Vou me embora para a Cornualha – Outlaw’s Fish Kitchen – Port Isaac, Inglaterra

Vista da costa de Port Isaac, na Cornualha, com casas em um penhasco verde e um pequeno cais no mar, sob um céu nublado.

Em abrigos instalados no alto dos penhascos, era esse o brado dos ‘huers’ quando o primeiro cardume de sardinhas do ano era avistado, lá pelo fim de julho. Dali até outubro, eram tensos os dias de silêncio, que determinavam se o estoque de Inverno seria gordo ou magro.

O mesmo grito que preparava homens e mulheres para a ação, também batizou um bolo denso e quebradiço de groselha que existe ainda hoje – o havva cake – que costumava receber os pescadores, como um abraço, depois de um exaustivo dia de pesca.

No trem que me levou até a Cornualha, li sobre os séculos da relação de Port Isaac (e de toda a península) com a sardinha.

Na época dos Tudors, era tão importante para a economia da Inglaterra, que o Estado baixou várias regras para incentivar sua indústria, como dias nacionais de jejum de carne no país ou a proibição da salga do peixe para coibir sua exportação.

Depois de breve estudo dos cardápios da cidade, me sentei no Outlaw’s Fish Kitchen com a pergunta encomendada: “Por onde anda a famosa sardinha, se não vi em lugar algum?”.

O garçom respondeu, meio espantado com a minha ignorância, que talvez tenha visto umas duas vezes nos bons restaurantes da cidade, na sua longa vida de pouco mais de 20 anos.

“Estão associados a grandes barcos de pesca industrial. Aqui não fazemos mais…”.

Somos cupins dos oceanos, pensei.

Quando a sobrepesca e as mudanças climáticas fizeram com que a sardinha rareasse no fim do século XIX, foi a vez do arenque sumir, só que mais rápido, lá pelos anos 40.

Duas mulheres observando o cardápio na entrada do Outlaw's Fish Kitchen, um restaurante de fachada branca com janelas amplas, localizado em Port Isaac.

Nestas décadas, sua importância para o vilarejo foi tão grande que acabou por cunhar um ditado local: “Pago quando os arenques chegarem!”. Até hoje, vê-se as chaminés de defumação, já que o sal para conservar o peixe não era abundante até a conquista normanda, no século XI.

O restaurante fica numa das casas mais antigas de Port Isaac, uma construção do século XV lindinha e de pé direito baixo, bem de frente para o pequeno porto em forma de ferradura, do qual irradiam ruelas sinuosas e estreitas em escalada infinita, como artérias que dão vida aos penhascos.

Vista do porto de Port Isaac na Cornualha, com barcos ancorados e casas brancas ao fundo sob um céu azul.

As águas do Atlântico entram e saem do porto, duas vezes por dia, deixando os barcos tortos como peões que tombam de lado na areia, na maré baixa. À toda volta, as casas branquinhas ou de ardósia olham para o porto como quem espera peixe. É assim nas dezenas de vilas de pescadores pelas quais passei na Cornualha, comunidades costeiras que conectaram a Bretanha com o mundo.

O salão pequenino do Outlaw’s Fish Kitchen, todo branco, de uns parcos 15 lugares, é adorável. O cardápio dizia: “estamos comprometidos com a compra dos melhores peixes e frutos do mar da costa córnica, que aportam aqui diariamente e usam métodos de baixo impacto que preservam e asseguram o futuro do nosso ambiente marinho. Não abrimos mão da qualidade ou da sustentabilidade.”. Um dia verei isso pelo Rio de Janeiro inteiro, pensei. Antes que chegasse a conclusões, pedi um vinho.

Interior do restaurante Outlaw's Fish Kitchen em Port Isaac, com mesas de madeira, cadeiras brancas e decoração náutica nas paredes.

O serviço é eficiente e amigável, características que nunca entendi serem excludentes, por vezes.

A casa tem um prato clássico: um cozido de peixes para a mesa toda, feito de tamboril, polvo e trilha cozidos num caldo de camarão com linguado, ervas e especiarias, acompanhado de uma maionese de anchovas com açafrão. Não tive coragem de me comprometer com uma coisa só, mas a ideia do prato ainda invade meus sonhos. Peçam e me contem.

Ao contrário, começamos anchovas em picles, azeite e limão, de uma simplicidade perfeita, com o pão idem.

Prato de anchovas em conserva com ervas, servido em uma mesa de madeira, com pratos e talheres ao fundo.

Em seguida, as ostras (a mesma variedade do Pacífico que servimos em todo o Brasil), mas ali cultivadas em outras águas. Que bomba de sabor! Com um leve toque de nozes, típico da ostra que cresce ali. Deliciosas!, balofas!, leitosas!, acompanhadas de vinagrete de echalotas.

Prato com ostras servidas em gelo, acompanhadas de fatia de limão e molho de framboesa, com pão ao fundo.

Depois veio o gurnard, peixe que vive no fundo do mar, junto da areia ou das rochas. Ali, com molho ponzu delicado e na medida, valorizando a carne fresquíssima.

Prato com filé de peixe grelhado, ervas e pimenta, servido em um molho escuro, acompanhado de pão de uma mesa de madeira.

Lambi meus dedos ao pegar mais um tanto de pão para mergulhar no molho das vieiras feito de jerez e harissa. Ponha aqui um suspiro…

Fatias de pão integral servidas em uma tigela de cerâmica, acompanhadas de manteiga em um pequeno recipiente, sobre uma mesa de madeira clara.

Prato com vieiras gratinadas servido em cumbucas de concha, com talheres de sobremesa sobre uma mesa de madeira.

Também atacamos um John Dory (não temos aqui, mas é o peixe galo português). De carne branca, mas firme, vinha inteiro sem cabeça, pele e cauda. Bom.

Prato composto por um peixe grelhado com ervas, acompanhado de batatinhas e uma salada com alface e tomate.

A sobremesa é daquelas bobagens afetivas e perfeitas: um manjericão delicado perfumava a pannacota bem pouco doce, com farelo de aveia (nada mais inglês) e morangos de época. Não preciso de mais.

Uma sobremesa em um recipiente branco, com morangos cortados sobre uma camada de farelo de aveia, servida sobre uma mesa de madeira.

Mal terminei a refeição, já queria voltar.

Hevva!

Outlaw’s Fish Kitchen

Três dias em Porto Alegre

Deco, sócio da Komka, a mais tradicional churrascaria de Porto Alegre

KOMKA

A graça que a idade costuma tirar da gente, empresta aos restaurantes antigos. Entrei no Komka, em Porto Alegre, como quem chega na casa de um amigo de toda a vida.

Edesio Komka, o Deco, sujeito alto e simpático, com pais vindos do leste europeu, tem a mais tradicional churrascaria e galeteria da cidade, desde 1967.

No seu bairro, São Geraldo, mais de 4.000 empresas sofreram com as enchentes. Deco perdeu máquinas e outros bens, viu seus funcionários passarem por dificuldades e fez vaquinha para ajudar, mas os horrores da cheia só reforçaram o sentido de “família” de quem frequenta o local, atrás de um bom “xixo”.

xixo de alcatra, salsichão, porco e legumes e picanha no espeto

Me senti abraçada pelo pé direito alto, pelo ladrilho azul que cobria as paredes até a metade, as cristaleiras e aparadores antigos, as pás dos ventiladores girando pelo teto, os galheteiros sobre as mesas, os saleiros de vidro, as travessas de inox. Um alívio num mundo de storytellig.

Me projetei morando ali, indo com a família aos fins de semana, cumprimentando os vizinhos de mesa. Assim faz o casal Flavia Mu e Marcelo Schambeck, do restaurante Capincho, que frequenta o Komka com os filhos, atrás da polenta frita, sequinha – que polvilham com parmesão-, ou das carnes, corações e galetos deliciosos; do amarguíssimo radiche com bacon; ou ainda do incontornável sagu embebido em vinho colonial sobre um flan viciante. É sério, que eu podia pedir 15 daqueles potes. Cada colherada é mais um passo no teletransporte para a infância.

flan, sagu e vinho colonial – uma passagem relâmpago para a infância gaúcha que eu nunca tive
bar do Komka

Talvez eu devesse, agora, fazer uma pausa para explicar que radiche é a nossa chicória; vinho colonial é o de agricultura familiar, da Serra Gaúcha; e “xixo” é o nosso “espeto” de churrascaria, que ali no Komka é gigantesco e pode vir com alcatra, salsichão, porco e legumes.  

Estive em Porto Alegre, este mês. Um destino que nunca considerei “de fim de semana”, com tantas opções, culturais e gastronômicas mais próximas, mas penso sinceramente em voltar e voltar para essa surra de hospitalidade e civilidade que despejo aqui.

detalhes do salão da Komka

Churrascaria Komka


WILLIAM & SONS COFFEE CO.

Ficar no bairro de Moinhos de Vento torna a vida mais fácil.

Dá para acordar e caminhar até o Williams & Sons, para o (meu) tradicional meio litro de café de qualidade no coador V-60, que consigo mais facilmente em casa do que pelo mundo.

Ramon Brisotto

Ali, você pode encontrar o animado barista Ramon Brissotto, um homem grande, acelerado e de colorido viking, que descreve lindamente a curadoria dos produtores de café e explica as últimas técnicas para melhorar a bebida, como gotinhas de minerais que modulam a água, um dos principais componentes da boa xícara. Provei um ótimo café de Haroldo Barcelos, da Fazenda São Lourenço, de Carmo da Parnaíba, primeiro lugar no Concurso dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro e, de quebra, comi o um pão de queijo, a única comida que servem na casa e, felizmente, tão gostoso que inibe qualquer outra vontade.

William & Sons Coffee Co Porto Alegre


CAPINCHO

Todas as dicas que trago aqui vieram de Flavia, Marcelo e Fred, do restaurante Capincho. E o que falar do Capincho?

De cara, existe uma intersecção de almas, de um casal que fundou o Instituto Identidade RS, tão parecido em propósito quanto o meu próprio Instituto Bazzar. O trabalho é manter viva a cultura gaúcha, suas tradições, as receitas de pai para filho, valorizando ingredientes do bioma do Pampa e da Mata Atlântica, que habitam o seu Estado. Com trabalhos em cantinas de escola a palestras, eventos e outros, vão espalhando essa semente tão difícil de germinar, que é a de valorizar o que é nosso.

