Quando pequena, fiz aula de equitação. Tempos curiosos, aqueles…
Meus pais, orgulhosos, ganhavam elogios ao mostrar a foto da filha lindinha, toda fantasiada com calças de culote, capacete, bota, luva, paletó e chicote de couro. Eu, ganhava os tombos.
Mabrouk era espetacular e nosso amor foi lindo, enquanto durou. Gostava de alisar sua crina e dos dentões que arreganhava enquanto mordia os torrões de açúcar em minhas mãos. Me sentia invencível naquele trote flutuante ao dar voltas pelo picadeiro enquanto fazia os exercícios de ritmo, respiração e solidez sobre a sela.
Tudo parecia perfeito, até que o infeliz latido de um cachorro ou a buzina inesperada de um carro faziam o bicho lembrar que era um cavalo de salto e se esquecer de mim. Mabrouk relinchava, sacudindo a cabeça, desviava da rota, partia para o meio do campo num galope enlouquecido e wooooooshhhh, saltava um obstáculo.
Nas 15 vezes em que algo o assustou, eu caí. Meu orgulho se limitava a tentar despencar um pouco mais adiante, depois do terceiro ou quarto salto, mas não tinha muito jeito. Foi curta a minha carreira no hipismo. Ao menos, acabou antes que Mabrouk me matasse.
Mesmo coberta de hematomas, não contava nada em casa. Foi tudo bem na aula? Foi.
Vocês podem me achar esquisitinha, mas no dia em que resolveram trocar meu cavalo, parei com o treino.
Para evitar lembranças masoquistas, evitei cavalariças desde meus 11 anos de idade, até que encontrei as de Comporta.
O site do hotel em que ficamos trazia algumas comparações para “situar” os clientes: Comporta é como “os Hamptons dos anos 70, St.Barth dos anos 80, José Ignacio dos anos 2000”. Sinceramente, achei a cidade bem mais pé no chão, com mais qualidade e menos afetada que todos os lugares citados. Talvez José Ignacio seja o espírito mais parecido em tamanho, proposta e público.
Já tinha lido sobre o restaurante situado nas antigas cavalariças da cidade e, se havia algum desejo gastronômico em mim, era o de conhecer aquele lugar.
O espaço era lindo, claro, com pé direito alto e janelas de madeira colorida. Nos vãos generosos das antigas baias pintadas de branco ficavam as mesas maiores.
Dizem que famoso por lá é o prato de frango, mas como estava entre amigas loucas por vegetais, fizemos um belo desvio nessa direção.
Não sei dizer o que estava melhor: o pão magnífico (tão bom quanto a manteiga curada e o azeite que o acompanhavam); as croquetas de ombro de porco com maionese de mexilhões e semente de mostarda; a abobrinha orgânica sobre queijo de soro de leite com manjericão; a couve flor assada na frigideira com couve sauté e vinagrete de alho-poró; o divino roll de legumes em folha de repolho e hoisin de amêndoas; o tempurá de couve com cebola e hummus de feijão branco ou a cenoura defumada com creme de amêndoas assadas e laranjas sanguíneas. Tudo excelente.
Então, a nota triste:
Ninguém vai lhe avisar, no momento da reserva, que à noite não circulam mais táxis em Comporta (eram quase 23hs quando terminamos o jantar e ficamos três mulheres ligando para a única cooperativa de taxis da cidade, sem nenhum apoio da casa, do lado de fora). Para evitar aborrecimentos, recomendo fortemente arranjar de antemão o transporte da volta.
Eu devia ter previsto que, numa cavalariça, a história só podia terminar com um tombo. Doeu, como doíam os da infância, mas continuo esquisitinha… e volto.
Esse post tem uns 6 meses de atraso, assim como tantos outros entalados na ponta dos dedos numa espécie de artrose literária. Culpa da peste.
