O menu de Manu

Em restaurantes, a escada das expectativas é tão longa quanto a descrição de alguns pratos. Já desabei do penhasco muitas vezes, enamorada pela narração detalhada dos ingredientes, só para me espatifar num resultado catastrófico na língua.

Demorei a chegar ao Manu.

Há uns 3 anos, um voo cancelado já tinha me feito perder uma reserva. Desde 2011 no mesmo local, um salão claro, calmo, feito de poucas e generosas mesas redondas me recebeu. Lá estava eu, com um passado de tombos e zero expectativas.

Já na largada, entendi que o jogo era outro.

De casca dura e carne mais firme – exigência de ser brasileira? -, sempre fui devota da ostra nativa (crassostrea brasiliana). Abundante em todo o litoral do país, é desprezada pelos restaurantes em favor de uma espécie exótica grandona, fácil de cultivar, mas menos saborosa. Ali, era a brasiliana e vibrei. De carne meio doce – sabor do mangue – e meio salgada – sabor do mar – tem muita mineralidade regada pelas águas frias de Carabaquara. Vinha com um óleo de coco que arredonda tudo, um toquezinho de maracujá e dedo de moça. Que início!

Em seguida, chega uma vieira marinada com mel ácido e nada doce da abelha nativa mirim-saiki – e viva a teimosia de trabalhar com ingredientes pouco comerciais. Vinha regada de azeite de mexerica, sobre salsa verde de kiwi tostado e beurre blanc com casca de mexerica. Parece muito, mas o resultado foi gostoso e equilibrado.

Mesa de jantar com prato raso contendo uma porção de comida apresentando uma mistura colorida, acompanhada de uma taça de vinho, copos, talheres e um cardápio, em um ambiente moderno.

Gemi alto algumas vezes com o prato de salada e ‘piccalili’, a conserva inglesa precursora dos picles, que viajou para a Polônia e de lá foi parar em Curitiba pelas mãos dos imigrantes. Em geral feita de couve-flor, tem sementes de mostarda e especiarias na preparação, que fazem toda a diferença. A saladinha vinha com verdes e ervas sobre tahine, um caldo bem denso de frango como moldura, numa mistura que gerava uma surpresa a cada colherada. Linda brincadeira. [foto de capa]

A etapa dos pães, que migrou para o meio da refeição, como escrevi há muitos anos, ali vinha com a deliciosa farinha Iraty e biscoitos feitos com dois polvilhos; um deles orgânico, feito por uma família de Morretes.  Para lambuzar, uma manteiga da casa fermentada por 48hs, e a já clássica ‘pomada de porco’, feita com banha, amendoim, coentro de tal, que terminava com um sabor que me lembrou ervilhas.

Escrevi “divino!!!” (assim, tri-exclamado) em minhas notas sobre o prato de perninhas de lula sobre creme de milho com jalapeño e leite fermentado. De uma pseudo-simplicidade, foi uma belíssima surpresa na boca.

Prato gourmet em formato de flor com purê e pedaços de peixe, acompanhado por taças de vinho e uma mesa de mármore.

A acidez da fermentação, aliás, misturada a um quê de especiarias – certamente o lado libanês de Manu – é traço que permeia toda a refeição.

Nota para a harmonização com o rosé Incandescente Les Chemins de Bassac; biodinâmico como a maior parte dos vinhos na carta, feito por brasileiros no Languedoc. Os pratos não são nada fáceis de harmonizar, mas todas as escolhas foram acertadas. Ponto para a sommelière, que infelizmente não anotei o nome.

Na etapa seguinte, reforcei a minha teoria de que não existe prato ruim, e sim prato mal-feito. Lembrei disso porque não gosto de canja, mas a alcachofra chamuscada e macia vinha com uma base de canja densa, feita com a linguiça de Blumenal que emprestou uma picância perfeita e essencial. Por cima, um molho de pimenta de cheiro. O todo me lembrou o resultado na boca de um choux-farci inesquecível que comi. Nada a ver, mas tudo a ver.

Prato gourmet servido em um recipiente arredondado, apresentando uma preparação elaborada sobre um fundo cremoso, com um toque verde em cima.