O restaurante é de um bom gosto ímpar (mãos de Flavia), com ambientes internos e externos, distribuídos por dois andares aquecidos pelos tijolos das paredes, numa casa de 1930.

É indispensável reservar um tempo para morar no bar, que merecia muito mais litragem do que pude dedicar numa noite. Fred Muller, sócio da casa, apresenta uma das coquetelarias mais elegantes em muito, muito tempo. Não tem nada sobrando ali, seja na apresentação ou no sabor, e suas bases – gins, whiskies, sakês, cachaças, vodcas… – bitters e ingredientes, são todos muito bem escolhidos, com a preocupação adicional de usar coisas da região e da estação.  

Como exemplos, o rum da destilaria Alba, em Monte Belo do Sul, que passa por fermentações longas (ao contrário da nossa cachaça) de 30 a 90 dias, com dupla destilação, o que lhe dá profundidade. Ou ainda, o licor Pacomienne, produzido artesanalmente com 40 ervas, sementes e raízes de horto próprio pela Granja Santo Antonio, fundada por irmãos Maristas, que chegaram ao Sul em 1904.

No balcão do Fred, tomei um delicioso Figo Fashion, com Bourbon (uma das minhas bases favoritas), licor de folha de figo, xarope de figo e angostura. Elegantíssimo aos olhos, equilibrado na boca. Sorri ao lembrar que estou a duas horas de avião entre minha vontade de tomar outra dose, agora.

Ainda no balcão, vem Marcelo Schambeck, o chef, com “algo” de Carlos Barbosa (adoro os nomes…). É nessa cidade da Serra Gaúcha que está instalada a Charcutaria Zampa Grigia, que produz o porco moura, nativo, com salames desenvolvidos em parceria com o Capincho.

Num salame comum, a gordura é moída junto com a carne. Ali, a carne é temperada com erva doce e pimenta e depois se acrescenta a gordura do toucinho, que vem em bolinhas cremosas e amanteigadas, prensadas em fatias finíssimas cortadas na hora, como asas de borboleta transparentes que se desfazem na boca. O chef não descarta o mofo branco que envolve a carne, para emprestar aquele gostinho de queijo brie. Produto de uma leveza ímpar. Também no bar, provamos a tradicional copa lombo sulista com sua deliciosa gordura e, por fim, azeitonas gaúchas de Livramento que demoram um ano depois de colhidas para chegar ao ponto, marinadas com laranja, ervas e azeite.

Passando pela vitrine da cozinha, que dá para o salão, vi um balde cheio de macela aguardando o momento de perfumar a marinada de um cordeiro. Fiquei emocionada. A gramínea nativa – que lembra camomila – eu só conhecia pelos sachês perfumados e livros de Monteiro Lobato da infância, já que recheava a boneca Emília. Só podia ser prenúncio de um bom jantar.

Os pratos, servidos à la carte, foram devorados na mesa mais lindinha da casa, num canto junto à janela. Não houve nada “mais ou menos”.

Começamos com um prato vegano com gosto de mar: um tartare feito de pepinos e melões levemente assados, ainda firmes, com óleo de algas cultivadas na Universidade Federal de Santa Catarina – que pesquisa novas fontes de alimento – com pó de tomates. Flores desidratadas da família Bellé polvilhadas por cima, junto com um pouco de gergelim. Adorei.

Em seguida, um caqui fresco – que ali se diz “cáqui” – com coalhada de iogurte, lâminas de caqui chocolate – que é mais firme – com hortelã, manjericão e vinagrete de maracujá para dar contraste, num todo bem picante. A estrela, sem dúvida, é o coquinho de butiá que gosto, mesmo, de coco queimado. Lembrança afetiva do chef que catava os coquinhos caídos das árvores, na infância. Quebrava com pedras e ficava roendo. Eu fiz questão de roer o prato todo.

Gostei muito, e particularmente, da ideia de levar um coração de galinha, comida simples do Sul, para a alta gastronomia. Aliás, os chefs costumam ir a um bar para comer sanduíche de coração com queijo, maionese, cebola e tomate, no fim do turno. No Capincho, vinha salteado, malpassado (nham!) com ervilhas e seu creme ácido como vinagrete, além de um pouco de óleo de salsa. Acompanhando esse todo, um challah na parrilla bem lambuzado com manteiga de alho.

Então, um camarão vermelho argentino na brasa com óleo de pimenta, amendoim e molho de coentro, com tupinambo assado por baixo (tubérculo de outono), dando textura. Por cima, e para a nossa sorte, um trevo roxo e outro, de quatro folhas.

Ainda pegamos lulas, agora no fim da estação, salteadas, com creme de queijo colonial forte e bem curado, com bottarga da tradicional região de Tramandaí. A cidade tem até festa anual da tainha, devorada assada na taquara estendida, com fogo no chão. Para comer junto, um pão tostado com uva e tomate.

O prato de peixe era uma pescada branca, bem suave e fresca, de Santa Catarina. Vinha com batata yacon assada em cubinhos, um quiabo passado na frigideira, com algas – além da salicórnia da UFSC, um alecrim do mar, alga salina potente e crocante. Por fim, shiso com molho de limão e óleo de pimentão.

E não seria o Sul, não houvesse carnes na brasa. A bochecha de porco vinha laqueada com molho à base de demiglace e tomate, sobre purê de mandioquinha branca plantada em Antonio Prado (mais um nome que adoro). Vale dizer que a mandioca amarela não suporta frio. A branca aguenta bem as geadas e tem sabor que mistura coco e salsão. Por cima, folhas de mostarda e vinagrete de pêra pau, a variedade durinha gaúcha.

Estava tudo tão bom que ainda partimos para uma costela do dianteiro assada por 16hs, com manjerona e broto de girassol trazendo um pouco de leveza ao molho potente. Acompanhava uma moranga coração assada (uma variedade de abóbora crioula resgatada pela família Stefanoski, em Cerro Grande), com suas sementes, creme de queijo de ovelha de Santana do Livramento, vinagrete de casca de laranja e folha de aipo. Uma farofa de mandioca acompanhava a costela que foi raspada em lascas que se desfaziam no prato.

costela assada de Angus, por 16hs do dianteiro, laqueada no forno, do Frigorífico Coqueiro, com gado ali do Rio Grande do Sul. Gosta da costela mais alta, não do novilho, com mais nível de gordura entranhada

A gula também deu conta de um prato de 3 queijos de vaca (Madrugueiro, Geada e Origem) e um Santana, de ovelha. Tudo foi regado por mais um drink de whisky turfado com água de flor de laranjeira, vodca, creme de leite e clara de ovo, criado por Fred Muller.

O doce desfecho veio no sorvete de folha de figo infusionada no leite, figo fresco e sua calda, com amendoim tostado.

sorvete de folha de figo

Uma sobremesa bem sazonal (e deliciosa) foi a de abóbora pescoço em sorbet sobre creme de chocolate 70%, de amêndoas amazônicas temperadas pela Magian cacau, ali de POA, com tuille de especiarias.

E ainda, uma sobremesa clássica de merengues que varia conforme a estação. A base é um merengue ácido com vinagre de framboesa, morango, baunilha e raspas de framboesa fresca, com jeito de raspadinha, com quatro suspiros: puro; com calda do morango e baunilha; de cacau com pimenta; e com pó de hibiscos (na estação!) da feira do Rafa do Sítio Capororoca (uma pequena zona rural bem no meio da cidade).

Essa imensa descrição da refeição veio é culpa da pena de abandonar qualquer prato.

Retirem meu excesso de explicação, que existe por necessidade didática. É realmente uma experiência deliciosa e sem afetamento, com muito sabor e isso basta.

E, antes tarde do que nunca, Capincho é o nome que se dá à capivara, no Rio Grande do Sul

Capincho Restaurante


PÂTISSIER – POR MARCELO GONÇALVES

Um lugar que me encantou, absolutamente, foi o Pâtissier. Um bistrô, confeitaria e imenso armazém de coisas lindas, como quadros, móveis, objetos e livros, garimpados ao longo da vida de Marcelo Gonçalves, em ferros-velhos e feiras de antiguidades. Seria ótimo, só “viver” o espaço, não fosse também um clássico da boa mesa de Porto Alegre.

tudo aqui é abraço

Passamos à tarde para um café, uma dose de cachaça e sua confeitaria generosa e afetiva, mas também há pratos salgados, para outros momentos do dia.

o banco feito de embalagens de ovos

Marcelo, sentado num banco – que concebeu, por acaso, a partir das embalagens de 3030 ovos e foi parar numa exposição de arte – conta que achou manuscritos com receitas de sua mãe, que se foi, no ano passado. Do caderninho, provei um naco da divina torta de coco queimado com baba de moça, que só mães e avós sabem fazer.

Também pedimos o mil-folhas de bergamota, de perfume bem intenso. Aliás, peçam tudo de bergamota na cidade. A fruta ali, é outra estória.

torta de coco queimado com baba de moça – impossível dizer “chega”

Pâtissier, por Marcelo Gonçalves


BENJAMIN OSTERIA MODERNA

Por fim, falo do Benjamin Osteria Moderna, um projeto arquitetônico grandioso que surge “assim” meio inesperado, por trás da fachada de um prédio comercial. E não é qualquer prédio. O restaurante é homenagem dos filhos Bruno, Mauro e Fernanda Zaffari ao pai, que batiza a casa: João BENJAMIN Zaffari. O restaurante fica no JBZ, sede do conglomerado gaúcho que comanda supermercados, shoppings, empresas de logística e outros negócios, de uma das famílias mais icônicas da cidade.  

A casa, de pé direito altíssimo, começa com um bar imponente que se desdobra num salão imenso com quadros em preto e branco, cabines em couro, toalha nas mesas e projeto de Sid Bergamin. Um ambiente que chama um jantar mais elegante ou almoço de negócios.

chef Bruno Hoffmann

O chef é o paulista Bruno Hoffmann, que trabalha os clássicos da cozinha italiana, usando ingredientes locais. Gostei particularmente da conserva de berinjela, balsâmico e castanhas (da época, sempre busque o da época), e do cavatelli com semolina, camarões e lagostas com creme de açafrão e limão siciliano. Delicado, redondo e bem feito. A torta cremosa de queijos regionais e compota de laranjas (é tempo de cítricos) também estava muito saborosa.

A carta tem predominância de vinhos clássicos convencionais, especialmente italianos, com um ou outro natural, entre rótulos estrangeiros e estrelas da região. Provamos o tinto da família, o João Benjamin, feito de cabernet sauvignon, merlot e tannat, para rimar com o lugar.

