
Fui perseguida por Ingrid, maltratada por Joseph, stalkeada por Kristin, e me aborreci com Leonardo. Por sorte, Marta não me alcançou.
Prática comum nos EUA, batizar tempestades agora é moda em Portugal. Como “amigos’ que não anunciam a visita, essa turma me fez inesperada companhia nas três semanas em que estive em Lisboa, trazendo ciclones que me empurravam pelas ruas, granizo que mirava em minha testa (é grande!), e pôças gigantes que me distenderam minhas coxas.
A verdade é que desastres climáticos não ficam mais ‘fofos’ quando batizados, mas são práticos na hora do xingamento.
Felizmente, há restaurantes.
A VOLTA (INEVITÁVEL) AO PRADO

A saudade era tanta que enfrentei bravamente os 30 minutos de ventos a 120km/h na caminhada do Príncipe Real até o Prado enquanto os cabelos açoitavam meu rosto. Cada passo vencido foi motivado pelas lembranças da última visita, fosse o estufado de boi Barrosã; um ovo de codorniz escorregadio e sedutor com cremezinho de cogumelos cheio de umami e…. PAF! Vira o guarda-chuva pela décima vez.
Força, Cristiana! Em breve haverá vinho!
O Prado é meu porto seguro, desde 2019, por um sem-número de motivos. O salão, nas lindas mãos da competente Becas, flui rapidamente e sem afetações, rimando com a casa. O serviço de vinhos está à altura da carta que é das minhas preferidas na cidade, com equipe muito bem-preparada para entender o cliente e traduzir seus desejos, não à tôa são “ouro” na Star Wines List. Por fim, adoro o esquema de pequenos pratos que acomoda fomes e bolsos P, M ou G.
A cozinha de António Galapito passa longe da cansada e apelativa fórmula “trufa / caviar / wagyu / foie gras”. Ao contrário, tem foco na criação, sempre com os melhores produtos, frescos e da época, vindos dos quatro cantos de Portugal.
Nas duas visitas que fiz nesta viagem, saí com vontade de voltar, fosse para a abóbora manteiga com soro de queijo de cabra, brioche e pistaches; quem sabe, para as gambas da costa fresquíssimas com maçã verde, azeitonas e alcaparras e caldo perfeito de algas kombu. Uma poesia. Também não esqueço da enguia defumada com manteiga de cabra, tupinambo e trompetas negras, com ‘peso’ ideal contrabalançar o olhar gelado de Ingrid, pela janela. O colágeno da aleta de robalo com mexilhões [foto abaixo], emulsão de alho e coentros, parecia um lip gloss, perfeito em acidez, equilibrado e denso.
[Faço aqui uma pausa ranzinza sobre o atum]
“Atum de cativeiro sabe a cavala”, disse Galapito. Em português brasileiro, quer dizer “tem gosto de cavala”, isso porque o peixinho cavala é grande parte da ração do peixão atum.
Mais do que ninguém, NADA tenho contra produtos de cativeiro, já que a avassaladora maioria não entende a diferença. Digo o mesmo sobre o gosto metálico das ovas do esturjão industrial ou da falta de firmeza e personalidade do camarão de tanque. Se ninguém nota, tanto melhor para o planeta, mas há quem venda gato por lebre, exibindo peças insípidas como troféus, com margens absolutamente incompatíveis. Um grande retrocesso para o setor.
Pois bem, ali era selvagem e fresco. Vinha com suco de pimentões grelhados, vinagrete feito de óleo de pimentões defumados e garum de salmonete. Estava, realmente, de chorar.

