5 longos minutos que o México me deu, naquele maio de 2014.

Pensava nos habitantes da antiga Tenochtitlán, capital do Império Asteca e na força da cidade que se apresentava a mim. Pensava nas mães segurando os filhos pelas têmporas, oferecendo-lhes aos céus, gesto que garantia, na cultura de então, que os tremores não os levassem consigo.

Espero que acreditem que os dias que se seguiram me fizeram sublimar o medo. Me encantei pela gente e pela cultura, e a Cidade do México virou uma das poucas no Mundo para as quais tinha vontade de voltar. Acontece que, em 2021, os tempos, vírus e prioridades são outros.

Há dois anos, minha filha decidiu cursar o ensino médio nos Estados Unidos. Veio a peste e acabou assistindo às aulas por um ano, online, debaixo da minha asa. Chegou a hora de partir.

Para que eu possa acompanhá-la, a quarentena obrigatória se dá em meia dúzia de países permitidos. Um deles é o México e cá estou, em outra fase, a de um terremoto interno.

Quero que a filha esteja preparada para a vida, mas em tempos de Covid, como assim, vamos nos separar? Me vi como as mães de Tenochtitlán, que temiam que o chão se rachasse, ela lá e eu cá.

Viajei naquela concha.

No período pré-hispânico não existia o trigo, claro. Os pães eram feitos de farinhas de milho ou amaranto socadas com mel. Só nos séculos 17 e 18, com as técnicas de panificação francesas e italianas, o trigo e o açúcar entraram na história e chegamos à profusão atual de ‘pandulces’ mexicanos. Assim como tantos pães pelo Mundo, a “concha”, uma adaptação do brioche francês, reproduz um elemento da Natureza. Eu só enxergava ali um terremoto.

Como quem tenta domar o indomável, engoli aquele tremor com baunilha, fofo como os pães doces da minha infância. Por alguns instantes, a ansiedade e a antecipação da despedida se derreteram e resolvi que tudo acabaria bem.

A verdade é que a vida só precisa de um tanto de açúcar.

A varanda do Rosetta, disputadíssima em tempos de Covid. Durante a semana, o negócio é chegar antes das 8 e, aos fins de semana, antes das 9

A foto que tirei ao fim do terremoto de 2014, com meu telefone. As pessoas ainda confusas, pela rua. Notem que a luminária de 200kg do poste, que deveria estar perpendicular ao prédio, ainda balançava como uma pluma

Fila de espera, no melhor do charme mexicano.

O cardápio tem pães salgados, doces, sanduíches, berlinesas, scones, galettes, panquecas e o diabo, além de um bom café.

PANADERIA ROSETTA

@panaderiarosetta (instagram)