Passei alguns meses em Manhattan, no ano passado, por motivos diversos. Num surto de otimismo inabalável que durou uns cinco minutos e meio, tive certeza de que a tudo voltaria ao normal e rechearia este blog com inúmeras recomendações, mas não foi bem assim…
Viagens ainda não eram permitidas, a Covid andava pelas esquinas e o mundo caminhava de máscara.
Apesar da vida, essa teimosa, continuar acontecendo apesar do medo, recomendar restaurantes no exterior me pareceu um troço besta e anacrônico, a despeito de ter conhecido alguns que gostaria de revisitar em tempos menos dramáticos.
Ainda assim, foi falando de viagens e restaurantes fora do Brasil que esse quadrado nasceu há mais de 20 anos (antes bazzarfood.blogspot, depois crisbeltrao.blogspot) e sempre me alegra receber comentários animados dos leitores com dicas que dei. Além do mais, já que o câmbio, aquele mal-amado, não dá chance ao acaso, leio uma penca de jornais, revistas e a opinião de gente respeitada só para garantir uma refeição decente sem penhorar um rim. Se você teve a sorte de viajar, estamos aqui para ajudar.
O que anda me encantando?
Refeições simples, ambientes nada pomposos e provar várias coisas pequenas acompanhadas de um bom copo de vinho. Pois tinha tudo isso no LaLou, no Brooklyn.
O lugar é feito de uma tripa de mesas – gostosa e barulhenta – que fica diante de um bar que emenda na cozinha e termina num jardim coberto, ao fundo, para quem quer mais paz e distância entre as mesas. Naquele ambiente espartano, confesso que não esperava aqueles vinhos ou aqueles pratos.
Fui investigar. A casa é de Joe Campanale, sommelier respeitadíssimo que teve passagem pelo Babbo, é autor de “Vino, The Essential Guide to Real Italian Wine” e, ainda por cima, decidiu fazer vinho na Campania. Nada mal. Apesar de tanto pedigree, a equipe consigue explicar lindamente a carta que tem grande foco em Itália, França, Áustria e outros cantos adoráveis, sem muito blá blá blá. A foto foi do Ganevat pra contar vantagem, mas passeei por outros copos caros ou baratos com a mesma entusiasmo. Belo trabalho.
A alegria não pára nos vinhos, mas não espere exatamente um cardápio. Há meia dúzia de pequenos pratos com ingredientes excelentes, a começar pelo couvert. Vibrei com os pães e, também, com a enguia defumada com feijões brancos e caldo feito da carcaça do peixe. Mas incontornável, mesmo, foi o nada fotogênico repolho chamuscado com pasta de damascos, Jerez e um delicado molho de queijo azul Stilton. Tive vontade de pedir uma dúzia.
Recomendo em noite despretensiosa povoada por desejos etílicos depois de uma visita ao Brooklyn Museum (são 16 minutos a pé).
Agora o mundo deu pra listas. Até o New York Times, ora vejam, resolveu se inspirar no 50Best e escolheu os 50 lugares nos EUA que o jornal mais gosta, no momento.
Taí… decidi fazer a minha.
Não se trata de vaidade ou presunção; são apenas os melhores do MEU mundo. Sim, um mundo torto como qualquer outro, em que a gente tem de trabalhar em vez de ficar à toa, acorda de mau humor, janta com gente chata ou recebe uma lasca de concreto na testa, em animada aceleração a partir de um andaime no 20º andar de um prédio na Cidade do México, bem no momento em que sai do hospital. Pois é, aquele hospital onde o marido foi ajeitar o pé torcido, um dia antes, na calçada do Museu de Antropologia. Talvez por conta de sequências como essa, as pessoas impliquem com agosto. Injustiça… O meu foi bom.
Meu amigo Paco Torras diz que eu não frequento restaurantes, frequento pessoas. Reagi de início, mas é a pura verdade.
“Se o Zé estiver no fogão, pede o spaghetti ao vôngole!”
“Pede o bacalhau, mas tem que ser com a pimenta que o Francisco faz.”
“Gosto do boulevardier, mas só se Tatiana estiver no bar”.