Vale pedir os ótimos queijos regionais com compota de araçá (viva a Mata Atlântica!), incluindo o TUNA, da Queijaria Tempo (“a menor do mundo”, de Mariana Guarienti e Rodrigo Polidoro), que tem apenas 3 vacas Jersey criadas lindas, leves e soltas, em plena zona rural de Porto Alegre.

E assim termino meus 3 dias na cidade.

Se esse post lhe pareceu longo, foi a saudade.

Benjamin Osteria Moderna

Londres, em garfo, faca e copo

Londres é um esculacho: tem muito de tudo, sempre cheio, para todo lado e na sua cara. 

Sejam livros, peças de teatro, shows, museus ou comida, a cidade dá uma surra de cinto no turista, que sai com as dores certeiras de quem nunca mais verá tanta pujança ou variedade. 

Escolher um restaurante na cidade significa abandonar outros tantos e ter a certeza de que, na volta, sempre haverá um infeliz a dizer: “ah! Mas não comeu ‘sei lá onde’? Era o melhor!”.

Danem-se! Fui feliz.

Queria escrever um texto para cada restaurante, como fiz com o BEHIND [aqui], mas esse blog vive o drama de quem trabalha. Com 25 lugares visitados – e mesmo dispensando os que não gostei –, talvez só terminasse o capítulo londrino em dois anos. Decidi, portanto, espremer a lista em um texto só como quem pariu um filho de 4,5kg (aliás, esse foi meu peso, ao nascer – prenúncio de uma vida balofa). 

Nasce a criança, na forma de um guia nada definitivo dos lugares que mais gostei em Londres.

OS DELICIOSAMENTE DESPOJADOS

Começo com o THE SEA, THE SEA, uma peixaria onde comeria todos os dias, feito de umas 7 mesinhas, lá fora, e uns 6 bancos, lá dentro. 

“Explique aos clientes, antes de tudo, que não temos um forno, um microondas, um fogão”, dizia Tiago, um português engraçado e rápido que treinava, aparentemente, três pessoas novas no salão. 

Aquele trecho adorável de Chelsea parecia atrair toda a população da Grã-Bretanha, mas eu cheguei cedo. 

O balcão da peixaria que atende alguns dos melhores restaurantes de Londres, virou imediatamente um dos meus lugares preferidos para comer na cidade. Tudo fresco, simples, com um fio de azeite aqui, um limãozinho, uma erva ali. O pescado chega na loja em até 6 horas, é sustentável, rastreável e, mais importante, de sabor impecável nas criações do chef Leandro Carreira, um português de Leiria.

Simplicidade com qualidade. Não dá para ser mais feliz que isso.

https://theseathesea.net

Em seguida, preciso falar do BRAT, sem dúvida um dos preferidos da viagem, numa das áreas mais vibrantes da gastronomia londrina: Shoreditch.  

Não sabia que o País de Gales tinha sido um dos que mais recebeu refugiados bascos depois da Guerra Civil espanhola, e foi justamente isso que inspirou o chef Tomos Parry. 

BRAT é o termo inglês antigo para ‘linguado’ e, também, significa ‘avental’, em galês. Parecia o termo perfeito para um lugar que usa técnicas de preparo tão bascas, como cozinhar um peixe inteiro sobre carvão.

Naquele antigo bar de pole-dancing, as mesas enfileiradas são separadas por, talvez, 3 dedos de distância, umas das outras. Tampos de madeira sem toalhas, pequenos pratos espetaculares, serviço rápido e ótima seleção a copo, são a fórmula redonda que levou a casa a ganhar uma estrela Michelin e entrar no radar do 50Best Discovery. 

Bebi um delicioso grüner veltliner (ou veltlinski zelene) tcheco, da Ota Ševčík, 2019 e, para não perder o hábito, um savagnin ouillé do Domaine de La Pinte. É incrível, de verdade, a qualidade dos vinhos a copo. 

Amei, especialmente, o pão árabe inflado e recheado de vento, coberto por anchovas e um fio de azeite. Ainda na memória, o caldo que sobrou de um prato de mackerel com pepino grelhado (a cavala portuguesa) que poderia me hidratar pela vida inteira. Morri de amores, também, pela codorna assada com blood pudding, toque de mel, vinho e alecrim. Macia até não poder mais…

https://bratrestaurant.co.uk

Outra incrível descoberta no bairro, foi a fórmula de almoço do LEROY.

Amei a música, o ambiente simples e o serviço incrível, talvez um pouco rápido demais, mas que parece atender bem o público executivo da região. 

Podia morar numa simples salada que, até hoje, não me sai da cabeça. Era só alface-de-cordeiro – comum na Europa, mas não vemos muito no Brasil) – toranja (grapefruit) e um queijo de ovelha de Essex. Tão perfeitamente temperada que (salivo enquanto digito) foi capaz de colocar a casa em outra prateleira da minha despensa mental. Era parte do menu executivo do dia, que tem pouquíssimas opções e pode ser de 2 ou 3 pratos. 

Também pedi um vitello tonnato na torrada de pão feito na casa e, como prato principal, fui de opção vegetariana: pimentão recheado com orzo, abobrinhas e queijo pecorino. Delicioso. Ficou claro porque o chef Simon Shand é conhecido pela simplicidade elegante. Concordo, assino embaixo e carimbo em 3 vias. A sobremesa também foi simples e divina: um naco de loquat (um fruto com algo de pêssego), sorvete de ricota e bolinho de manteiga queimada.

Há quem ache as porções pequenas (aviso), mas para mim foram perfeitas. Tive vontade de voltar no jantar, para o menu harmonizado com vinhos naturais ou convencionais e a excelente seleção de discos de vinil da casa.  

O salão que vi vazio ao meio-dia, estava abarrotado às 13hs, entre executivos e casais, em partes iguais.

https://www.leroyshoreditch.com/ 

Ainda em Shoreditch, revisitei o LYLE’S, sobre quem já escrevi há muitos anos, no antigo blog, aqui. 

https://crisbeltrao.blogspot.com/2015/06/hipster-melhor-quem-hipster-por-ultimo.html

A visita ali ainda vale, por todos os motivos: seja a cozinha, a carta, ou o serviço atencioso.

https://www.lyleslondon.com

Também numa tarde de sol fui ao ELYSTAN STREET. A rua toda vale o passeio, com seus restaurantes lindinhos, além de um belo açougue e loja de vinhos que desembocam em praça adorável. Tive vontade de comer absolutamente todas as entradas. Por isso mesmo, pedi duas: uma sopa de amêndoas que podia entornar em baldes, e a massa com coelho muito bem feita (apesar do ponto inglês de cozimento). O serviço é simpático, mas distraído, do tipo que bate papo e esquece de trazer o pão, que vem depois das entradas, mas o ambiente é claro, agradável, espartano, numa combinação de elegância e informalidade que atrai gente de todas as idades.

https://www.elystanstreet.com

ALMOÇO DE NEGÓCIOS 

Ainda no capítulo “almoço”, fui no WILD HONEY ST. JAMES, que eu escolheria para um momento de trabalho. 

O chef Anthony Demetre, o primeiro a fazer pegar na Inglaterra o termo “bistronomy” adora méis, daí o nome do restaurante que fez sucesso por 12 anos em Mayfair e há alguns anos se mudou para o saguão imponente de um hotel, em St.James. Não sou fã do ambiente, mas a comida é irretocável. 

Comi cavala na brasa com cebolas tropea (a rainha das cebolas calabresas, extremamente doce); vieiras balofas da ilha de Orkney, catadas a mão, com fricassé de ervilhas e favas e sabayon de missô; um coelho de gritar de bom, com feijões crocantes e molho de avelãs, com aquele acompanhamento que eles chamam de “torta” (cottage pie) e eu chamo de “deliciosice”: um purê ultra cremoso de batatas soterrando mais carne de coelho cozida em seu suco, com legumes. Muito, muito bom; e por fim, pedi um incontornável english custard (torta de natas) com passas, pignoli e manteiga salgada. 

https://www.sofitelstjames.com/en/wildhoneystjames.html

ÓTIMAS COMIDA, CARTA E SERVIÇO DE VINHOS

Um serviço impecável com comida excelente, experimentei no HIDE, que recebe seus clientes com uma escada Escheriana e um salão generoso – repleto de asiáticos – com janelas com vista para a agitada Picadilly e o Green Park.  

Provei um ótimo siri mole (soft shell crab) e fiquei impressionada com a salada roubada do marido, divinamente temperada. Dentre os principais, um porco parecia reunir tudo que amo no universo: mostarda de frutas, amendoim, uma morcela bem temperada e até um nabo que tinha lugar no céu, limpando o palato entre uma dentada e outra. Tudo no ponto perfeito de cocção, acidez e doçura. Fiz um flight de vinhos do Porto, outro de queijos e ainda um de cafés, porque não estava ali para brincar.

A Hedonism Wines é parceira do restaurante e, não à toa a carta é ótima, mas as outras bebidas não ficam atrás. Londres não tem muita oferta de cafés coados, em restaurantes. Quando falo café, pense sempre num espresso. 

https://hide.co.uk

Para quem gosta de um salão menor, intimista e elegantíssimo, com serviço clássico, pompa e circunstância na medida, o CORE BY CLARE SMYTH é incontornável. O serviço de vinhos foi, disparado, o melhor que vi e merece, por todos os motivos, suas 3 estrelas Michelin e a presença no 50 Best. Queria um Barolo, não muito caro, e o sommelier acertou, em cheio, com o Corini-Pallaretta Le Strette 2016, pronto para beber. Apesar da pouca idade, ficou na memória.  

As duas entradas estavam ímpares: uma era um foie gras em geleia de vinho Madeira e a outra, um pato confit defumado em seu caldo profundo e delicado, acompanhado dos cogumelos morilles e chaga, fungo que não conhecia e adorei. Não estaria na Inglaterra se não pedisse um cordeiro de Herdwick. Eram costeleta e barriga em seu próprio caldo, com bacon de cordeiro crocante, coalhada de ovelha, ervas “vindas das montanhas por onde passeia o cordeiro”, além de ervilhas e menta. 