Seguimos com robalo de Paranaguá com iogurte de abóbora lacto-fermentada com acidez talvez marcante demais para o peixe, sobre salsa de ervilha, feijões verdes e alface-do-mar.

Achei delicioso o alho-poró que vinha com uma espécie de curry verde à base de hortelã, avelã, um contraste certeiro de physallis e molho de vôngole – uma overdose de umami muito bem-vinda.

Prato de sobremesa com uma porção de mousse escura, acompanhada de taças de vinho e utensílios sobre uma mesa de mármore.

A cavaquinha vinha com caju sobre um “arroz não arroz”. Na verdade, uma massa de arroz que depois é cortada em pedacinhos, com textura muito interessante e ótima na boca. De novo, equilibradas especiarias quebradas por nota cítrica. Excelente.

Prato em uma mesa com um fundo elegante, apresentando um molho espesso e um pedaço de alimento claro no centro, rodeado por um borda de cerâmica.

O cordeiro em ponto perfeito vem da região metropolitana de Curitiba, em criação da família de Manu, com molho de amendoim, vinagrete de pinhão pousado na carne e caldo denso do próprio cordeiro. Parecia um gênio da lâmpada atendendo desejos que eu sequer sabia que tinha.

Prato gourmet com dois pedaços de carne, molho escuro, purê claro e guarnição verde, acompanhado por taças de vinho ao fundo.

A cenourinha solitária termina a etapa salgada e vem deitada em berço esplêndido de um molho feito de levain. É acompanhada de farofa, a melhor das criações humanas.

As sobremesas ficam a cargo de Vanessa, confeiteira da casa desde sempre. Foram mousse de coco queimado, gel de morango (que passa por um processo de desidratação com posterior reidratação no suco concentrado e fica bem intenso), com creme de tahine e sorvete de iogurte. Delicioso!

Prato com sobremesa servido em um recipiente rústico, contendo um creme claro coberto com sorvete, farofa e um toque de molho vermelho, acompanhado por taças de vinho e outros utensílios de mesa.

Uma poesia, a sobremesa de banana com sorvete de queijo, tuile de leite e cuscuz de coco fermentado. Afetividade melhorada.

Prato com sobremesa: uma bola de sorvete acompanhada de crocantes em uma tigela azul com textura espiral.

O café do Norte Pioneiro foi a escolha para o fim da refeição, e gostei. Assim como o café do Alto Noroeste do Rio de Janeiro, tem muita qualidade, mas é pouco conhecido no Brasil. Ali, foi da produtora Ariele, de Curiúva.

Manu quebra dois paradigmas importantes: o primeiro, de que fazer cozinha com ingredientes regionais significa abandonar inspirações do mundo. Claro que não, até porque o Brasil é feito de imigrantes. Sua família ítalo-libanesa, que o diga. O segundo, de que é impossível trabalhar com ingredientes nativos, mega sazonais etc, mas ela teima e consegue.

É disso que trata a alta gastronomia e é isso que se espera dela. Insistência, propósito e originalidade (tão rara), sem nunca esquecer o sabor.

Como falei no início, a escada das expectativas pode levar ao abismo.  Ali, felizmente, era “stairway to heaven”.

Restaurante Manu

O melhor do MEU mundo – Cidade do México

Agora o mundo deu pra listas. Até o New York Times, ora vejam, resolveu se inspirar no 50Best e escolheu os 50 lugares nos EUA que o jornal mais gosta, no momento. 

Taí… decidi fazer a minha. 

Não se trata de vaidade ou presunção; são apenas os melhores do MEU mundo. Sim, um mundo torto como qualquer outro, em que a gente tem de trabalhar em vez de ficar à toa, acorda de mau humor, janta com gente chata ou recebe uma lasca de concreto na testa, em animada aceleração a partir de um andaime no 20º andar de um prédio na Cidade do México, bem no momento em que sai do hospital. Pois é, aquele hospital onde o marido foi ajeitar o pé torcido, um dia antes, na calçada do Museu de Antropologia. Talvez por conta de sequências como essa, as pessoas impliquem com agosto. Injustiça… O meu foi bom. 