Pois é. A vida não é press trip; gostamos de uns pratos, mais que de outros; de uns cantos, mais que dos outros; às vezes do ambiente, mas não dos pratos; às vezes de tudo, e então chega a conta. Pois assim montei minha lista, convicta de que mesmo com 25 anos de escrita gastronômica (sem convites), o meu “melhor” pode não se casar com o vosso…. Acontece.
Agosto foi marcado por uma quarentena de quinze dias na Cidade do México. Ao contrário da última visita, já não tinha o mesmo apetite para insetos graças à uma indisposição que fez o favor de se estender por quase toda a viagem. Se na outra visita consegui flanar por mercados de rua, comer tacos em barracas e mastigar todas as chicatanas que pude, nessa fiz um circuito menos “raiz”.
Há alguns anos, escrevi sobre os 4 restaurantes mais marcantes da cidade [aqui]. Dos quatro, quis repetir o QUINTONIL (Latam50Best), não por ter sido a melhor refeição da temporada, mas por ter um conjunto, entre ambiente e comida, muito agradável. Infelizmente, na minha volta em agosto, o ambiente já não era o mesmo e achei a reforma muito infeliz. Os pontos altos foram a carta e o serviço, muito bons; aliás, foi a maior proporção de atendentes por mesa que vi. Recomendo fortemente o branco mexicano LA LLAVE 2017, blend de Chenin e Sauvignon Blanc, sempre do Valle de Guadalupe, minha região vinícola favorita no país. Fresco, agradável e com ótima acidez.
Começando do princípio, busquei pouso em Roma, bairro cheio de joias arquitetônicas e perfeito para riscar a maior parte da minha lista de desejos, a pé. Não menos importante, havia por perto várias opções para a reposição de meus 400 ml de cafeína diários. A preferida pelo atendimento, qualidade do grão e métodos de extração foi a ALMANEGRA, com sua sala pequena e espartana. Gostei especialmente dos grãos da pequena região de Nayarit, no Centro-Oeste do México, da Finca Kalid.
Sempre me prometo dedicar textos individuais a cada restaurante, e lá vou eu rabiscar um troço por ordem de visita, mas a verdade é que o tempo livre nunca me permite cobrir todos eles (afinal não vivo disso) e daí surgiu a vontade de adiantar a lista.
Sobre o ELLY’s, restaurante que cabe em qualquer momento, seja para um drink, um copo de vinho, boa música, comida ou ambiente, já escrevi aqui. Sobre o MÁXIMO BISTROT (Latam50Best), um galpão lindo, com comida bem francesa-manteiguinha, também já escrevi aqui. Além disso, dediquei um post ao CICATRIZ CAFÉ, um bar de vinhos naturais, aqui, no maravilhoso Glupt!, de Luiz Horta.
A PANADERIA ROSETTA também já teve seu post aqui, mas não tinha desenrolado as linhas sobre o seu irmão tão famoso quanto: o RESTAURANTE ROSETTA (Latam50Best). Um lugar lindo, com pé direito altíssimo, moveis leves e claros e muitos cipós, flores, legumes e pássaros pintados pelas paredes. Pelo conjunto, é incontornável. Adorei as entradas, especialmente do prato de tomates verdes com feijão preto, uma espécie de ricota de cabra, berinjela, melaço e um vinagrete muito fresco e também de um mil folhas de cevada, excelente. Dentre os principais, preferi massas aos pratos de peixe. A carta de vinhos é quase toda de orgânicos, biodinâmicos e naturais. Tentei experimentar os mexicanos, como sempre faço, mas acho que a produção de naturais de lá está no mesmo momento da brasileira: há mais erros que acertos, mas sempre vale tentar.