Fiquei particularmente impressionada com as sobremesas: um parfait de limonada feito de tangerina e limão siciliano, com iogurte de ovelha e sorbet de limão. Por cima de tudo, uma telha de mel Rhug, orgânico, do País de Gales, que fez toda a diferença. Excelente. Também linda foi uma sobremesa inspirada num doce “afetivo” chamado Eton Mess – uma espécie de pavlova de morangos estrambelhada – que ali vinha sofisticadíssima, com morangos selvagens da época, delicados discos de merengue e toque de verbena. 

www.corebyclaresmyth.com

GASTROPUB

Para não dizer que não falei dos pubs, fui ao HARWOOD ARMS, que já habitava minha lista de desejos, há 15 anos. A anacrônica cabeça de um veado pregada na parede e o lustre coberto com plumas de avestruz, com certeza assustam a nova geração, mas só reforçam a idade do restaurante (2009) e os valores ingleses, um país devorador de carne e com grande amor pela caça. 

Pausei para comentar comigo mesma: “nada mais típico que abrir com pães feitos com centeio e Guiness”. Muito bons. O cardápio é curto e acho um alívio. Ponto altíssimo para o muntjac – como um cervo de sabor muito delicado e absurdamente macio – com  cogumelos enoki, um purêzinho de um tubérculo que esqueci de investigar e molho da carne, com vinho. Espetacular. Só esse prato justificaria, para mim, a estrela Michelin da casa. Bebi cerveja, claro. 

harwoodarms.com

QUANDO A FOME É DE UM CLÁSSICO

Era um domingo azul de Verão, como deveriam ser todos os domingos londrinos, e pareceu boa ideia passar o dia em Turnham Green, antiga vila medieval que fica em Chiswick, nos arredores da cidade. 

Caminhamos por coisas lindas: o gramado do parque, a igreja de 1843, a rua principal com bares, livrarias, floriculturas e tal, até chegar ao LA TROMPETTE, um clássico de bairro há 23 anos, com gente de todas as idades e trajes.

O sommelier só precisou de meia dúzia de palavras sobre meu gosto para me ler como ninguém e trazer o melhor vinho branco inglês da viagem, pinçado da carta que tinha tudo: um chardonnay de Essex, cheio de casca de cítricos, mineral como nenhum (ostras!!!), toque de maçã, melão, camomila e nota oxidativa adorável. 

Tudo que comi foi perfeito e, como diz o guia Michelin que deu uma estrela à casa, sem adornos desnecessários. 

Hábito de muitos anos, decidi comer duas entradas: um vitelo tonnato com aspargos da estação, feijões e pecorino envelhecido e um tortellini recheado com vieiras de Orkney e caranguejo, em bisque com manjericão e gengibre; tudo para caber a sobremesa, um torta de morangos com baunilha, pimenta kampot e pistache.

Casa deliciosa, serviço impecável.

https://www.latrompette.co.uk

Também para um momento clássico, já na capital, vá com alegria ao LOCANDA LOCATELLI, elegante, mas acolhedor no serviço. Voltei para uma salada de favas, rúcula e pecorino e um talharim com verduras e bottarga. De sobremesa, uma pannacota de coco, abacaxi, pêssego e sorbet de morango. Um bom restaurante italiano é sempre um abraço no estômago, antes de seguir viagem. Ótima carta.

https://www.locandalocatelli.com

CAFÉ & CHÁ

Ter um Royal Warrant não é pouca coisa. Melhor mesmo anunciar no letreiro, na correspondência, na propaganda e no site a honra de ser um comerciante de confiança da família real.

É assim com a H.R.HIGGINS, loja londrina de cafés e chás, fundada em 1942 e considerada “ponta firme”pela Rainha Elizabeth II, desde 1979.

A loja do térreo é uma graça e ainda tem no porão um pequeno salão com bebidas bem tiradas. 

Luiz Horta , o dono da dica, conta que frequentava o lugar no fim dos anos 90 e os Higgins já faziam torra mais clara e selecionavam grãos de qualidade, muito antes da “terceira onda” de cafés especiais.

Recomendo o delicioso Silver Needles White Fujian chinês.

https://www.hrhiggins.co.uk

WINE BARS

Está cada vez mais difícil fugir de restaurantes de rede, que em geral não são a minha escolha, mas quando a rede e a do FRENCHIE, vale muitíssimo a pena, inclusive pela qualidade dos vinhos em taça. Já que está lá, peça vinhos ingleses como o Sov’ran, de Kent, feito com a uva ortega, que tem um nariz entre sauvignon blanc e muscat. Leve, delicado, bom para abrir a refeição. Ou, quem sabe, um Albariño laranja de pequeníssima produção (1.000 garrafas) do País de Gales. Ótimas escolhas do sommelier Charlie – que parece ter 12 anos -, um rapaz inglês do Norte do país.

Curiosamente, foi ali que provei o melhor ponto de massa da cidade, um delicioso papardelle de cordeiro bem temperado, com um bom vinho base engrossando o caldo. 

Uma entrada de beterraba branca parecia ter um gosto bem perfumado, de rosas. Aliás, às vezes, beterraba branca parece querer ter nascido pêra. Vinha com sorrel, prima da azedinha, também aromática e picante na boca, com toque de harissa.

Na sobremesa, fui de bannoffee, aquela gordice despretensiosa e nada chique, que me fez querer voltar com olhos de dependente química. Era feita de um creme etéreo, uns suspiros, outro creme de banana gelado, um biscoitinho bom de cereais …  Engoli com um Tokaji.

frenchiecoventgarden.com

Voltaria sempre ao NOBLE ROT, tanto pelo ambiente quanto pelas infindáveis opções a copo. Lá, podemos tomar um Cédric Bouchard Roses de Jeanne Les Ursules, como se nada fosse. A cozinha ali é despretensiosa e correta, mas a grande estrela são indubitavelmente os vinhos. A comida tem um quê de maionese onipresente, mas havia uma boa vitela e um rabanete maravilhoso, com caviar. Mas boa, mesmo, foi a companhia do Danilo Nakamura. Um upgrade no que já era ótimo.

https://noblerot.co.uk

BAR 

E por falar em Danilo, fundamental a dica de ir ao BAR TERMINI para drinks pré-almoço. Ali, ninguém fala que Negroni ou Bloody Mary são datados. Ao contrário, são os carros-chefe da casa e altamente recomendados. 

A casa, que esteve no World’s 50Best Bars por 3 anos seguidos, também serve ótimos cafés e confeitaria.

https://bar-termini-soho.com

MERCADO DE RUA

“Uma rua que funciona 365 dias no ano”. Assim é o slogan do BROADWAY MARKET, em Hackney, uma das melhores descobertas gastronômicas de Londres.

Com 120 barraquinhas cadastradas, ali se acha de tudo (de bom e barato), aos sábados: queijos, vinhos, ostras, pães ou doces. Em 1883, já era importante mercado de vegetais, frutas, flores, ovos, estanho, tecido e outros, transportados para a capital até o início do século XIX, através dos canais, tributários do Tâmisa.

Com o advento das rodovias e, em seguida, a Segunda Guerra, o mercado perdeu sua importância, mas voltou com tudo, desde 2004, e é muito animado, especialmente no Verão.

Ruas com nomes como “das Ovelhas” ou “dos Cordeiros” dão a pista de sua importância na venda de alimentos para a capital, no passado.

broadwaymarket.co.uk

QUEIJARIA

Não poderia fechar esse texto sem dizer que voltei ao LA FROMAGERIE e foi amor à décima quinta vista, já que recomendo a casa desde o século passado (meu primeiro texto foi em 2009 – aqui).

Lembro do melhor momento da primeira visita, quando perguntei ao mestre queijeiro qual era o seu queijo preferido. A resposta: “queijos são como sapatos: alguns se ajustam à gente, outros não”.

E é assim, com qualquer dica desse blog. 

https://lafromagerie.co.uk

Aproveitem Londres!

Behind, Londres

“Aqui na Inglaterra, não crescemos comendo bons peixes”, comentava Andy. 

Fish & chips (peixe empanado com batata frita) é prato que se encontra em qualquer canto da Grã-Bretanha, mas surgiu sem pretensão de estar associado à qualidade. Nasceu há mais de 160 anos, como comida popular, barata e prática de uma classe trabalhadora cercada pelo Atlântico Norte.

A frase aqui do início foi do chef Andy Benon, a estrela mais rápida do Oeste. Explico: Andy conseguiu merecer sua primeira estrela Michelin com apenas 20 dias de funcionamento do BEHIND, seu balcão de peixes e frutos do mar, em Hackney. E imagino exatamente como aconteceu… 

Andy Beynon e o melhor espumante inglês que já bebi

Entendi que o jogo ali era outro no momento em que dei o primeiro gole em um caldo de camarão límpido e perfeito – de outro planeta – que abria o menu degustação. Tomei de olhinhos fechados, alternando dentadas no pão de erva-doce e na deliciosa tartelette de ervilhas, quando chega o chef com um espumante inglês nas mãos. 

você pode achar amuse bouche um detalhe, mas voltaria mil vezes por esse caldo de camarões

Mas preciso começar do início. 

Hackney, uma das áreas mais pobres de Londres nos anos 80, passou por um processo de gentrificação e animadas mudanças até ser eleito agora, em 2023, como o bairro mais “cool” da capital. “Badaladices” à parte, é ali que fica o BEHIND, o balcão de 18 lugares de onde se pode avistar a cozinha com distância suficiente para não defumar os cabelos e a roupa, funcionando em apenas dois turnos: um no almoço e um no jantar.

Posso dizer sem medo que foi uma das melhores refeições do ano, e já estamos na segunda metade do jogo. Ao contrário da cansada fórmula de soterrar peixes e frutos do mar com uma quantidade absurda de manteiga (gordura vende), o restaurante valoriza os elementos, a acidez e o sabor puro das coisas. Em vez de usar mais sal na comida, por exemplo, prefere achar ingredientes naturalmente mais salinos, como algas. 

O espumante que abriu os trabalhos foi o melhor dos 6 que provei no país. Era o Langham Corallian Classic Cuvée, sem tanto açúcar residual como seus pares e perfeito para acompanhar o cardápio, já que tem boa nota cítrica e as uvas plantadas perto do mar e emprestam muita salinidade ao vinho. 