Meu amigo Paco Torras diz que eu não frequento restaurantes, frequento pessoas. Reagi de início, mas é a pura verdade. 

“Se o Zé estiver no fogão, pede o spaghetti ao vôngole!”

“Pede o bacalhau, mas tem que ser com a pimenta que o Francisco faz.”

“Gosto do boulevardier, mas só se Tatiana estiver no bar”.

Pois é. A vida não é press trip; gostamos de uns pratos, mais que de outros; de uns cantos, mais que dos outros; às vezes do ambiente, mas não dos pratos; às vezes de tudo, e então chega a conta. Pois assim montei minha lista, convicta de que mesmo com 25 anos de escrita gastronômica (sem convites), o meu “melhor” pode não se casar com o vosso…. Acontece. 

Agosto foi marcado por uma quarentena de quinze dias na Cidade do México. Ao contrário da última visita, já não tinha o mesmo apetite para insetos graças à uma indisposição que fez o favor de se estender por quase toda a viagem. Se na outra visita consegui flanar por mercados de rua, comer tacos em barracas e mastigar todas as chicatanas que pude, nessa fiz um circuito menos “raiz”.

Há alguns anos, escrevi sobre os 4 restaurantes mais marcantes da cidade [aqui]. Dos quatro, quis repetir o QUINTONIL (Latam50Best), não por ter sido a melhor refeição da temporada, mas por ter um conjunto, entre ambiente e comida, muito agradável. Infelizmente, na minha volta em agosto, o ambiente já não era o mesmo e achei a reforma muito infeliz. Os pontos altos foram a carta e o serviço, muito bons; aliás, foi a maior proporção de atendentes por mesa que vi. Recomendo fortemente o branco mexicano LA LLAVE 2017, blend de Chenin e Sauvignon Blanc, sempre do Valle de Guadalupe, minha região vinícola favorita no país. Fresco, agradável e com ótima acidez. 

Começando do princípio, busquei pouso em Roma, bairro cheio de joias arquitetônicas e perfeito para riscar a maior parte da minha lista de desejos, a pé. Não menos importante, havia por perto várias opções para a reposição de meus 400 ml de cafeína diários. A preferida pelo atendimento, qualidade do grão e métodos de extração foi a ALMANEGRA, com sua sala pequena e espartana. Gostei especialmente dos grãos da pequena região de Nayarit, no Centro-Oeste do México, da Finca Kalid.

Sempre me prometo dedicar textos individuais a cada restaurante, e lá vou eu rabiscar um troço por ordem de visita, mas a verdade é que o tempo livre nunca me permite cobrir todos eles (afinal não vivo disso) e daí surgiu a vontade de adiantar a lista.

Sobre o ELLY’s, restaurante que cabe em qualquer momento, seja para um drink, um copo de vinho, boa música, comida ou ambiente, já escrevi aqui. Sobre o MÁXIMO BISTROT (Latam50Best), um galpão lindo, com comida bem francesa-manteiguinha, também já escrevi aqui. Além disso, dediquei um post ao CICATRIZ CAFÉ, um bar de vinhos naturais, aqui, no maravilhoso Glupt!, de Luiz Horta.

A PANADERIA ROSETTA também já teve seu post aqui, mas não tinha desenrolado as linhas sobre o seu irmão tão famoso quanto: o RESTAURANTE ROSETTA (Latam50Best). Um lugar lindo, com pé direito altíssimo, moveis leves e claros e muitos cipós, flores, legumes e pássaros pintados pelas paredes. Pelo conjunto, é incontornável. Adorei as entradas, especialmente do prato de tomates verdes com feijão preto, uma espécie de ricota de cabra, berinjela, melaço e um vinagrete muito fresco e também de um mil folhas de cevada, excelente. Dentre os principais, preferi massas aos pratos de peixe. A carta de vinhos é quase toda de orgânicos, biodinâmicos e naturais. Tentei experimentar os mexicanos, como sempre faço, mas acho que a produção de naturais de lá está no mesmo momento da brasileira: há mais erros que acertos, mas sempre vale tentar.