O melhor restaurante, como um todo, foi o LOREA, recomendação do querido Rafa Costa e Silva (e presente agora no guia 50Best Discovery), com carta de bebidas, serviço e comida excelentes. O único senão é a escadaria para entrar, que emenda numa outra imensa, para ir aos banheiros. Fora isso, tudo perfeito, a começar pelos drinks impecáveis, tanto os sérios como o de bourbon e cevada, quanto os animados como o de grapefruit e lavanda. O serviço de vinhos foi o melhor que vi na cidade e a carta tem joias como o Jerez da Ximénez-Spinola (medium) e uma boa seleção de vinhos a copo para a harmonização, embora bastante europeia – senti falta de um rótulo local, numa cozinha tão voltada para os produtos de excelência mexicanos. Dos meus pratos preferidos, posso assegurar que a salada de beterrabas vale a visita. A flor – um cardillo – vem mergulhada no próprio suco de beterraba com creme de erva cidreira e garante a textura maravilhosa. Além dele, a inesquecível tortilla de huitlacoche, o milho enegrecido pelo fungo, uma das iguarias mexicanas incontornáveis. Nas sobremesas, a casca do plátano (primo da banana-da-terra) processada para se tornar comestível, também emprestava muito interesse e vinha com sorvete de iogurte e morango. Foi a sobremesa mais original que comi.
O CONTRAMAR é uma casa de frutos do mar clássica, com a equipe mais (milagrosamente) bilíngue entre os restaurantes visitados. Todos muito eficientes naquele salão e varanda imensos, constantemente cheios. Não é uma casa que busca a inventividade; serve pratos bons e simples (tiraditos, peixes grelhados, sashimis e tal), com ingredientes excelentes. A carta é de vinhos convencionais, corretos. Pausa para uma torta de figos de massa bruta, bem simples, mas viciante, que repetimos. Também faz parte do ranking 50Best Discovery.
Meu estômago buscava abrigo em restaurantes italianos, em dias de crise. Gostei muito de dois, por motivos diferentes. O OSTERIA DEL BECCO por um ambiente que consegue ser elegante, intimista e animado, ao mesmo tempo, com uma adorável área aberta, ao fundo. Não menos importante, uma adega de vinhos convencionais imensa no segundo andar, com vários rótulos que não estão necessariamente na carta, mas podem ser comprados e servidos ali. Há um delicioso vitello tonnato, ótima seleção de peixes crus, boas pizzas, além do serviço de vinhos adorável de Ivan, mas as massas não têm ponto tão religioso e o tiramisú não é o forte da casa. O SARTORIA me encantou pela qualidade dos ingredientes, de cabo a rabo: do pão do couvert, passando pelo azeite e vinagre que o acompanham; peixes frescos; massas feitas com boa farinha (maravilhoso fogie al pesto de menta e amêndoas) e no ponto mais correto que achei na cidade. O capricho vai até os sorvetes de fabricação própria, de sobremesa. O serviço foi muito simpático e atencioso, em todas as visitas, e a carta de vinhos mais eclética e original.
Assim termina a lista, que só pode ser escolhida dentro daquilo que visitei, por 15 dias (injusta, portanto). Muito ficou de fora, de propósito, e outro tanto porque simplesmente não fui. Isso tudo é pra dizer que listas são mesmo uma bobagem (concorde! discorde! seja feliz!), mas o que importa, e muito, é que são o pedido mais frequente dos seguidores deste blog.
Deixo as fotos para o Instagram, onde marco cada uma com a hashtag #crisbeltraociudaddemexico. Lá, também podem ser encontrados cafés, delicatessens e outras paradinhas, de qualidade. “Sem mais, despeço-me” e espero que tenham gostado do passeio sincero, um beijo, tchau.
***
Entre os visitados, meus preferidos por categoria (para quem tem preguiça de ler o texto – fazemos o possível para melhor atendê-los):
COMIDA MEXICANA CONTEMPORÂNEA – Lorea
PARA VOLTAR A TODA HORA – Elly’s
AMBIENTE – Elly’s, Massimo Bistrot, Osteria del Becco, Rosetta (não soube escolher; são estilos diferentes)
SERVIÇO – Contramar, Quintonil, Osteria del Becco
RESTAURANTE ITALIANO – Sartoria
PEIXES E FRUTOS DO MAR – Contramar
BAR DE VINHOS NATURAIS – Cicatriz
CARTA DE VINHOS – Osteria del Becco, Massimo Bistro, Rosetta (foco em naturais)
Cheguei a Nova York na véspera do dia em que o fim simbólico da Covid e a esperança de reabertura gradual da cidade seria marcada com uma grande festa ao ar livre, no Central Park. A cidade, disseram, finalmente começava a mudar de cor. Acontece que o céu mudou, também.