Falando em sabores puros, impressionante a ideia de combinar a untuosidade das vieiras de Orkney com a acidez dos morangos da estação. Dois elementos e um resultado equilibradíssimo.

vieiras de Orkney, o arquipélago escocês, com morangos da estação

Poderia falar de vários pratos, mas destaco:

1) a truta curada com método japonês (himono) e cozida em salicornia, pesto concentrado de abobrinha e um brioche de limão com amêndoas, de gritar;

2) o divino monkfish da Cornualha com 3 pimentas (verdes, em salmoura, pimenta rosa e do reino fresca) e molho caprichado no colágeno (combinou perfeitamente com um St.Aubin);

3) um ótimo drink do meio do caminho feito de ruibarbo, maçã e espuma de maçãs granny smith, sem nenhuma adição de açúcar;

o drink de ruibarbo e o prato de queijos

4) a INESQUECÍVEL mousse de chocolate branco com pistache, cerejas frescas e hortelã por cima, sorbet de cereja amarga e gergelim. 

Tudo equilibrado, de cabo a rabo, num menu criativo de tamanho palatável.

Andy Beynon pode até não ter crescido com bons peixes, mas todos os peixes que provei cresceram, e muito, com Andy Beynon. Espero que a próxima estrela chegue… e rápido.

BEHIND: https://www.behindrestaurant.co.uk/

strike

Cinco Dias no Valle de Guadalupe

O FAUNA

O salão do Fauna, antes do jantar. Ambiente ímpar.

“Rancho” não é termo que circule tanto, pelo Brasil. 

Tentando entender o que esperar, vinham umas referências de filme americano. Talvez umas imensas costeletas com molho de churrasco; uma cozinha carnívora, certamente. Minha imaginação não alcançava um lugar tão perto do mar, muito menos com uma vinícola dentro e, ainda por cima, no México.

Assim, sem a menor pista, chegava ao FAUNA, um restaurante que fica dentro do hotel/vinícola BRUMA, no Valle de Guadalupe. 

Falar de vinhos é fundamental para entender o vale, responsável por 90% da produção do país. E falar da região é fundamental para entender Lulu Ojeda, a “ultra-cool” e competente enóloga da BRUMA. 

Lulu Ojeda

Lulu é bicho da terra, mas passou dez anos em Bordeaux como parte da equipe de Henri Lurton – isso não é pouca bobagem.

Ali, tudo a anima: as três gotas de água que caem por ano que permitem esperar o ponto de maturidade das uvas sem ter que lidar com o estresse das chuvas, como via na Europa; a acidez natural que dá elegância e sutileza aos vinhos, o clima agradável e não “tropicaloso”, como diz, que empresta frescor e a nota de jalapeño ao seu sauvignon blanc, que aliás, parece ter achado um lar na Baja California.

A moça quer que seus vinhos rimem com o mar, portanto 70% de sua produção é de brancos e rosados, com pouca ou nenhum uso da madeira (graças a Deus) o que faz muito mais sentido numa vinícola que é parte de um conceito “farm to table”. 

Provei bons espumantes, um viognier cheio de personalidade, com aromas florais e de manga; um excelente cabernet franc (menos vegetal, mais frutado) de baixíssima produção justamente porque busca frescor, menos álcool e mais acidez; um interessante Petit Syrah, esse varietal meio sem dono que Lulu chama de elo entre as duas “Californias” (a Baja e a outra) e quer chamar de seu. Ali, sem tanta extração das cascas, dá origem a um produto aveludado e elegante. 

E o que você acha que é o traço mais marcante do terroir?, perguntei. “Todo mundo só fala do solo e do clima. Eu gosto de falar das pessoas”. 

David Hussong (chef do Fauna) e Maribel Aldaco (chef de confeitaria), o casal adorável que nos guiou pelo Valle de Guadalupe

E assim se entende tudo. Se existe uma verdade naquele canto mágico do país, é que as pessoas são o mais importante, sem pieguice. São elas que fazem a diferença na agilidade dos caminhos que segue, o que fez com que a Bruma deixasse de ser consumida apenas no complexo hotel/restaurante e conquistasse um lugar de excelência nas boas cartas do país.

E segui meus dias com pessoas que davam o tempero, faziam a festa, mudavam o clima. Não esperava a HOSPITALIDADE (assim mesmo, em bold e maiúsculas) dos empresários, chefs e enólogos do Valle, em grupos organizados por David Hussong, sócio e chef do Fauna. 

Nunca vi um clima tão grande de família, em que um indica o outro. Tem sempre uma tia, um primo que tem uma loja, cozinha ou faz vinho. Não há rivalidade. São amigos que se encontram entre abraços e cachorros, conversas compridas, cigarros, tequila, música e mezcal. E o Fauna era a nave-mãe, de onde o grupo partia em incursões aos restaurantes e vinícolas da região, como nuvens migratórias de pássaros animados. 

No deserto há pouco teto, pouca parede. Afinal, se não chove… para quê?

Há inúmeros ambientes do hotel BRUMA feitos de sofás, chaises, mesas e cadeiras à sombra de árvores. É assim no Wine Garden, um dos restaurantes do hotel: uma imensa tripa de mesas ao ar livre, diante dos vinhedos e atrás de uma horta. Enquanto o Fauna tem uma cozinha regional e mais autoral, o filhote Wine Garden é programa perfeito desde o brunch até o jantar, com uma cozinha mais internacional, feita com ingredientes e vinhos dali, engolidos diante das videiras.

Conheci vários momentos do Fauna: uma manhã, em que tivemos a aula com o oceanólogo Ezequiel Hugo Zúñiga que nos impressionou com a variedade dos frutos do Pacífico; uma noite, com jantar a quatro mãos de David Hussong e Pia León; e, por fim, um almoço em torno do mar. 

Durante o dia, a luz é linda. Um sol manso e dourado, que parece encomendado por um cinegrafista, ilumina cactos, oliveiras, rochas, a horta, ressalta o amarelo das flores de rúcula selvagem e o roxo dos arbustos de lavanda. 

Xales, botas, chapéus: o código não escrito do Valle de Guadalupe

O almoço é palco para mesas imensas de famílias e amigos, assim como do vai e vem dos chapéus, botas e xales, o código não escrito de quem passeia pelos restaurantes do Valle do Guadalupe. À noite já se vê mais casais, mesas menores e uma iluminação intimista. Tudo estupidamente bonito. 

À mesa, aguachile de abalone (molusco) com sementes; ostras com água de tomate; um peixe lindo (rocote) ao forno, impecável!, abatido com a técnica ikejime e servido com maionese de chiles; pepinos e cebola assada; amêijoa-chocolata (aprendi a amar) com chimichurri de ervas da horta; divinas vieiras puxadas em manteiga caramelizada com berinjela em tinta de lulas e um polvo com tomates assados e torresmo de vaca.

Comida de rancho pode ser comida do mar

No jantar com Pia León, a chef convidada, a parte de David foram codornas, mollejas, carnes que rimavam com meu rancho imaginário, em preparações simplesmente perfeitas, vindas de fornos encapsulados em imensos casulos de barro, maiores que eu. E preciso, ainda, fazer uma pausa dramática para as sobremesas de Maribel Aldaco, sua mulher: poesias como o mashua negro (um tubérculo de gosto suave, delicioso) com manga e cabuya, uma suculenta mexicana, ou ainda uma de mel com cristais de caramelo salgado, sorvete de leite e purê de milho azul, entre outras tantas, inesquecíveis.

salivação obrigatória ao postar: mollejas
mashua negro, manga e cabuya
O Fauna visto do jardim, no jantar

Enfim, minhas definições de rancho foram atualizadas e, dificilmente serão superadas.

Abaixo, as visitas aos demais restaurantes da região. Se voltasse, faria tudo igualzinho, sem tirar nem pôr.

ANIMALÓN

Em geral, o restaurante “acontece” debaixo de um carvalho de 200 anos, mas na estação das chuvas se muda para uma área coberta cercada de videiras, cachorros e simpatia.

Me senti em casa na companhia do chef Javier Plascencia – que tem fama e restaurantes por toda parte – de sua linda filha Lauren e do marido Oscar, o chef executivo da casa.

ostras com carne assada, um troço sensacional

“Preparamos algo norteño e casual para o frio”. Por trás da introdução despretensiosa, muita técnica, equilíbrio impecável e ingredientes surpresa. Jamais casaria ostras com carne assada, mas tenho absoluta certeza, agora, que são um “match made in heaven”,

carnitas de porco e churrasco de cordeiro marinado em cerveja

Algumas lembranças ainda cutucam as saudades do estômago, como o delicioso bao de mole negro doce com frango com picles de cebola e coentro nativo. Podia comer uns 5. Ou quem sabe o maravilhoso aguachile à moda da Baja Califórnia (camarões, vieiras, polvo, abacate) ou ainda o delicado atum bluefin com lâminas de pera, pepino e morango verde com molho de azedinha. Muito bom.

Na categoria simples e maravilhosa havia salada verde com rabanetes, molho de ervas e torradinhas, que levaram o toque fenomenal de uvas defumados a frio. Como se não bastasse, fumegantes carnitas de porco, churrasco de cordeiro marinado em cerveja e 3 salsas para brincar de todo jeito com legumes variados.

Em torno de tudo, as incontornáveis tortillas de farinha, típicas da região, e outras de milho, como manda a tradução mexicana e, por fim, a sobremesa preferida foi um bolo de milho assado com blueberries, sorvete de creme fraiche e creme inglês de milho assado.

no norte do país, as tortillas são de farinha

Aqui e ali, Lauren recomenda vinhos locais, como um bom sauvignon blanc de Tecate e o ótimo Tempranillo biodinâmico Ananda da Santos Brujos.

O serviço? Impecável. E ainda termina com um mezcal provocante e delicioso chamado “la última y nos vamos”. Sei…

Seguramente, se voltar na Primavera e me mudar pra debaixo daquela árvore, não saio mais.

VILLA TORÉL

Um pedacinho do paraíso chamado Villa Torél, restaurante debruçado sobre os vinhedos da Bodegas de Santo Tomás, a primeira vinícola da Baja California, fundada em 1888.

A cozinha é sorridente e acolhedora como o chef Alfredo Villa Nueva e sua mulher, Denise. Ali, produtos da horta, do rancho ou dos pescadores vêm frescos, em preparações sem invencionices e lindamente apresentadas, para a minha alegria.

Provamos vinhos muito corretos (de novo, achei acho que a sauvignon blanc é muito feliz no México) e gostei especialmente do Barbera, com fruta direta e felizinha, que acompanhou um pato em seu próprio suco, como há muito não comia.