O melhor restaurante, como um todo, foi o LOREA, recomendação do querido Rafa Costa e Silva (e presente agora no guia 50Best Discovery), com carta de bebidas, serviço e comida excelentes. O único senão é a escadaria para entrar, que emenda numa outra imensa, para ir aos banheiros. Fora isso, tudo perfeito, a começar pelos drinks impecáveis, tanto os sérios como o de bourbon e cevada, quanto os animados como o de grapefruit e lavanda. O serviço de vinhos foi o melhor que vi na cidade e a carta tem joias como o Jerez da Ximénez-Spinola (medium) e uma boa seleção de vinhos a copo para a harmonização, embora bastante europeia – senti falta de um rótulo local, numa cozinha tão voltada para os produtos de excelência mexicanos. Dos meus pratos preferidos, posso assegurar que a salada de beterrabas vale a visita. A flor – um cardillo – vem mergulhada no próprio suco de beterraba com creme de erva cidreira e garante a textura maravilhosa. Além dele, a inesquecível tortilla de huitlacoche, o milho enegrecido pelo fungo, uma das iguarias mexicanas incontornáveis. Nas sobremesas, a casca do plátano (primo da banana-da-terra) processada para se tornar comestível, também emprestava muito interesse e vinha com sorvete de iogurte e morango. Foi a sobremesa mais original que comi.

O CONTRAMAR é uma casa de frutos do mar clássica, com a equipe mais (milagrosamente) bilíngue entre os restaurantes visitados. Todos muito eficientes naquele salão e varanda imensos, constantemente cheios. Não é uma casa que busca a inventividade; serve pratos bons e simples (tiraditos, peixes grelhados, sashimis e tal), com ingredientes excelentes. A carta é de vinhos convencionais, corretos. Pausa para uma torta de figos de massa bruta, bem simples, mas viciante, que repetimos. Também faz parte do ranking 50Best Discovery.

Meu estômago buscava abrigo em restaurantes italianos, em dias de crise. Gostei muito de dois, por motivos diferentes. O OSTERIA DEL BECCO por um ambiente que consegue ser elegante, intimista e animado, ao mesmo tempo, com uma adorável área aberta, ao fundo. Não menos importante, uma adega de vinhos convencionais imensa no segundo andar, com vários rótulos que não estão necessariamente na carta, mas podem ser comprados e servidos ali. Há um delicioso vitello tonnato, ótima seleção de peixes crus, boas pizzas, além do serviço de vinhos adorável de Ivan, mas as massas não têm ponto tão religioso e o tiramisú não é o forte da casa. O SARTORIA me encantou pela qualidade dos ingredientes, de cabo a rabo: do pão do couvert, passando pelo azeite e vinagre que o acompanham; peixes frescos; massas feitas com boa farinha (maravilhoso fogie al pesto de menta e amêndoas) e no ponto mais correto que achei na cidade. O capricho vai até os sorvetes de fabricação própria, de sobremesa. O serviço foi muito simpático e atencioso, em todas as visitas, e a carta de vinhos mais eclética e original.

Assim termina a lista, que só pode ser escolhida dentro daquilo que visitei, por 15 dias (injusta, portanto). Muito ficou de fora, de propósito, e outro tanto porque simplesmente não fui. Isso tudo é pra dizer que listas são mesmo uma bobagem (concorde! discorde! seja feliz!), mas o que importa, e muito, é que são o pedido mais frequente dos seguidores deste blog.

Deixo as fotos para o Instagram, onde marco cada uma com a hashtag #crisbeltraociudaddemexico. Lá, também podem ser encontrados cafés, delicatessens e outras paradinhas, de qualidade. “Sem mais, despeço-me” e espero que tenham gostado do passeio sincero, um beijo, tchau.