Uma tempestade tropical decide virar furacão (o primeiro em 30 anos, nessa costa) raios e trovões interrompem a cerimônia e alertas no meu telefone dizem: corram para um abrigo!
De lá para cá, em duas semanas, vivi uma enchente, um tornado, perdi um parente no Brasil e vi a passagem de outro pelo hospital. Escrever sobre comida, convenhamos, não era lá prioridade.
Com tantos anos de refeições obrigatórias na vida, me dei conta de que há poucos lugares para os quais quero voltar. Há sempre lugares divertidos, cheios de conceito, com ótimas causas, com lindo ambiente, inaugurações imperdíveis e empreendimentos de amigos, mas há poucos lugares que entram na gente com naturalidade, como se nos pertencessem (e nós a eles). São como a casa do estômago, onde ele mora sem esforço, abre a porta, tira o sapato e se deita no sofá. Quando a coisa aperta, garanto: é pra lá que ele quer voltar. E, por acaso, seu último endereço foi na Cidade do México, onde passei a quarentena obrigatória antes de chegar aqui.
Por conta de uma briga do horário da reserva com minha memória, cheguei meia hora antes, com o restaurante ainda fechado. Podia ter doído, mas o excelente Emiliano, host/escritor/ator mexicano que fala português e outras quatro línguas fez minha esclerose parecer muito natural. Adiei a fome passeando pela vizinhança, com esticada até o Bosque de Chapultepec e finalmente entrei no ELLY’S.
A casa dos anos 30 em estilo bauhaus é uma graça, com vários ambientes que acomodam os espíritos de um almoço, happy hour ou jantar, todos embalados pela coleção infinita de discos de vinil do sócio Andres Herran, estacionada na entrada. Queria ter me sentado na área dos fundos, ao ar livre, onde ficava “la barra” (ou o balcão), até para ver a chef Elizabeth Fraser em ação, mas o calor me fez parar na sombra do salão anterior.
La barra: com certeza, o lugar mais gostoso da casa
A carta tem tamanho certo, com ótima seleção de vinhos, inclusive naturais, e a cozinha é mediterrânea com toques mexicanos. Adorei os mezze, divertidos e muito bem feitos, que já me ganharam pela qualidade dos pães. Tinha ricota curada com zaatar e azeite; favas fritas sobre tahine verde; purê de cenouras baby; salada de pepino persa com queijo feta, noz de castilla e trigo bulgur, além de deliciosos picles.
Mezze: leves e bem executados
O tartare de cordeiro com tâmaras, hortelã, cebola e pepino, sobre as folhas de alface, era fresco e picante. Me encantei pela simples couve branca chamuscada com molho caesar, raspas de limão, queijos e farofa de pão tostado (o uso da grelha é um ponto alto da chef), mas voltaria 20 vezes para a mousse de fígado de frango com damasco.
Meu estômago foi levado ao segundo piso, com vários outros ambientes de muito bom gosto, visitou a sala de degustação e estacionou num conjunto de sofás onde tomou um ótimo café e a sobremesa. Cheguei em Manhattan, é fato, mas ele segue sentado por lá, tomando coquetéis imaginários na barra e aproveitando o clima do jantar.
Deixo ficar.