O sommelier do Jura me recomendou um dos melhores rótulos da viagem: um branco feito com a uva ‘galego dourado’, autóctone de Portugal, muito aromático e gordo na boca, cheio de tangerina, maçã verde, mineral e salino, que acompanhou lindamente vários pratos. Era um Quinta de San Michel 2023.
Sugiro encomendar um vento a favor, na volta.
BROTO

Tem cinco meses, a criança.
A casa recém-inaugurada de Pedro Pena Bastos, no Chiado, também serve pequenos pratos. Provei de tudo um pouco e voltei para os que casaram comigo.
Repeti a tarte de vagens e ervilhas com requeijão defumado, alho frito e noz pecã, pequenina e livre de culpa, para se comer quase de uma vez só.
Também repeti o pregado curado, com delicado molho de tangerinas – da época – e purê de brócolis, que muito me lembrou as preparações do Ocyá, no Rio. Da segunda visita, o peixe era sarda, também muito boa.
Como toda a casa que que engatinha, houve pequenas inconsistências entre visitas, mas nada grave, como a molhenga de tomates com ovos orgânicos de galinha pedrês (carijó), paiola, óleo de feno e salada de mizunas, que na primeira visita foi um prato “familiar”, caloroso e inesquecível, da segunda, foi menos feliz. Ainda assim, voltaria para testar uma terceira. Molhenga é o molho untuoso da francesinha e paiola é a carne do porco sem gordura, maturada por 48hs.

Me encantei com a salsicha de porco com couve lombarda, purê de batata e molho do cozido. Uma delícia. A preparação é comum ao Inverno de toda a Europa, sejam chamados de “embrulhos de couve”, em Portugal, ou “choux farci” na França, e por aí vamos… mas a diferença está na profundidade do caldo do cozido, no ponto perfeito da couve, na qualidade do animal. Lembrei uma versão com foie gras e pistaches que comi no Les Parcelles, em Paris, sobre a qual escrevi aqui, e que sempre ficou na memória. Pois bem, acabou de perder o pódio… Ah! E não se esqueça de pedir o pão, para não perder uma gota do caldo do cozido, e me agradeça depois.
Memorável, também, a sobremesa de cacau 75% de São Tomé com sorvete de pinheiro (delicioso, e lembrava abacate), umas raspas de laranja, rega de azeite fresquíssimo e pinhões.
Vale sempre investir nos queijos portugueses, e ali há ótimos.
A carta de vinhos é muito simpática e a sommelière argentina, uma presença atenta no salão.
FLAMMA
A brasa, que batiza a casa, fez do seu perfume um companheiro à mesa. Sua “presença”, de início, me incomodou. Cabelos e roupas eram defumados aos poucos, olhos lacrimejavam e a fumaça se interpunha entre os aromas do meu vinho e eu, como um chato que interrompe a conversa. Depois do breve desconforto inicial, a história foi outra.

Achei o Flamma surpreendentemente barato para a criatividade e ingredientes que oferece. A chef brasileira Alessandra Borsatto – que passou por casas pesadas como as de Alexandre Silva, Avillez e Henrique Sá Pessoa, além de uma temporada em San Sebastián – é apaixonada por comida japonesa e pintxos e consegue fazer milagres numa retaguarda mínima, onde reina o carvão vegetal, de cascas de coco.
ZERAMOS um cardápio de mais de 20 itens, feito de espetinhos na brasa, cheios de latinidade e com muita presença de vegetais, que poderiam me distrair um dia inteiro. Entre eles, sonhos de parmesão com pasta de caju e ají; um milho baby na grelha – que gostei bastante – com pipoca, emulsão de milho frito, tajín (cítricos e malaguetas desidratadas) e talos de cebolinha por cima. Gostei, ainda, de um sashimi de atum balfegó que vinha em espeto, sobre um molho Nikkei que misturava leche de tigre, malaguetas, óleos de gergelim e soja, flocos de alga nori e cebola fresca. Também muito bom o caranguejo de casca mole, empanado em tempura delicada para não roubar sua textura, que vinha sobre um escabeche diferente, feito com tamarindo e sementes de coentro. Nas carnes, coração de frango na marinada anticuchera de especiarias brasileiras, e uma farofa de mini-milho para chuchar o espeto. Junto com o angus na brasa com alho frito, tratou de matar as saudades de casa.
Entre as sobremesas, gostei muito do marmelo com queijo coalho e a folha “limonada” que tem o nome mais simpático da vida, a lúcia lima, que vai ao carvão, e volta sobre um leite condensado com erva-mate e praliné de sementes de girassol.
A sala também merece destaque.
João Marujo, figura simpática e carismática, além de marido e sócio da chef, era quem fazia a recomendação de vinhos no Canalha. Agora, é excelente interpretador de desejos no Flamma e nos deu dicas absolutamente precisas de vinhos de baixa intervenção, a começar com o espumante do Loire, Bellivière Lei P’Tits Vélos extra brut, cheio de maçãs no nariz, fresco, leve e ótimo custo-benefício e, também, um palomino salino, cítrico e mineral chamado Sotovelo, que escoltou muito bem nossa viagem no prato.
Voltarei um dos 8 lugares da calçada, se o tempo permitir, mas naquele dia, Joseph, Kristin, Lorenzo ou Marta, já tinha feito reserva.
JNCQUOI FISH