Destaco alguns dos meus momentos preferidos:

* Mexilhões em escabeche, salsa macha (de diversos chiles) e a nota crocante e aromática da formiga chicatana. Na mesma foto, escabeche de ovas de cavala e amêijoa generosa (o molusco gigante do outro post, absolutamente obrigatório).

* Um impecável atum bluefin que vinha com ruibarbo, – toque genial para emprestar acidez – e emulsão de gergelim.


* A simples cenoura com caldo do pato e manteiga caramelizada, que roubou meu coração.

* Delicioso arroz de coelho (como adoro coelho!) e vegetais, com gostinho de grelha.

* O pato em seu suco e folhas de azeda, que veio com o barbera.


* Enquanto todos se deliciavam com a torta de chocolate com caramelo salgado (ótima), podia comer um balde da delicada massa phyllo crocante com creme de jocoque, mel e pistaches.

Assim como aconteceu no Animalón, o restaurante se mudou para o interior por conta das chuvas, mas em geral, acontece do lado de fora. Faça chuva ou sol, o Villa Torel é incontornável. Quem nega um abraço?

LUNARIO RESTAURANTE

Fernando Perez Castros (sócio La Lomita e Finca la Carrodilla) e a adorável Valentina Monasterio,
um retrato do espírito alegre de todo o grupo)

Aberto dois meses antes da pandemia, o restaurante passou pelo confinamento vendendo tamales, que não pagavam sequer a conta de luz, mas cuidavam da cabeça da equipe que começou cheia de energia e ao menos tinha o que fazer. Assim nos contou Fernando Perez Castros, o sócio, anfitrião de vinhos e refeição memoráveis em seu Lunario, último projeto da propriedade La Lomita,no Valle de Guadalupe.

A propriedade comprada pelos pais há 20 anos virou vinícola – a primeira ali com certificação orgânica da região – e em seguida restaurante, onde reina a pequena e poderosa Sheyla Alvarado, um sorriso ambulante que me encantou com a elegância minimalista na montagem de pratos e sua excelente cozinha.

De novo, em benefício de um post mais curto, escolho alguns.

o adorável menu na parede / acima de nós, uma linda claraboia

A região é a maior fornecedora de frutos do mar para o resto do México e Sheila aproveita muito bem o que tem. Houve camarões deliciosos como amuse-bouche, ostras que ali vinham com molho de tutano e queijo de ovelha e ainda jocoque (primo da coalhada) com tomates e mexilhões. Achei delicadíssimo o crudo de callo (molusco de casca comprida, mais firme que a vieira) com melão, uma poesia.

divino crudo de callo

Outro ponto alto foi o simples e elegante tamal (pamonha) de plátano e recado negro (uma mistura de especiarias e ervas socadas com chiles quase carbonizadas) e ainda o cabrito tenro com beterraba e laranja. Por fim, “já que estavam tão doces”, disse a chef, deliciosas ervilhas emprestaram originalidade, textura e sabor ao creme morangos. Genial.

pamonha de plátano e recado negro

Sigo impressionada com a qualidade dos vinhos mexicanos. Um salto imenso nos últimos 20 anos.

Bebemos tanto os Lomita como os Finca la Carrodilla, a vinícola irmã, dos mesmos sócios. Meus preferidos de uma e de outra foram o garnacha da La Lomita e o ótimo cab sauvignon 2018 da Finca La Carrodilla. Aliás, os rótulos dos Lomita são todos lindíssimos, com ilustrações do artista Jorge Tellaeche, que também se espalham por murais na propriedade.

os lindos rótulos da La Lomita

O restaurante fica nos jardins do vinhedo, diante da cozinha e embaixo de uma linda claraboia da qual pude avistar a lua. Enfim, mais uma surpresa nesse Valle adorável, feito de gente, comida e vinhos que fazem querer voltar.

CASA DE PIEDRA

sala de degustação da Casa de Piedra

No início, as pessoas dali sabiam o que faziam médicos ou engenheiros, mas um enólogo?

Depois de buscar sua formação no exterior, foi difícil para Hugo d’Acosta achar trabalho na Baja California, região que tinha só umas 7 vinícolas em 1997, paisagem bem diferente das 130 de hoje.

O sonho romântico de fazer vinhos próprios já existia, mas a aventura começou quando compraram uma casa grande demais e veio a ideia: “por que não construir a vinícola aqui, na casa em que moramos?”. Era curioso, às vezes divertido, conta a filha Daniela d’Acosta, morar num lugar em que quartos eram divididos por barricas, com a cozinha atrás dos tanques de fermentação.

E assim, num projeto em família, nasceu a Casa de Piedra, pioneira nos vinhos de alta qualidade do México.

Em degustação conduzida por Dani, provamos alternadamente os vinhos de seu pai e do irmão, Lucas, que há 6 anos dirige a Aborigen, uma vinícola-laboratório de investigação da região e suas possibilidades.

a didática, adorável e competente Dani d’Acosta

Enquanto a Casa de Piedra tem 8 rótulos, feitos com uvas plantadas e colhidas por eles, a Aborigen tem 76, e pode trabalhar com uvas de terceiros, abraçando estilos (e rótulos) menos tradicionais, de baixa intervenção.

Sinceramente, fiquei espantada com a qualidade média dos produtos, tanto dos convencionais quanto dos de baixa intervenção, que vieram absolutamente sem defeitos. Me parece que a Baja está encontrando sua personalidade.

O novo, convivendo em harmonia com os rótulos clássicos da casa

Provei várias coisas mas gostei especialmente do EP + bb Espuma de Piedra, espumante feito com chardonnay, chenin blanc e sauvignon Blanc. Delicioso. Na sequência, também achei muito leve e divertido o pet nat produzido em Querétaro, um chenin blanc com moscatel. O Vino de Piedra branco 2021 também foi ótimo e fresco, um chardonnay sem barrica, com notas de abacaxi, super fresco e mineral com uma nota oxidativa e uma “gordura”. Os três têm um nariz marcado de levedura.

Esse foi o primeiro grande vinho do México, que provei há anos atrás.
Segue uma referência de qualidade, até hoje

Provamos o tinto Vino de Piedra 2019 e também o excelente Casa de Piedra tinto 2014, o melhor dos tintos, para mim, com muita fruta madura e bela nota vegetal.

Se estiver pela região, é programa que não pode faltar.

Os sites:

Bruma (Hotel e Vinícola), Fauna e Wine Garden

Animalón

Villa Torél

Lunario

Casa de Piedra

Para mais fotos do local e pratos da viagem, veja os destaques do meu instagram, aqui.

Angá Ateliê Culinário

Achava linda, a pitanga, fruto que prometia tanta coisa com aquele vermelho sedutor e seus gomos arredondados que lembravam os de uma balinha, decerto cheia de açúcar. 

Promessas, promessas… 

A admiração platônica rendeu até minha mãe me enfiar uma delas, goela adentro. Encrespei o rosto e me tremi toda com o queixo empurrado para trás e olhinhos fechados, como quem quer dar marcha-ré no gosto estacionado na boca. 

Ecaaa! Que troço mais ácido!.

Foram três anos em Petrópolis, dos meus 9 aos 11 de idade, com almoços animados para 20 ou 30 pessoas, organizados pela minha mãe, mensalmente. Eram tardes de cantoria com meu pai no violão, seu inseparável negroni, sanduíches de pepino e muito papo em torno da piscina.

Ainda salivo com a lembrança da primeira dentada bem dada num bife à Wellington, que engolia com a maionese de batatas, o bacalhau com azeite e um tanto de porco bem gordo que vinha com 50 versões de farofa que precediam a goiabada cascão derretida com sorvete de queijo minas da Leiteria Brasil e um manjar de coco com ameixas. Todos parte de um cardápio para convidados que pouco variava (e pouco ligávamos). 

Foi uma infância balofa, em que tudo era frito: pão frito, queijo frito, banana frita, ovo frito; o lanchinho da tarde era brigadeiro. Sabe-se lá como sobrevivi. 

A casa, e a rotina dos almoços, nos acompanhou por muito tempo até sua venda, há uns 15 anos. Passei bom tempo evitando a Serra, por conta das saudades, mas tudo voltou à cabeça e com muita força, na tarde de ontem. 

Lydia Gonzalez se formou em Gastronomia, viveu 3 anos na Europa, estagiou em 12 restaurantes e trabalhou em alguns estrelados antes de se dedicar à cozinha brasileira, sua paixão. 

Minha chegada em seu Angá Ateliê Culinário, em Nogueira, veio com o cheiro de terra molhada, mato e hortênsias, como no jardim de casa. 

Conheci a chef num evento recente, em que eu e ela tentávamos aprender um tanto sobre os meles de abelhas nativas brasileiras. Suas perguntas e comentários me fizeram reconhecer alguém que, como eu, estuda e se apaixona por causas várias que cercam o que a gente come, e brotou bem ali a vontade de conhecer seu restaurante. 

Sorte a minha.

Já no couvert, me deparei com um patê de aves, como aquele que não podia faltar nos sábados da minha infância. Ao seu lado, o quê? Uma chimia de pitanga, palavra derivada do alemão “schmier” (passar algo em outra coisa), que muito fala da cultura deixada pelos imigrantes de Petrópolis. 

Ao provar a compota, não fiz careta, nem nada. A mistura fez um contraste perfeito com o cremosíssimo Morro Azul, um queijo de vaca com mofo branco, que espalhei em cima do polvilho feito com grãos dos diversos pães da casa.

Então, Lydia nos traz um pratinho com jiló fatiado e explica que era uma das comidas preferidas de seu pai, que já não está entre nós. Vinha com banana passa – até hoje, um dos doces favoritos de minha mãe – numa combinação inusitada e viciante. Pensei com carinho nos nossos pais faltantes e comidas que não podiam lhes faltar. Bastou para aquele jiló ter gosto de colo. 

berinjela defumada com iogurte de amendoim, farofinha com cacau cabruca da Bahia
atum com queijo fresco de vaca e bolinho de arroz anã

Houve uma delicadíssima berinjela defumada com iogurte de amendoim, ao lado da farofinha grossa com pedaços de cacau cabruca, que emprestou causa e sabor ao prato. Depois um atum com queijo fresco e bolinho de arroz anã, variedade cultivada às margens do Rio Paraíba do Sul, que ainda margeia boa parte da minha vida. E ainda testemunhei a ótima ideia que foi regar com mate e limão um lombo de porco com abóbora. Por fim, a poesia que foi uma sobremesa de “verdes” (pepino, maçã verde, uvas e melão) com sorvete de queijo Boursin.

