Alguns dos segredos de uma vida feliz: “usar sapatos confortáveis” e “saber de lugares abertos o dia inteiro, com bons vinhos, não tão caros e de boa qualidade”.
Assim fui parar no Bar Crispin, no SoHo londrino, depois de muito andar para lá e para cá.
Espremidinho na Rua Kingly, o bar tem ‘varandica’ e salão pequenino feito de espelhos triangulares, bancos altos, mesas de zinco e detalhes em rosa, que me lembraram uma decoração futurista dos anos 70.
O serviço é muito simpático – às vezes distraído –, a comida é boa e a carta é ótima e bem grandinha, feita basicamente de vinhos de baixa intervenção, orgânicos e biodinâmicos, de toda a Europa.
Pedir o pão é uma alegria, e ela vem com manteiga fermentada batida.
O pequeno ‘sando’ de camarão é uma bobagem deliciosa. Num pão branco fininho, daqueles que saíram de moda, o camarão empanado vinha com molho cítrico e tempero na medida.
O steak tartare tem estilo mais gordo e fechado que os nossos, com cominhos e outros tons indianos, sem tanta acidez, valorizando a carne. Gostoso.
Já o mackerel (primo da cavala) vinha em porção generosa, chamuscado e oleoso – afinal, assim é o peixe –, com harissa (aquela pastinha de pimenta, que ali tinha um toque de chá e especiarias) e creme azedo fazendo bom contraste. Quando tudo terminar, então você me agradece por pedir o pão.
Brinquei com os copos do dia, na lousa: um Falanghina Cooperativa Campani 23 simples, fresco e frutado, e um ótimo espanhol, Silice Viticultores Blanco 23, de Ribeira Sacra, feito de treixadura, albariño e Palomino, muito interessante, quase salgado e com muito aroma de levedura.
O sorvete de aipo com maçã e mousse de creme fresco rimava com o dia, lá fora. Fui a ele, com sapatos confortáveis, claro.
Parece japonês e há orientais por toda parte: cozinheiros, garçons e clientes, mas não é: Ikoyi é o nome de uma cidade na Nigéria.
a cozinha aberta e silenciosa
Ninguém consegue dar uma explicação breve do conceito, que seria mais ou menos o seguinte: um restaurante londrino de comida inspirada no oeste da África, mas com especiarias do mundo todo, com foco na micro-sazonalidade de produtos ingleses, misturando “mar e montanha” com uso de carnes maturadas.
Parece confuso? Mas funciona…
Funcionou tanto que, agora em 2025, além das duas estrelas Michelin, acabaram de alcançar o 15º melhor lugar no guia 50Best, a maior subida de posições do ranking, em relação a 2024.
O Ikoyi fica no térreo de um edifício comercial de arquitetura brutalista (voltaram à moda). Passando a câmara de maturação com carnes, aves e peixes, bem na entrada, o salão é um vão em tons neutros, com mesas desprovidas de grandes enfeites com foco na cozinha aberta, no melhor estilo “olhe para a comida”.
Quando as descrições começam, você jura que vai dar muito errado. Veja bem:
Começamos com um caldo feito de duas infusões: uma primeira feita de asas de galinha caramelizadas com vegetais e especiarias, e uma segunda, com ervas. No fundo do copo, três sólidos: um shitake glaceado com manteiga de anchovas, um triângulo de beterraba amarela e um naco de pombo branco em picles. No topo, flores de cogumelo e de funcho. Por fim, um pingo de óleo de pimenta gola, de Serra Leoa. E juro… essa escola de samba desfilou lindamente nesse pequeno copinho aí.
Depois, veio uma lula confit numa base de arroz fermentado, enrolada em alga nori caramelizada, para abocanhar de uma só vez. Não sei bem como fizeram para aquilo tudo parecer uma pasta única, que se derretia na boca, mas cheia de sabores escondidos, que se alternavam. Sensacional.
O prato de peixes vinha com uma brincadeira de micro molhos, bem diferentes: um era ‘tonnato’ com cheddar e limão, outro era um leite de avelã e por fim um molho de folhas de cassis. Eram um bacalhau de Cornwall e um pregado com maturação de uma semana, em tempura, lambuzados com pimentas fermentadas e salpicados com folhas de mizuna (como uma rúcula selvagem mais picante) sobre uma emulsão de crustáceos e melão. Evolução, alegorias e adereços, nota 10.
E então veio a galinha d’angola.
Lembrei de um cozinheiro cearense, que contava que na sua infância e adolescência, as aves eram como uma praga. Apareciam por todo lado e metia-lhes balas de chumbinho enquanto corriam pelo seu quintal, o que tornava a vida mais difícil na hora de comer, mas era prato cotidiano, já que abundantes no seu Estado.
Me perguntei a razão de não mantermos o hábito no Brasil (sem chumbinho, por gentileza) quando chegou uma galinha d’angola cozida à perfeição, com cogumelos girolles, creme de lagosta, cenouras em picles e arroz jollof (delicioso e fora da foto), uma preparação que existe desde 1300, no Oeste da África, feita com especiarias, chilis e tomates.