Charmay (chardonnay/beaujolais), do Octavin (Jura). Uma delícia de vinho, glou glou, como pedia o dia de Verão.Tartare de cordeiro com tâmaras, hortelãs, cebola e pepino, sobre folhas de alface.Couve branca chamuscada com molho caesar, grana padano, raspas de limão e farofa de pão tostado.A deliciosa mousse de fígado com damascosUm dos (vários) ambientes do segundo andarAlém da óbvia goiaba, a essas alturas meu estômago já não anotava nada, a não ser que estava bom
Pelas mãos de Emiliano, a organização dos discos que ele põe para tocar, de acordo com o clima: de hip hop a clássicos, passando pelo jazz.
“Como quem num dia de Verão abre a porta de casa….” – O Guardador de Rebanhos
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
Está combinado que o Verão só acontece no dia 21 de junho, mas uma semana antes da hora decidiu passear por Campo de Ourique
Acho o bairro adorável, familiar.
A padaria fica onde devia estar: ali, perto de todos, assim como a queijaria, a igreja, o banco, a farmácia ou o mercado. Tudo com o tamanho certo, na esquina combinada.
Naquele quadrado a conversa é com os vizinhos.
Imensos, mesmo, só o Centro Comercial Amoreiras e a Casa Fernando Pessoa, prédio onde o poeta escolheu ocupar o primeiro andar em seus últimos 15 anos de vida, agora todo dedicado à sua obra. Ali, ainda é possível avistá-lo com o cigarro na mão e um café sobre a mesa, lendo Orpheu, no retrato pintado por Almada Negreiros, em 1954. Sua biblioteca particular, alguns de seus objetos e a vida artística da cidade no tempo em que viveu, tão colossais em importância, mereciam mesmo a generosidade do espaço.
Do outro lado da rua, voltando à escala que o bairro gosta, há um bistrô de uns 20 e poucos lugares. Abriu em 2019, mal acelerava, pimba! Foi atropelado por um ônibus chamado Covid-19.
RITA EXPLICA O ENXARÉU
A beleza e o inferno de um bistrô andam de mãos dadas. Chega um peixe de 14 quilos e há que se aproveitar cada pedacinho, da carcaça às ovas, em vários pratos da lousa. O mesmo cuidado e atenção devem ser dados tanto ao nobre lombo quanto ao pé do porco, tanto a uma folha quanto seu talo. Tampouco há assentos suficientes para permitir usar vários legumes, verduras ou carnes num mesmo dia. Num bistrô não cabe descarte e dessa matéria é feito o negócio.
É uma cadeia bonita, feita de gente pequena e dedicada, também no campo, capaz de prestar atenção aos pequenos volumes que requerem. A criatividade, portanto, é sócia. O que houver de fresco – há dias em que há muito, outros em que há pouco – tem de se virar em prato.
enxaréu com gambas brancas, água de pepino, mirtilos e beterrabas
Era dia de enxaréu no BISTRÔ BICHO MAU. Chegou gordo de Peniche, com 14 quilos. Veio em fatias com água de pepino, gamba branca (um tipo de camarão comum no Algarve), mirtilos e beterrabas, mas também de outro jeito, que adorei: em lascas levemente defumadas com madeira de oliveira, salpicadas com os verdes da Estação (beldroegas e mostardas), azeite, pimenta e queijo São Jorge com 24 meses de cura.
Houve também um correto tártaro de maronesa (a vaca rústica portuguesa de montanha, de carne muito cobiçada), com chutney de manga com um toquezinho de curry e papadams, os biscoitos de massa indianos, finos e secos. Não existe, aliás, manga em Portugal, mas os 4 séculos e meio de ocupação portuguesa na Índia sempre deixam, como formigas, um rastro nos pratos.
enxaréu defumado em madeira de oliveira, com os verdes da Estação e queijo São Jorge com 24 meses de cura
O vinho, que não podia ter sido mais perfeito, era um Susucaro 2020, rosé natural siciliano, com fruta fresca viva, crespa, divertido como o dia de sol, lá fora. E a companhia? A melhor possível: Miguel Pires (do mesamarcada.com), aqui diante de um merengue italiano cozido no vapor e um sake de ameixa com shiso, oferecido por Tomás e Rita, os proprietários.