***

Entre os visitados, meus preferidos por categoria (para quem tem preguiça de ler o texto – fazemos o possível para melhor atendê-los):

COMIDA MEXICANA CONTEMPORÂNEA – Lorea

PARA VOLTAR A TODA HORA – Elly’s 

AMBIENTE – Elly’s, Massimo Bistrot, Osteria del Becco, Rosetta (não soube escolher; são estilos diferentes)

SERVIÇO – Contramar, Quintonil, Osteria del Becco

RESTAURANTE ITALIANO – Sartoria

PEIXES E FRUTOS DO MAR – Contramar

BAR DE VINHOS NATURAIS – Cicatriz

CARTA DE VINHOS – Osteria del Becco, Massimo Bistro, Rosetta (foco em naturais)

CAFÉ DA MANHÃ – Padaria Rosetta

Websites:

quintonil.com

almanegra.cafe

instagram: @panaderiarosetta

ellys.mx.com

maximobistrot.com.mx

cicatrizcafe.com

rosetta.com.mx

lorea.mx

contramar.com.mx

losteriadelbecco.com

sartoria.mx

Como sambar um tango

[Texto feito especialmente para o antigo blog do Luiz Horta, que agora firmou endereço no glupt.com.br]

“Quando as coisas estiverem péssimas, não faça em ritmo de tango; faça em ritmo de samba, que é melhor”. Crescemos com esse mantra familiar, frase preferida de um pai que detestava auto-piedade. Aqui, não se conta desvantagem, não há tragédias, não se valoriza o ruim. Vem a chateação, a gente bate no peito e chuta. Mas… convém não exagerar.

Minha mãe, agora com 85 anos, sempre viajou muitíssimo a trabalho ou lazer, daí o grande abacaxi de ter tido um “AVCzinho”, como diz (sambando).

Há três anos muito limitada e cadeirante, mas com sua habitual vontade de ferro, faz campanha diária por uma viagem ao exterior. Minha irmã, passista de primeira, insistiu que tudo daria certo, claro! Bastava levar duas enfermeiras, a cadeira de rodas, malas extras, remédios, improvisar a fonoaudiologia e fisioterapia obrigatórias, quarto adaptado, além da alimentação especial.

Já que era Natal, rimamos com “o escambau” e juntamos genros, netos, uma sogra, miramos no “exterior” mais próximo e partimos para Buenos Aires. A ideia era ter um hotel que resolvesse metade da aflição e simular férias da sua rotina limitada fazendo tudo igual, só que em espanhol.

Chegamos. Já na recepção, minha mãe diz: ‘que saudade do meu apartamento!’, meus filhos correm para o primeiro cômodo com senha de wi-fi, e as enfermeiras fazem a lista da farmácia. Eu só queria beber.

Se você mora no Instagram, este não é seu post. Lá, ninguém tem piriri, come mal em viagens ou tem mãe nessa situação. Foram 6 dias de reservas e expectativas furadas, num hotel apelidado de “nave-mãe”. Com sorte, escapávamos esporadicamente da órbita, em busca de pequenas alegrias.

Tentei matar saudades da LAB TOSTADORES DE CAFÉ, cafeteria preferida pelo conjunto da obra, mas dei com a cara na porta, fechada para reformas. São eles que torram os grãos de uma outra casa, a FÉLIX FELICIS, em Palermo, dona do melhor flat white de Buenos Aires, dá desconto para quem chega de bicicleta e vende um guanes (tipo de grão) colombiano exclusivo, que provei também no V-60, meu método de extração preferido.

Fugia aqui e ali para garantir suprimentos, nos dias em que a matriarca estava indisposta. Assim descobri o PASTRÓN, pastrami argentino feito com a capa do bife (a ‘tapa de asado’), que fica em salmoura por 30 dias com especiarias e pitada de açúcar e depois é cozido por 6 horas em baixa temperatura, de preferência no forno a lenha. Também provei o excelente REGGIANITO, filhote do parmiggiano reggiano e feito em rodas menores (de 6,8kg), um pouco mais salgado e envelhecido apenas por 6 a 8 meses. Pequenos regalos.

