CHILE EN NOGADA – México

– Cheguei à conclusão de que sou a ateia mais apaixonada pela imagem de N.Sra.de Guadalupe, que existe. – Escrevi para a irmã.

– Curioso você falar isso… Joana Mariani, a diretora do documentário “Marias”, comentou certa vez que há 70% de católicos no México, mas 100% de devotos de Nossa Senhora de Guadalupe.

– Bom… não sou mexicana, mas já entrei para a fila.

E por falar em Independência, tudo parecia normal no restaurante – copo de vinho, mesa de madeira, água e tal – até o momento em que fiz meu pedido. De repente, e só para a minha mesa, vem chegando lá de longe um carrinho cheio de salamaleques. Voa uma toalha preta como a capa de um toureiro, acendem uma vela (ao meio-dia) num recipiente de vidro cor-de-rosa esculpido em forma de flor, metem um vaso de porcelana com um gigantesco pompom vermelho num canto e um copinho de tequila bem na minha frente. Por um instante, temi que chegassem mariachis.

Me senti meio ridícula, ali no centro do salão, como quem descobre que foi vendida para um circo, junto com o homem-elefante e a mulher barbada. Todos à volta me olhavam e a culpa era do chile en nogada.

Como pode um prato tão emblemático ter passado despercebido na viagem anterior?

Claro! Estive no país em maio, mas só no fim de agosto começa a colheita das nozes que batizam a receita (en nogada, ahá!), daí estar sendo sugerido por todo canto, dessa vez. O país é um imenso consumidor de nozes – quase um quilo per capita por ano – e o quinto maior produtor mundial. São plantadas principalmente ao Norte, inclusive na cidade de Puebla, de onde vem a versão mais famosa da origem do prato, que é parcialmente verdadeira.

Essa versão afirma que o prato foi inventado em 1821 pelas monjas do Convento de Santa Mônica, em honra a Agostinho I (Agustín de Iturbide), um militar que teve participação fundamental na independência mexicana e a quem foi oferecido um banquete na casa do bispo, em sua visita à cidade.

A receita, na verdade, é de origem barroca, como afirma o Eduardo Joárez, do Instituto Nacional de Antropologia e História de Puebla. Era uma sobremesa que já aparecia em livros de culinária desde o século 18 e foi criada décadas antes da chegada de Agostinho na cidade. É certo, no entanto, que foi oferecida como parte do menu em sua homenagem, quando Iturbide passou pela cidade em direção a Veracruz, onde firmou os tratados onde a Espanha aceitava a Independência do México.

Os mariachis não apareceram, mas meu chile (uma pimenta grande como um pimentão, pouco ardida, da variedade “poblano”) veio recheado com o importante simbolismo da Independência e enfeitado com fitas nas cores da bandeiram espetadas numa de suas extremidades. O que fez a fama das monjas não foi a receita, mas colocar salsa e romã salpicadas sobre o todo, como reforço ao colorido do estandarte. O menu da casa do bispo, aliás, tinha 14 pratos – faça aqui seu sinal da cruz.

E a Santa?

Nossa Senhora de Guadalupe também era padroeira do exército insurgente, daí a história.

Não se sabe ao certo o momento em que alguém adicionou carne moída à receita, fazendo a sobremesa entrar na caixinha de prato principal. Há inúmeras variações do chile en nogada, mas a tradicional, com pimentão, carne moída, frutas secas, leite, queijo, nozes e romãs, tudo junto e misturado é uma alegria só.

Fiquei pensando na sobremesa que virou prato. Faz sentido… No México, sejam santos ou receitas, nada, nunca, será sem sal.

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