Fui nadando, na companhia de Joseph, até a Avenida da Liberdade.
Depois de tantos cardápios parrudos capazes de fazer o corpo vencer o frio, senti falta do mar; e o Inverno é grande época para os peixes, mais gordos e saborosos.
Na elegante JNcQUOI House, townhouse portuguesa que é parte do grupo que inclui 8 restaurantes entre Lisboa e Comporta e mira no “luxo”, acabam de inaugurar dois restaurantes que homenageiam o Atlântico: o Fish, no térreo e o Table, um balcão de 10 lugares no subsolo para uma experiência mais gastronômica.
Luxo ali, para mim, não é o celebrado caviar no bolinho de bacalhau ou o hot dog trufado, é ter inúmeros peixes recém-pescados me espiando do balcão gelado e a excelência das preparações de Filipe Carvalho [foto], que provei.
O atum laminado vinha gordo, delicioso, com aipo rábano, cítricos e ovas de truta; o peixe-rei, que não está no cardápio impresso, mas está na época, vinha inteiro, fritinho, com maionese de kimchi e lima – viciante (!); a gema gorda dos ovos de codorniz estrelados com carabineiros ao alho estalava na língua; e o arroz de lavagante vinha mergulhado em caldo delicioso e denso. Por fim, provei um delicado peixe-galo ao sal, num dia, e um linguado gordo, no outro. Escrevendo essas linhas, já quero voltar.
O serviço no Fish é impecável e atento. Sob a batuta do gerente geral do hotel, Morgan Inesta, recém-chegado do grupo Ducasse, em Paris, garçons, maîtres e recepcionistas dançam um afinadíssimo balé. Fiquei hipnotizada por um rapaz que limpava obsessivamente a borda de um prato.
Nos vinhos, ninguém menos que Filipe Wang, um dos melhores sommeliers de Portugal, na minha opinião. Ignorei a presença de Joseph e me atirei, de olhos fechados, nas harmonizações precisas. Entre vários copos, passeei pelo Listrão dos Profetas 2024, do Maçanita; por um espetacular weissburgunder Wasenhaus 2023, um porto da safra de Wang e.. Pasmem!, tinha Ratafia JmSélèque.
Por favor, não deixem de pedir a gordice que é o pão de leite no forno com creme inglês.
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JNCQUOI TABLE

A dupla de Filipes também está no subsolo, encantando no JNcQUOI Table. Ali, o menu-degustação teve belos momentos:
Uma sapateira com santola e abacate, nasceu para o salino e crocante côteau champenoise Les Mesnil sur Oger do Robert Moncuit, que se sentou ao seu lado. Também houve um delicadíssimo camarão marreco em tartare, com gel de ponzu e maionese de sriracha. Igualmente memorável era o atum com maionese de pepino, sorvete de alcaçuz, crocantes de maçã granny smith, uma pimenta tão necessária quanto delicada, e alcaçuz muito sutil. Dos pratos mais criativos da noite. As vieiras vêm com couve-flor, caviar ossetra e espuma de manteiga noisette com toque de vinagre de jerez, e muito combinaram com o branco português de altitude, da Susana Esteban, que estagia sob uma camada de véu e tem na boca toques de curry e maçã verde.
Pausa para dar foco a um brioche delicioso, com manteiga francesa extra-seca e crosta estaladiça, como num brioche suíço.