Nada disso funciona sem pães, e alguns dos melhores se acha na SELVAGE, padaria dentro de uma garagem de Palermo. Nas paredes, fotos de Pink Floyd, Kurt Cobain, Foo Fighters e tal. No salão, um entra e sai de gente atrás dos pães de fermentação natural que fizeram a fama da casa, e eu, na fila do pan dulce (panetone) feito com massa madre antiga e passas maceradas no ótimo vermute LA FUERZA, produzido nos Andes. Algo delicioso e original, se tiver sorte de passar pela cidade no Natal.

Outro pequeno prazer foi visitar, no vazio do feriado, o Centro antigo da cidade, acinzentado, silencioso e bonito, de um jeito melancólico. De repente, um oásis: a sorveteria CADORE, única loja aberta. É corredor sóbrio, simples e sem adornos, com seus tambores de metal alinhados, merecido patrimônio cultural da cidade por sua qualidade. Mesmo não sendo fã de doces muito doces, é impossível evitar o sabor icônico feito do mesmo jeito desde 1957. Leite, açúcar e baunilha cozidos por 14 horas fazem a base perfeita do bloco denso de doce de leite gelado. Rimei com uma bola de pistache e fiz uma pequena prece pelo milagre de Natal.

O grupo de onze também foi salvo duas vezes pelo SOTTOVOCE, um italiano gostoso de bairro, nada hipster, que acomoda sem cara feia grupos grandes, onde comi (e repeti) um excelente mellanzane alla parmiggiana.

Não poderíamos passar sem uma ceia, e escolhemos a da nova casa de carnes do Hotel Alvear, com menu em torno do tema – bife ancho, cordeiro, pato – em ponto perfeito. O hotel também acaba de ganhar rooftop simpático, que encontramos fechado duas vezes por conta da chuva, nesses dias de Instagram reverso.

Adorei a CASA CAVIA, linda construção palaciana de 1927, reformada pela KallosTurim, arquitetura e design. Lá dentro, florista, loja de perfumes, livraria de charme e um lindo pátio central, onde faria questão de ficar em dias frescos, mas estava quente como o inferno. A cozinha é despretensiosa (tudo era empanado e bem frito, como minha mãe gosta, fossem molejas, peixes ou polvo) mas é lindo, divertido e funciona naquele todo adorável, com ótimo serviço e carta com ótimas descobertas, como os vinhos da Bodega Chacra.

Minha refeição preferida foi no ELENA, novo restaurante do hotel Four Seasons. A começar pelo serviço da sommelière Dulce Long, o mais elegante da cidade. Comi salada de abóbora assada com suas sementes e queijo halloumi, deliciosa e bem temperada, seguida de umas costeletas de porco com barbecue, de matar. Tudo perfeitamente executado, que é o que interessa, sem firulas e bem apresentado.

Assim sambamos La Cumparsita, buscando felicidade enquanto tudo dava errado. A viagem de volta foi um inferno com subsolo. Havia uma multidão no aeroporto, filas intermináveis, horas e horas numa cadeira de rodas que tinha um problema no assento, e tudo isso regado pelo habitual medo de avião de minha mãe. Em um dado momento, chegou a ficar lívida e perdeu os sentidos de exaustão. Jurei não repetir.

Já em casa, peguei em suas mãos para ter uma conversa em tom grave:

  • “Mamãe, veja que odisseia terrível e sacrificante. Acho que agora temos certeza de que, infelizmente, não dá mais para viajar de avião”.
    Resignada e estafada, diz:
  • ”Sim, minha filha…. Agora, só para Lisboa”.

O castelo da minha infância – Máximo Bistrot, Cidade do México

A fazenda onde eu enchia linguiça e uma janela, em 2018.

No tempo em que eu enchia linguiça, eram dois cubinhos de carne, um de gordura e um tanto de temperos, assim, nessa ordem. Quem mandava eu me ocupar era Dona Laura, nenhum dente na boca. Eu? Fazia aquilo por horas, escorregando as mãos pela tripa sebosa. 

Naquela época, a luz da fazenda ainda era a do gerador. Às vezes, tremelicava. Ficava eu com o dedo parado, sem escorregar nada, esperando firmar. Prendia a respiração. Voltava a luz, eu enchia linguiça. 