Lydia, porco com abóbora e molho de mate com limão e couve, o mato preferido de minha mãe

Um casal na mesa ao lado disse aos amigos, ao chegar: “Falei para eles que esse é o melhor restaurante da Serra!”, mas Lydia respondeu, prontamente: “Me diga depois do almoço porque o pior inimigo de um cozinheiro é a expectativa e o melhor amigo é a fome”. 

Bem, aqui estou eu, contrariando a chef e elevando expectativas, mas saí dali leve e feliz, com vontade de bater no liquidificador um tanto da minha infância com aquele almoço, só para dar um considerável upgrade gastronômico nas minhas memórias. 

Assim me senti: voltando para casa, sem nunca ter estado lá.

Encomende um dia de sol e vá. 

Contato do Angá Ateliê Culinário, aqui

para mais fotos e pratos, veja o destaque no meu intagram, aqui

sobremesa de verdes e sorvete de queijo de cabra
da carta de vinhos predominantemente locais, de baixa intervenção e pequenos produtores, um ótimo riesling renano da Cão Perdigueiro, do Rio Grande do Sul

A parcela dos anjos e a outra, dos nem tanto

Sou péssima fisionomista, terrível com nomes, mas jamais me esqueço do que comi ou bebi. Não falo isso com qualquer orgulho. Não serve para muita coisa, além de evitar que gaste um bom dinheiro em algo que não presta ou de ganhar mais peso (ainda) com comida ruim. Trocava por habilidades sociais mais úteis.

Era 2014 e estava num almoço de trabalho no Ferreira Café, um restaurante de comida portuguesa em Montreal, quando provei um espetacular Coche 2010, de Dirk Niepoort. Um bom vinho tem sempre a virtude de me calar (anotem, pode ser útil). Acho que é o momento em que minha cabeça desmemoriada se ocupa de achar a gavetinha de “informações a guardar, para sempre” e decide desligar as demais funções do meu corpo.

O primeiro gole abriu outro compartimento mental e lembrou de uma taça do Niepoort Navazos 2009 que bebi num menu degustação no extinto Oud Sluis, na Holanda, e decidi que um sujeito capaz de fazer ‘isso e aquilo’ merecia, sem dúvida, uma pesquisa mais profunda.  

Desde Montreal, portanto, me encarreguei de conhecer absolutamente todos os rótulos da Niepoort que consegui encontrar, baratos ou caros. Talvez por isso, quando finalmente recebi Dirk e seu filho Daniel no meu restaurante, em 2018, eu exibisse um sorrisinho daqueles de terapeuta, como quem conhece os segredos do paciente. Foi um almoço adorável, feito dos belos vinhos levados por eles e, até por isso, de grandes silêncios de minha parte.

Edgar Alendouro, ótimo leitor de sedes alheias

Apesar da proximidade etílica com Dirk, fui parar na Cave Niepoort a convite de Nina, sua mulher, produtora de chás e personagem do último post, com quem estivera um dia antes. A ideia era ver as gavetas de secagem de seus oolong orgânicos e as pipas usadas de Porto que perfumam seu Pipachá, encerrando com chave de ouro a visita à plantação, no dia anterior.

“Edgar está pronto para lhe receber”, disse Nina.

Quando o portão se abriu, Marcela Lebl nos esperava diante de dois imensos tanques de aço com um astronauta e um foguete pintados, obra de João Noutel, um artista do Porto. E assim começou o tour às Caves Niepoort da Serpa Pinto, em Vila Nova de Gaia.

Enoturismo é um departamento novo na empresa; os armazéns e as velhas caves do século XIX só foram abertas à visitação no fim de 2021.

Mais que um passeio, é uma viagem no tempo que começa com aquele empilhado de barricas gigantes de todas as épocas sobre o chão de terra batida e desemboca no antigo escritório/laboratório da vinícola, lindo e congelado no tempo, com suas amostras, pipetas, notas e fotos da família pelas paredes.

No fundo, um grande salão cinza une o passado, no armazém com pé direito alto, paredes úmidas e janelas escuras e o presente, feito das prateleiras elegantemente iluminadas de um bar, sala de degustações e loja. Em vários nichos e estantes distribuídas pelo espaço, vinhos próprios ou de parceiros como a Equipo Navazos, além daqueles que importa com exclusividade da França, Alemanha ou Itália.

O bar/loja/sala de degustação

Cheio de ótimas intenções, lá estava Edgar Alendouro, antigo sommelier-fundador do Euskalduna (considerado como um dos melhores restaurantes do Porto), com passagem também pelo Mugaritz, que agora se encarrega das visitas técnicas, do clube de vinhos, da loja, dos chás e dos eventos privados da Niepoort.

– Que estilo de vinhos você gosta?, perguntou.

Falei “assim”o básico:

– De Portugal, vinhos de regiões mais frias ou Madeira… de resto: Borgonha, Piemonte, Jura, Jerez, sei lá…

– A vantagem desse espaço – disse Edgar – é que cada degustação pode ser única e adaptável ao gosto do cliente.

E é verdade. Afinal, a Niepoort tem de tudo, tanto de estilos quanto de regiões: faz coisas no Minho, Vinhos Verdes, Douro, Dão, Bairrada, Alentejo (sem mencionar os vinhos que produz fora de Portugal).

Ótimo leitor de desejos, Edgar começa a abrir coisas perfeitas. Poderia falar de várias delas (provamos dez), mas destaco algumas:

  1. Vinhas Velhas Bairrada (Bical e Maria Gomes) 2018 – com nota oxidativa, é fresco, mineral, salino, com boa acidez e o solo de argila calcária mostrando ao que veio. As vinhas são velhas, de 80/90 anos e o vinho envelhece em foudres (de 1.000 litros) usadas por mais de 30 anos, do Mosel. Vinha os foudres, que equilibram a madeira num mundo que, infelizmente, ainda parece viciado nela!
  2. O Ururabo (significa “flor”em Bantu), um vinho feito em botas antigas de Jerez. Produzido pela primeira vez em 2019, no Douro, é 100% gouveio (casta subestimada que funcionou perfeitamente bem para esse estilo de vinho). Vinificado com um branco normal, com a vantagem de ter desenvolvido a “flor” emprestada pela ‘bota’ (tonel de 500 litros) cedida por um amigo espanhol. Doze lindos meses com ela. Um vinho com muita fruta (viva a gouveio!) e complexidade.
  3. Já tinha provado várias safras do Conciso (tinto), mas a 2019 foi uma das preferidas, com sua fruta vermelha fresca e nota floral. Feito predominantemente de baga e jaén é um glouglou de pura alegria. Ainda jovem, mas com futuro promissor.
A bateria do dia e marido ao fundo

Quando pensei que não era possível melhorar algo ótimo, foi.

Não se sabe ao certo o que levou o avô de Dirk a comprar os imensos garrafões esverdeados, de 8 a 11 litros, de uso farmacêutico. A hipótese mais provável foi a alta do preço do vidro, à época, daí ninguém ter pensado na evolução do vinho, e sim na economia: o jeito era engarrafar o maior volume de vinho no menor número de garrafas.

O lindo Demijhon do Porto que bebi

Nascia ali um estilo, inaugurado pela vinícola: os Garrafeira do Porto [que já existiam na Madeira, em vidros de 20 a 25 litros].

Os Garrafeira começam como um Porto estilo ruby (passando de 4 a 6 anos em pipas) e, ao final do estágio em madeira, são envasados na ‘demijohn’, o tal garrafão. Para a minha sorte e por incrível generosidade de Dirk, bebi um Garrafeira 1977 (feito em 1972) que abrira com amigos no dia anterior. Sim, um vinho de 50 anos no meu copo.

Garrafeiras são muito raros e caros (os da Niepoort, mais ainda) até porque só recentemente foram regulamentados. Para quem tem o Ruby como referência, garanto que esse é “outro bicho”; também frutado no aroma, mas bem mais aberto e mais fresco que os outros estilos, com ótimo equilíbrio entre fruta e dulçor. O gole daquele 77 veio cheio de damascos e figos secos. Um privilégio.

E não parou por aí.

Um dos cantos da adega

Descendo mais um nível, conheci um espaço ímpar reservado para os “N Collectors”, um clube de 872 membros admitidos por convite, que tem acesso a vinhos raros que podem ser degustados ali. O número é uma alusão ao ano de fundação da empresa e naquela seção da cave histórica, que abriga também uma linda coleção de abridores de garrafas da família, foi montada uma cozinha com equipamentos modernos (a turma do Mugaritz já cozinhou ali) para dar apoio às degustações conduzidas por Edgar.

De repente, um barulho de chaves pesadas e abre-se um portão: “Podem passar”. Era uma espetacular cave/museu com garrafas da família, incluindo uma das cinco demijohns Lalique, lindíssimas, representando cada uma das gerações da família Niepoort. Espiei um nicho cheio de garrafinhas gordinhas de um Colheita 1900, outro com uma de Porto 1869, todas cobertas de pó e umidade, intocadas, com direito à “angel’s share” – as marcas negras da evaporação do álcool das barricas ao longo dos anos – no teto abobadado.

Quando já estava ali naquele “céu”, Edgar apanha uma pipeta e me oferece a amostra de um barril. Era um porto branco 1968, que acabara de ser lançado, definitivamente o copo mais espetacular que bebi no ano, um nariz sóbrio, elegante, com nota cítrica na boca e adoráveis amêndoas e frutos secos de fazer chorar.

Morri? Não. Estou aqui para contar. Em que gaveta mental guardar todos esses vinhos? Num gavetão, meu caixão.

Para quem não teve a experiência que tive no dia anterior – os chás Camélia também podem ser degustados neste espaço num Wine & Tea Tasting.

Os vários modelos de visitas podem ser agendados [aqui].

E mais fotos e vídeos da Cave, no meu Instagram, [aqui]. Boa viagem!

Dirk Niepoort no Bazzar, em 2018

A esquina de casa – Parcelles, Paris

A cada viagem que faço, procuro o “restaurante da esquina” ideal; uma espécie de gênio da lâmpada do meu estômago, que merecia morar sempre perto de casa. 

Tombe a fome para saladas ou gordices, a ‘esquina’ está sempre lá, perfeita. Não tem rococós, pinguinhos calculados, esculturas comestíveis ou utensílios caríssimos; só qualidade. Ali, o serviço é eficiente e quase invisível, elucidativo sem ser afetado e, nem preciso dizer, a sala de estar da minha alegria orbita em torno do vinho. 