Ao fim da etapa salgada, já tinha a certeza de que se tratava de uma refeição extraordinária, quando o garçom perguntou: “algum preferido?”, e eu não soube dizer. Só sabia que tinha gemido nos três.
As sobremesas foram interessantes, mas não tão marcantes, especialmente as que levavam alguma massa, sempre um pouco pesada.
Gostei especialmente da primeira: um sorbet de cereja com noz de kola e trezentas coisas: era açaí, biscoito, limão, cravo, babaganoush (purê de berinjela com tahine defumado, e ali, doce) além de um cítrico que não entendi, um “esmalte” de cereja, creme com baunilha do taiti e flor de sabugueiro em conserva. Em cima, cerejas glaceadas e azedinha com óleo de amêndoas.
Ufa! Deu certo.
Depois, um sorvete de manteiga queimada sobre um bolo de ameixa com gengibre e cravo e um caramelo de café, gengibre e cravo. Por cima, mousse de pimenta indiana salpicada de pó de cassis.
Num pratinho, duas sobremesas: um melão honeydew glaceado com mel, enfeitado com açafrão e flor de coentro, que gostei bastante; e uma ganache de chocolate com pudim de cereja, baunilha do taiti, manteiga queimada, amoras pretas e brancas e pimenta vermelha longa.
A harmonização é um assunto à parte e funcionou muito bem. Pode ser feita com vinho, sake ou chá. Pedi vinho e o marido, sake. Tomei ambos a título de “afinal eu escrevo sobre comida” e ambos funcionaram bem com a comida.
Como destaque, o sake que harmonizou com a sobremesa. No sabor, é doce, mas tem acidez para compensar, e vem com notas malucas de shiitake, castanhas, mel, além de ser muito lácteo. Uma bomba de umami. O sabor inusitado vem de um produtor que levou a fermentação ao limite. O sake Tsuchida 99 usa 99% de koji (o arroz cozido inoculado com o fungo que ajuda na fermentação) e só 1% de arroz, quando a proporção normal é de uns 20% de koji. É uma tentativa de fazer sake como antigamente, pelo método Kioto, tipo de fermentação ortodoxa que existe desde 1700.
Quando descrevi o conceito e um prato para uma amiga, ouvi: “Credo! Melhor não saber!”.
Para alguns, talvez…, mas garanto que tudo está na medida certa. Todas as especiarias do cardápio “se dão muito bem, obrigada”, e as notas picantes tinham sempre razão de ser.
Jeremy Chan, o chef, e seu sócio Iré Hassan-Odukale, estão de parabéns. Ikoyi é um grande (e original) restaurante que quer fazer comida boa e não está nem aí para explicar como consegue.
Londres é um esculacho: tem muito de tudo, sempre cheio, para todo lado e na sua cara.
Sejam livros, peças de teatro, shows, museus ou comida, a cidade dá uma surra de cinto no turista, que sai com as dores certeiras de quem nunca mais verá tanta pujança ou variedade.
Escolher um restaurante na cidade significa abandonar outros tantos e ter a certeza de que, na volta, sempre haverá um infeliz a dizer: “ah! Mas não comeu ‘sei lá onde’? Era o melhor!”.
Danem-se! Fui feliz.
Queria escrever um texto para cada restaurante, como fiz com o BEHIND [aqui], mas esse blog vive o drama de quem trabalha. Com 25 lugares visitados – e mesmo dispensando os que não gostei –, talvez só terminasse o capítulo londrino em dois anos. Decidi, portanto, espremer a lista em um texto só como quem pariu um filho de 4,5kg (aliás, esse foi meu peso, ao nascer – prenúncio de uma vida balofa).
Nasce a criança, na forma de um guia nada definitivo dos lugares que mais gostei em Londres.
OS DELICIOSAMENTE DESPOJADOS
Começo com o THE SEA, THE SEA, uma peixaria onde comeria todos os dias, feito de umas 7 mesinhas, lá fora, e uns 6 bancos, lá dentro.
“Explique aos clientes, antes de tudo, que não temos um forno, um microondas, um fogão”, dizia Tiago, um português engraçado e rápido que treinava, aparentemente, três pessoas novas no salão.
Aquele trecho adorável de Chelsea parecia atrair toda a população da Grã-Bretanha, mas eu cheguei cedo.
O balcão da peixaria que atende alguns dos melhores restaurantes de Londres, virou imediatamente um dos meus lugares preferidos para comer na cidade. Tudo fresco, simples, com um fio de azeite aqui, um limãozinho, uma erva ali. O pescado chega na loja em até 6 horas, é sustentável, rastreável e, mais importante, de sabor impecável nas criações do chef Leandro Carreira, um português de Leiria.
Simplicidade com qualidade. Não dá para ser mais feliz que isso.
Em seguida, preciso falar do BRAT, sem dúvida um dos preferidos da viagem, numa das áreas mais vibrantes da gastronomia londrina: Shoreditch.
Não sabia que o País de Gales tinha sido um dos que mais recebeu refugiados bascos depois da Guerra Civil espanhola, e foi justamente isso que inspirou o chef Tomos Parry.