Adorei o tortellini de rabo de porco e trufas com crocante de parmesão, espuma de manjericão e presunto, com o contraponto da ervilha lágrima de cozimento perfeito e lagostins de qualidade excelente. Uma festa de muitas camadas e texturas. Ótima surpresa o narai kinmon da Suginomori, um junmai daiginjo delicado, que apesar do polimento e das lindas notas florais, ainda tinha delicado umami. Acompanhou um salmonete com escamas crocantes, diferentes texturas de tomate, lingueirão, feijão verde, molho de caril de ervas e um maravilhoso e denso molho de espinhas e fígados do salmonete. Poderia tomar um balde.
A sobremesa poderia facilmente ser o Madeira Terrantez 20 anos da Henrique & Henriques, mas adorei o frescor da pré-dessert: uma sopa de lima, cremoso de hortelã e sorvete de casca de limão. Depois, tangerina com creme de café e pó de amêndoas, e três folhinhas de cidreira que fizeram toda a diferença para levantar o todo.
O Jncquoi Table é onde a base francesa clássica encontra os incríveis peixes e frutos do mar de Portugal. A manteiga está por todo lado, mas de forma equilibrada e sem atropelar o produto.
Ah! Se todos fossem assim…
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KHAYYAM

Como Kristin não largava do pé, cobicei uma viagem por climas áridos.
É um luxo ter uma boa comida iraniana, em LIsboa. O Khayyam tem sabores originais, com uma profusão de tâmaras, almondegas suculentas com especiarias originais e iogurtes.
A cozinha iraniana tem muitos vegetais, frutos secos, além de carnes de frango ou vaca em kebabs ou ensopados. Sobretudo, tem muito arroz e açafrão.
Logo de entrada, as pastinhas com tiras de um pão da casa (que parece o barbari, achatado e comprido, de crosta dourada, mas macio por dentro), podem nos fazer companhia até o fim da refeição. O mast-o-moussir, por exemplo, é pasta feita com iogurte bem denso feito com echalotas persas, secas e vinha decorado por pequenas pétalas de uma flor que não investiguei.
Cada província, no Irã, tem seu jeito de preparar almôndegas. Minhas koofteh, grelhadas por fora e macias por dentro, eram de vitela, com arroz muito perfumado, um tanto de açafrão, lentilhas bem firmes, tâmaras e cebolas caramelizadas. Não se consegue parar de comer. O arroz basmati é muito perfumado – demora 4 horas para ficar pronto – e tem menos carboidratos por conta do número de lavagens. Alivia a culpa?
De quebra, há muitas opções vegetarianas com perfumes persas. Aliás, e nada a ver com nada, descobri que zeytoon é azeitona….
Como um pequeno bistrô iraniano de bairro, de comida simples, mas saborosíssima, o restaurante tem tapetes pelas paredes, pelos encostos de cadeira, chãos e mesas. Um projeto da acadêmica Sépideh Radfar, professora de Iranologia da Universidade de Lisboa, tem ótimos menus a preço fixo no almoço, para bolsos de todo tipo.
Sinceramente, um achado.
CANALHA

De frente para o Tejo, a cobertura do MAAT me pareceu o guarda-chuva ideal para os violentos baldes d’água despejados por Joseph, sobre a cidade. Quando o tempo deu uma trégua, subi ao telhado do museu e entendi que, a partir de lá, se pode atravessar uma ponte sobre os trilhos que desemboca pertinho de uma das tascas mais queridas de Lisboa: o Canalha, Shangrilá do estômago.
João Rodrigues é, seguramente, um dos melhores chefs do país, que tem ali um projeto simples e adorável. Comece com o clássico bolinho de bacalhau; ou ainda os pasteizinhos de perdiz, muito bem temperados; os ovos de gema densa, com deliciosa sobrasada e cogumelos e o suco da cabeça de carabineiros despejados sobre eles; também o robalinho, se estiver na época, fresquíssimo e inteiro; ou mesmo um ribeye de chorar de bom com batatas ótimas. Ah! Para quem “sweet tooth”, há doces – e muito, muito doces. Não espere grandes acompanhamentos. A proposta ali é ser um restaurante de bairro excelente, com ingredientes sazonais. E entrega.
Fica aqui a dica de um programa casado.
MAR