O ponto já era ímã desde os tempos do Taxi Jaune, restaurante fundado em 1934 onde artistas e outras figuras de importância iam atrás da famosa carne de cavalo. Em lugares afetivos como esse, saudades não são facilmente substituíveis, mas não havia ninguém melhor do que Sarah Michielsen, com seus 20 anos de experiência (dirigiu o Gusto, também o Le Temps au Temps e conseguiu uma estrela Michelin no seu antigo Itinéraires) para comprar o antigo restaurante e ainda fazer o público voltar com força, fazendo do Parcelles um dos bistrôs mais queridos do momento, uma unanimidade em guias de todas as cores.

A passagem do ponto se deu no auge da pandemia (um bom momento para se livrar das amarras de uma cozinha estrelada). O movimento incluiu também a abertura de uma adega-épicerie do outro lado da rua, com patês, terrines, rillettes, além de um sotaque espanhol nos jamóns, morcillas e chorizos para levar, junto com uma ótima seleção de vinhos predominantemente orgânicos, biodinâmicos e naturais. 

Aquela apreensão que me acomete a cada novo restaurante, passou na primeira espiada na prateleira ao lado: tinha um Selosse, um Cappellano, um Échezaux do Dujac, um Hermitage do Jean-Louis Chave… Pas mal. Apesar das garrafas-estrela, a carta de Bastien Fidelin tem vinhos para todos os bolsos, com a equipe preparada para conversas sobre harmonização ou estilos que combinam com cada cliente. 

A comida de Julien Chevallier é a que chamam de “bourgeoise” (cozinha-conforto-caseira-de-classe-média) com apresentação descomplicada, mas que ali vem com segredos que fazem toda a diferença: um vinagrete de tozazu, aqui, um nabo japonês hinona kabu, ali. E os preços não assustam, para os padrões franceses: entradas e sobremesas em torno de 13 euros e principais em torno de 25, com a adição, todos os dias, de um prato vegetariano . 

Fui de beterrabas com folhas de vinagreira, sabayon de estragão e meu adorado queijo de ovelha dos Pirineus: o tomme de brebis. Segui com um abraço na forma de repolho cozido recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (invejei vieiras e mollejas vizinhas). Terminei com torta de figos de Solliès, que estavam na época, montados sobre uma base de mascarpone que me fez sentar no colo da avó francesa que nunca tive. 

Não sei bem o que faz do restaurante um cenário agradável, talvez a rua histórica e calma, talvez a luz bonita que entra pelas janelas. Quem sabe a fórmula tenha sido não mexer no time que já estava ganhando no restaurante anterior: lindo balcão de zinco art-déco com um neon retrô acima do bar e, ainda, as paredes de pedra e mosaicos no chão do prédio do século XVIII. 

Não bastasse tudo isso, tive ótima companhia (o melhor tempero que há). Sugeri o almoço certa que ia surpreender um casal de amigos que tudo conhece (Álvaro Loureiro e Pedro Figueiredo). 

Foi surpresa? Não. Quem sabe, sabe…

www.parcelles-paris.fr/

le menu

Arbois. Por quoi pas?

Uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

uma boa sugestão do sommelier: um vinho feito de Mondeuse na Savóia, para rimar com toda a bagunça da mesa

salada de beterrabas com vinagreira, sabayon de estragão e queijo tomme de brebis

mollejas com sálvia do vizinho

repolho recheado com porco de Clavisy, foie gras, pistaches e caldo de carne (bomba calórica – leve, de verdade – fantasiada de saudável)

torta de figos de Solliès com mascarpone

a prateleira da inveja

Pra quem sabe cair do cavalo – Cavalariça, Comporta

Quando pequena, fiz aula de equitação. Tempos curiosos, aqueles…

Meus pais, orgulhosos, ganhavam elogios ao mostrar a foto da filha lindinha, toda fantasiada com calças de culote, capacete, bota, luva, paletó e chicote de couro. Eu, ganhava os tombos. 

Mabrouk era espetacular e nosso amor foi lindo, enquanto durou. Gostava de alisar sua crina e dos dentões que arreganhava enquanto mordia os torrões de açúcar em minhas mãos. Me sentia invencível naquele trote flutuante ao dar voltas pelo picadeiro enquanto fazia os exercícios de ritmo, respiração e solidez sobre a sela. 

Tudo parecia perfeito, até que o infeliz latido de um cachorro ou a buzina inesperada de um carro faziam o bicho lembrar que era um cavalo de salto e se esquecer de mim. Mabrouk relinchava, sacudindo a cabeça, desviava da rota, partia para o meio do campo num galope enlouquecido e wooooooshhhh, saltava um obstáculo. 

Nas 15 vezes em que algo o assustou, eu caí. Meu orgulho se limitava a tentar despencar um pouco mais adiante, depois do terceiro ou quarto salto, mas não tinha muito jeito. Foi curta a minha carreira no hipismo. Ao menos, acabou antes que Mabrouk me matasse. 

Mesmo coberta de hematomas, não contava nada em casa. Foi tudo bem na aula? Foi.

Vocês podem me achar esquisitinha, mas no dia em que resolveram trocar meu cavalo, parei com o treino. 

Para evitar lembranças masoquistas, evitei cavalariças desde meus 11 anos de idade, até que encontrei as de Comporta. 

O site do hotel em que ficamos trazia algumas comparações para “situar” os clientes: Comporta é como “os Hamptons dos anos 70, St.Barth dos anos 80, José Ignacio dos anos 2000”. Sinceramente, achei a cidade bem mais pé no chão, com mais qualidade e menos afetada que todos os lugares citados. Talvez José Ignacio seja o espírito mais parecido em tamanho, proposta e público. 

Já tinha lido sobre o restaurante situado nas antigas cavalariças da cidade e, se havia algum desejo gastronômico em mim, era o de conhecer aquele lugar. 

O espaço era lindo, claro, com pé direito alto e janelas de madeira colorida. Nos vãos generosos das antigas baias pintadas de branco ficavam as mesas maiores.

Dizem que famoso por lá é o prato de frango, mas como estava entre amigas loucas por vegetais, fizemos um belo desvio nessa direção.

Não sei dizer o que estava melhor: o pão magnífico (tão bom quanto a manteiga curada e o azeite que o acompanhavam); as croquetas de ombro de porco com maionese de mexilhões e semente de mostarda; a abobrinha orgânica sobre queijo de soro de leite com manjericão; a couve flor assada na frigideira com couve sauté e vinagrete de alho-poró; o divino roll de legumes em folha de repolho e hoisin de amêndoas; o tempurá de couve com cebola e hummus de feijão branco ou a cenoura defumada com creme de amêndoas assadas e laranjas sanguíneas. Tudo excelente.

Então, a nota triste:

Ninguém vai lhe avisar, no momento da reserva, que à noite não circulam mais táxis em Comporta (eram quase 23hs quando terminamos o jantar e ficamos três mulheres ligando para a única cooperativa de taxis da cidade, sem nenhum apoio da casa, do lado de fora). Para evitar aborrecimentos, recomendo fortemente arranjar de antemão o transporte da volta. 

Eu devia ter previsto que, numa cavalariça, a história só podia terminar com um tombo. Doeu, como doíam os da infância, mas continuo esquisitinha… e volto.

http://www.cavalarica.com

Sede no Brooklyn – LaLou, Prospect Heights, NY

Esse post tem uns 6 meses de atraso, assim como tantos outros entalados na ponta dos dedos numa espécie de artrose literária. Culpa da peste.

Passei alguns meses em Manhattan, no ano passado, por motivos diversos. Num surto de otimismo inabalável que durou uns cinco minutos e meio, tive certeza de que a tudo voltaria ao normal e rechearia este blog com inúmeras recomendações, mas não foi bem assim… 

Viagens ainda não eram permitidas, a Covid andava pelas esquinas e o mundo caminhava de máscara. 

Apesar da vida, essa teimosa, continuar acontecendo apesar do medo, recomendar restaurantes no exterior me pareceu um troço besta e anacrônico, a despeito de ter conhecido alguns que gostaria de revisitar em tempos menos dramáticos.

Ainda assim, foi falando de viagens e restaurantes fora do Brasil que esse quadrado nasceu há mais de 20 anos (antes bazzarfood.blogspot, depois crisbeltrao.blogspot) e sempre me alegra receber comentários animados dos leitores com dicas que dei. Além do mais, já que o câmbio, aquele mal-amado, não dá chance ao acaso, leio uma penca de jornais, revistas e a opinião de gente respeitada só para garantir uma refeição decente sem penhorar um rim. Se você teve a sorte de viajar, estamos aqui para ajudar.

O que anda me encantando? 

Refeições simples, ambientes nada pomposos e provar várias coisas pequenas acompanhadas de um bom copo de vinho. Pois tinha tudo isso no LaLou, no Brooklyn. 

O lugar é feito de uma tripa de mesas – gostosa e barulhenta – que fica diante de um bar que emenda na cozinha e termina num jardim coberto, ao fundo, para quem quer mais paz e distância entre as mesas. Naquele ambiente espartano, confesso que não esperava aqueles vinhos ou aqueles pratos.

Fui investigar. A casa é de Joe Campanale, sommelier respeitadíssimo que teve passagem pelo Babbo, é autor de “Vino, The Essential Guide to Real Italian Wine” e, ainda por cima, decidiu fazer vinho na Campania. Nada mal. Apesar de tanto pedigree, a equipe consigue explicar lindamente a carta que tem grande foco em Itália, França, Áustria e outros cantos adoráveis, sem muito blá blá blá. A foto foi do Ganevat pra contar vantagem, mas passeei por outros copos caros ou baratos com a mesma entusiasmo. Belo trabalho.

A alegria não pára nos vinhos, mas não espere exatamente um cardápio. Há meia dúzia de pequenos pratos com ingredientes excelentes, a começar pelo couvert. Vibrei com os pães e, também, com a enguia defumada com feijões brancos e caldo feito da carcaça do peixe. Mas incontornável, mesmo, foi o nada fotogênico repolho chamuscado com pasta de damascos, Jerez e um delicado molho de queijo azul Stilton. Tive vontade de pedir uma dúzia. 

Recomendo em noite despretensiosa povoada por desejos etílicos depois de uma visita ao Brooklyn Museum (são 16 minutos a pé). 

Saúde! (e saúde!)

laloubrooklyn.com