TÁRTARO DE VACA MARONESA COM CHUTNEY DE MANGA E PAPADAMS
Adorei o brioche com a carne de porco, que era especialmente macia e doce, graças à alimentação especial e uma maturação de 9 dias. O contraste crocante e levemente ácido ficou por conta do cole slaw de couve roxa. Muito delicado.
BRIOCHE COM PORCO MATURADO POR 9 DIAS E COLE SLAW DE COUVE ROXA
A sobremesa resume a poesia de Portugal: o merengue vem com gel de “lúcia lima” (adoro o nome dessa erva da família da verbena, desconhecida aqui no Brasil, mas tão aromática que merece nome e sobrenome) com calda de morangos do Vale das Dúvidas. Ah! O batismo dos pratos e vinhos portugueses! Nem precisavam ser bons, mas eram.
A refeição foi simples, saborosa e adequada à Estação, como cabe a um bistrô.
Aliás, Tomás contou que quando esfria, serve faisão. Salivei. Agora o jeito é esperar que o Inverno lhe abra a porta da casa.
BICHO MAU @bistro_bichomau (Instagram)
MERENGUE COM GEL DE LÚCIA LIMA E MORANGOS DO VALE DAS DÚVIDAS
ACIMA, A CHARMOSA MESA COMUNITÁRIA PRÉ-COVID, HOJE SUBSTITUÍDA POR MESAS DE DOIS, COM DISTANCIAMENTO
Cerejas do Fundão, chás, flores, uma bolsa que tenho.
Coleciono os poucos “gostares” de uma amiga querida para ver se a surpreendo quando nos encontramos, mas ainda não consegui. Cerejas fora de época, a bolsa fora de linha… O que dar a alguém que precisa de pouca coisa? Não sei, sou igual.
Preciso de pouca coisa e, ainda, gosto de pouca gente. A vantagem é que me basta quem traz.
Foi antes da pandemia e pelas mãos da amiga, que me encantei com o pequeno bistrô de vinhos naturais e cozinha vegetariana, em Lisboa. Se você não faz parte de nenhuma dessas tribos, pouco interessa. O lugar é bom.
Da primeira vez, adorei os brócolos assados com iogurte cítrico, couve, raiz de aipo, sementes de cânhamo, avelãs tostadas e gema de ovo ralada em cima do todo. Viciante, e a culpa não foi do cânhamo.
ABOBRINHAS COM MOLHO PONZU
Da última, me encantei pelas abobrinhas com molho ponzu, semente de mostarda, crocante de arroz frito e funcho do mar (foto acima) e, ainda, pelos morangos com creme de queijo de cabra e biscoito de pistache, que fecharam a noite (foto lá embaixo).
A carta é, em tamanho e conteúdo, perfeita. Cheguei a hesitar por um segundo e meio antes de pedir um vinho da Filipa Pato que queria muito provar. “Talvez ainda esteja jovem…”, pensei. “Pouco importa, eu não estou tanto.”, concluí. E lá foi a garrafa.
LINDEZA DA FILIPA PATO
O nome é “Nossa Missão”, vinho feito exclusivamente de baga, de videiras pre-phyllloxera com mais de 100 anos. Uma linda explosão de fruta com acidez muito viva. Registramos zero arrependimentos.
Entre minha primeira e a última visitas, o casal de sócios (Marc Davidson e Stéphanie Audet) abriu a loja “Senhor Manuel”, do outro lado da rua, com mais de 250 rótulos de vinhos, além de azeites, vinagres e cafés. Não bastasse, também servem ostras, petiscos e piqueniques para levar. É um canto muito feliz, aquele.
Ainda me lembro do dia em que a amiga me disse: “Acho que você vai gostar do Senhor Uva. Eu adoro. Vamos? Cerejas do Fundão, chás, flores, uma bolsa que tenho e… o Senhor Uva. Na dúvida, já sei o que dar.
MORANGOS COM CREME DE QUEIJO DE CABRA E BISCOITO DE PISTACHE