MARÉ, de JOSÉ AVILLEZ (Cascais)
Os restaurantes que vão da Boca do Inferno até o Guincho, com a exceção do estrelado do Fortaleza do Guincho, com seus menus-degustação, não têm exatamente foco em criação. Brilham pelas preparações clássicas que valorizam o ingrediente puro do Atlântico, avistado em ondas que explodem logo abaixo de nossas mesas.
Com os vizinhos Mar do Inferno e Monte Mar fechados para o Inverno, o Maré, de José Avillez parecia o ponto de encontro de todas as famílias de Cascais, que se reúnem em torno dos peixes.
Tenho uma relação afetiva com o Mar do Inferno, com seus peixes fresquíssimos expostos pelas vitrines, e assados inteiros no sal. No Maré, há poucas opções de peixes inteiros. São servidos em postas, e sempre na brasa. Então, meu foco ali foram os frutos do mar.
Gostei das gambas da costa, realmente frescas e de sabor muito doce, que estavam na sugestão. Também adorei as bruxas, pequenas primas da cavaquinha, conhecidas como cavaco-anão ou santiaguinho [foto]. Totalmente locais e abundantes por ali, e estavam bem cheias de sabor.
O serviço foi excelente e acolhedor, como o espírito da casa. Bela carta de vinhos.
BAR DO FUNDO (Sintra)
Tomamos coragem de encarar aquele manto branco do céu antes que arrebentasse, e apresentar Sintra aos filhotes enquanto Tempesta – a deusa das tempestades –, distraída, distribuía tarefas para Leonardo e Marta.
A ideia era passar pelo Palácio da Pena e Quinta da Regaleira e almoçar em “qualquer lugar”, sem muita pesquisa. Pois bem… O “lugar”, ofendido, respondeu.
Não esperava muito do Bar do Fundo, além da bela vista, mas o todo me arrebatou. Comida correta, serviço simpático, as montanhas que mergulham no mar, e o deque de onde se avistava aqueles 50 tons de cinza.
O casco de sapateira recheado estava ótimo, assim como o correto arroz tostado de carabineiros. No copo, voltei à vinícola San Michel para um Malvarinto de Janas 2023, fresco e delicioso.
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VINHOS

BAR ALIMENTAR
Cheguei às 19, numa casa vazia em que me lembraram que eu teria de ceder o meu lugar em 2 horas. Quando parti, às 20:30, havia apenas 4 lugares – e só no balcão – em meio a uma casa lotada.
Bar Alimentar é o nome perfeito para aquele canto. O ambiente é uma graça, com paredes branquinhas, iluminação gostosa, música boa e luz baixa, distribuídas entre os pequenos salões, gostosos de estar. Num deles se pode, inclusive, sentar junto à vitrine para namorar o movimento da cozinha.
A reserva é obrigatória nesse bar de cheia de gente bonita, com comida superior à média, para uma casa de vinhos – aliás, como o Bar Belisco, no Rio.
Era delicioso e equilibrado o crudo, com toques cítricos, mas doces, no auge da época. Segui a sequência sugerida por João, barman dublê de cozinheiro e garçom, e não me arrependi. A língua vem bem assada e muito farta, num pão de fermentação natural, com salsa verde e malagueta. Para grandes fomes.
O grande acerto da última visita, no entanto, foi uma equilibrada salada de Inverno, com tupinambo e stracciatella fazendo um creme na medida, leve como um iogurte; tudo em temperatura ambiente. A hortelã nos tira do Inverno e faz lembrar que é uma salada.
Nas duas vezes em que lá estive fui muito bem atendida, tanto por Vasco quanto por João.
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PARRA