Não ligava para a falta de dentes e nem sabia o que era tripa. Não conhecia colesterol, vegano, ensacadeira, abate sem dor. Pegava numa bacia os dois cubinhos de carne, na outra um tanto de gordura, e num prato de florezinhas catava os temperos, assim, nessa ordem. Escorregava compriiiiido as mãos pela tripa sebosa até o nó. 

O mundo lá fora já era chato, e eu nem sabia.

Antes daquilo, já havia o torresmo, o pão frito, a nata frita, o ovo frito. Lá em casa, tudo era frito. Brincou no jardim? Lanchinho. Quer ver desenho animado? Brigadeiro. 

Vivia num castelo feliz, sentada em poltronas macias de gordura, e recostando a cabeça em travesseiros de açúcar. Ali, ninguém jamais comera uma migalha daquele troço chamado culpa. Aliás, minha mãe ainda mora por lá, e não há médico que a arranque de seu trono. 

Não sei bem como aconteceu…

Um dia, me peguei comendo peixes, adorando azeite, coisas cruas e cheias de fibra, passei a me entupir de verduras e legumes, lamber os beiços para pratos veganos e achar que coisas no vapor me olhavam sedutoramente. Mas parte de mim, confesso, ainda vive lá.

Foi justamente esse quarto de alma que pediu uma sopa de cebola cozida em seu soro, gratinada com queijo comté e ‘cruffin’ – um cruzamento de croissant com muffin – num restaurante na Cidade do México: o Máximo Bistrot. 

Minha porção saudosista tratou de convencer o resto de que aquilo tudo não deveria ser tão literalmente gordo. A quem eu queria enganar? Manteiga é uma droga, um vício, um redemoinho que força a passagem do corpo para um outro plano. Meus olhos se esbugalham, a cabeça voa e ouço uma voz: Cristiana, não vá para a luz!… 

Quando os outros três quartos de alma ordenaram a auto-flagelação e a negação do demônio, pedi minha redenção na forma de patas de caranguejo moro, uma das estrelas do Golfo do México, de carne muito saborosa. O garçom confirmou o que eu já sabia: “sí, cangrejo à la mantequilla”. Olhei para meu marido como quem teme o julgamento. Será que ele ouviu “mantequilla”? Naahh!…

A sobremesa foi o ponto alto, com um sorvete de queijo de cabra Chaurand com massa phyllo, um creme de goiaba não muito doce, uns pistaches aqui e ali e uma bela regada de azeite por cima. Maravilhosa. 

Pelo que li, a casa mudou de lugar, no meio da pandemia. Não sei como era o ‘antes’, mas agora se instalou num galpão onde funcionava uma oficina de automóveis, de pé direito altíssimo, árvores, móveis claros e paredes forradas à moda antiga, com cal e nopal (cacto) fermentado.

A proposta da casa, nas palavras do próprio chef, é de uma cozinha franco-mexicana. Eu diria que bem mais francesa que mexicana, para alinhar as expectativas, com um toque de cozinha americana contemporânea. Afinal, o chef morou e trabalhou muitos anos nos EUA. 

Confesso que, a meio caminho do segundo prato, aquele flashback tão “rico” me fez invejar a salada da mesa ao lado. Ainda assim, a experiência foi muito agradável. 

Lembrei de minha mãe dizer que era comum, em sua época, colocarem “uma colherzinha assim de vinho do Porto” na mamadeira, para acalmar as crianças. Não que tenha feito conosco. Olhei para aquele castelo de minha infância, pedi uma dose de tequila e pensei: será que fez? Nahhhhh!

Ambiente do Máximo Bistrô
Dos melhores pães que provei em restaurantes, na Cidade
Um eufemismo chamado sopa de cebola
Patas de caranguejo moro e um “pequeno toque” de manteiga
Delicioso sorvete de queijo de cabra chaurand, creme de goiaba e massa phyllo
A carta de vinhos era excelente, mas naquele dia fui de drinks. Aqui, a tequila Jose Cuervo Reserva de La Familia Extra Añejo, culpa da minha mãe.

www.maximobistrot.com.mx