Apesar de haver opções de pequenos pratos e, por vezes, pop-ups de chefs convidados, a ideia ali é tomar um copo, ou vários, levar uma garrafa, ou várias, de um estilo, ou vários.
Com sorte você encontra o sócio, Artur Emashev, para ótimas dicas e bom papo.
Artur é um sommelier russo, que saiu do país quando a guerra começou. Foi gerente geral de um grupo de restaurantes em São Petersburgo – a capital gastronômica do país – e. apesar de seu wine bar lisboeta ter apenas dois anos, já está redondo e com muita qualidade. Tem excelentes produtores, que conhece pessoalmente e um profundo conhecimento que repassa para a equipe, num salão feito majoritariamente de ucranianos e russos. Em breve, a loja ao lado será adicionada ao projeto, já bastante feliz.
Da última visita, o Champagne de Montagne de Reims: Chartogne-Taillet Sainte Anne foi ótimo custo-benefício. Extra-brut floral, mineral e cítrico.
Passeei pelo Saint-Roman Sarnin Berrux 2017 e parti, em seguida, para um surpreendente vinho da Toscana, projeto pessoal de Federico Staderini, chamado CUNA. A pinot fin, antigo clone da pinot noir e uva cult do momento (badalada na Borgonha por Arnoux-Lachaux, Romanée Conti, entre outros), faz esse vinho marcante, mas elegante, com cerejas maduras, violetas e especiarias. Foi sugerido para acompanhar o veado da sugestão, com castanhas, purê de aipo e marmelo, prato concebido pelo chef Hugo Candeias, que fez um pop-up na casa.
Fiz reverência a um Madeira, como sempre. Era o Barbeito Single Harvest 2011. Além dele, coisa linda foi o riesling austríaco da Loimer, um TBA 2019 cheio de damasco e limão.
Também houve um Vigna del Volta, da espetaculosa Elena Pantaleaoni, O Parra é distribuidor exclusivo dos rótulos La Stoppa.
Não é bobo, não, esse Artur.
ROCCO

Não falo da comida, e sim dos vinhos; em especial da experiência da última visita aos banheiros.
Sim, os banheiros do Rocco já têm grande fama, com seus papéis de parede cheios de plantas e flores, com tantos espelhos que chego a ficar tonta. Já presenciei tiks e mais toks, poses, bocas e pezinhos por ali. O que nunca tinha visto – et ça m’interésse – era o mundo de garrafas que se esconde na adega atrás dos lavabos, como uma passagem para outro mundo. Essa sim, fez a cabeça girar.
Quem desce as escadas vindo do lobby do hotel Ivens, chega até lá diretamente. Já quem desce do restaurante, faz a curiosa passagem espelhada e florida, por entre pias e toalhinhas, que considero bem mais divertida.
Depois de um ótimo atendimento no restaurante e um monte de perguntas minhas sobre os copos indicados, o gentil sommelier Antonio Roxo fez um tour pelas prateleiras da adega, feita predominantemente de clássicos para um público idem. São champagnes, vinhos verdes, brancos, tintos ou de sobremesa, fortificados ou licorosos, de Norte a Sul de Portugal, além de rótulos italianos, franceses, neozelandeses, que incluem também grandes nomes do Mundo, como Château Margaux, por exemplo, ou jóias como vinhos Madeira especialíssimos, de lotes de apenas 600 garrafas. Há, ainda, curiosidades como a garrafa única do Czar 1999, da Ilha do Pico, o vinho tinto tranquilo com mais álcool do mundo: impressionantes 19% sem açúcares ou leveduras adicionados; também uma pequena pipeta que sobrou de um lote de ABF do Vallado, de 1843.
Achei a Disney no subsolo.
Troquei o balde de chuva que caía lá fora, por outro de saliva, cultivada ao longo de torturantes dois minutos e meio de montagem cuidadosa e bem narrada, de um delicioso tiramisú, no restaurante.
Encerro aqui a temporada de 2026, numa cidade que me impressiona cada vez mais pela qualidade média dos produtos e pescados, e pelo nível da hospitalidade.
Mesmo sem poder flanar pelas ruas, os restaurantes foram as mais lindas bóias num oceano vertical sem fim.
Todas as fotos dos pratos, vinhos e ambientes descritos acima podem ser vistas nos destaques “Lisboa 4” e “Lisboa 5” no meu Instagram crisbeltrao.
Alugue um escafandro e mergulhe.

