BRAT é o termo inglês antigo para ‘linguado’ e, também, significa ‘avental’, em galês. Parecia o termo perfeito para um lugar que usa técnicas de preparo tão bascas, como cozinhar um peixe inteiro sobre carvão.
Naquele antigo bar de pole-dancing, as mesas enfileiradas são separadas por, talvez, 3 dedos de distância, umas das outras. Tampos de madeira sem toalhas, pequenos pratos espetaculares, serviço rápido e ótima seleção a copo, são a fórmula redonda que levou a casa a ganhar uma estrela Michelin e entrar no radar do 50Best Discovery.
Bebi um delicioso grüner veltliner (ou veltlinski zelene) tcheco, da Ota Ševčík, 2019 e, para não perder o hábito, um savagnin ouillé do Domaine de La Pinte. É incrível, de verdade, a qualidade dos vinhos a copo.
Amei, especialmente, o pão árabe inflado e recheado de vento, coberto por anchovas e um fio de azeite. Ainda na memória, o caldo que sobrou de um prato de mackerel com pepino grelhado (a cavala portuguesa) que poderia me hidratar pela vida inteira. Morri de amores, também, pela codorna assada com blood pudding, toque de mel, vinho e alecrim. Macia até não poder mais…
Outra incrível descoberta no bairro, foi a fórmula de almoço do LEROY.
Amei a música, o ambiente simples e o serviço incrível, talvez um pouco rápido demais, mas que parece atender bem o público executivo da região.
Podia morar numa simples salada que, até hoje, não me sai da cabeça. Era só alface-de-cordeiro – comum na Europa, mas não vemos muito no Brasil) – toranja (grapefruit) e um queijo de ovelha de Essex. Tão perfeitamente temperada que (salivo enquanto digito) foi capaz de colocar a casa em outra prateleira da minha despensa mental. Era parte do menu executivo do dia, que tem pouquíssimas opções e pode ser de 2 ou 3 pratos.
Também pedi um vitello tonnato na torrada de pão feito na casa e, como prato principal, fui de opção vegetariana: pimentão recheado com orzo, abobrinhas e queijo pecorino. Delicioso. Ficou claro porque o chef Simon Shand é conhecido pela simplicidade elegante. Concordo, assino embaixo e carimbo em 3 vias. A sobremesa também foi simples e divina: um naco de loquat (um fruto com algo de pêssego), sorvete de ricota e bolinho de manteiga queimada.
Há quem ache as porções pequenas (aviso), mas para mim foram perfeitas. Tive vontade de voltar no jantar, para o menu harmonizado com vinhos naturais ou convencionais e a excelente seleção de discos de vinil da casa.
O salão que vi vazio ao meio-dia, estava abarrotado às 13hs, entre executivos e casais, em partes iguais.
Também numa tarde de sol fui ao ELYSTAN STREET. A rua toda vale o passeio, com seus restaurantes lindinhos, além de um belo açougue e loja de vinhos que desembocam em praça adorável. Tive vontade de comer absolutamente todas as entradas. Por isso mesmo, pedi duas: uma sopa de amêndoas que podia entornar em baldes, e a massa com coelho muito bem feita (apesar do ponto inglês de cozimento). O serviço é simpático, mas distraído, do tipo que bate papo e esquece de trazer o pão, que vem depois das entradas, mas o ambiente é claro, agradável, espartano, numa combinação de elegância e informalidade que atrai gente de todas as idades.
Ainda no capítulo “almoço”, fui no WILD HONEY ST. JAMES, que eu escolheria para um momento de trabalho.
O chef Anthony Demetre, o primeiro a fazer pegar na Inglaterra o termo “bistronomy” adora méis, daí o nome do restaurante que fez sucesso por 12 anos em Mayfair e há alguns anos se mudou para o saguão imponente de um hotel, em St.James. Não sou fã do ambiente, mas a comida é irretocável.
Comi cavala na brasa com cebolas tropea (a rainha das cebolas calabresas, extremamente doce); vieiras balofas da ilha de Orkney, catadas a mão, com fricassé de ervilhas e favas e sabayon de missô; um coelho de gritar de bom, com feijões crocantes e molho de avelãs, com aquele acompanhamento que eles chamam de “torta” (cottage pie) e eu chamo de “deliciosice”: um purê ultra cremoso de batatas soterrando mais carne de coelho cozida em seu suco, com legumes. Muito, muito bom; e por fim, pedi um incontornável english custard (torta de natas) com passas, pignoli e manteiga salgada.
Um serviço impecável com comida excelente, experimentei no HIDE, que recebe seus clientes com uma escada Escheriana e um salão generoso – repleto de asiáticos – com janelas com vista para a agitada Picadilly e o Green Park.
Provei um ótimo siri mole (soft shell crab) e fiquei impressionada com a salada roubada do marido, divinamente temperada. Dentre os principais, um porco parecia reunir tudo que amo no universo: mostarda de frutas, amendoim, uma morcela bem temperada e até um nabo que tinha lugar no céu, limpando o palato entre uma dentada e outra. Tudo no ponto perfeito de cocção, acidez e doçura. Fiz um flight de vinhos do Porto, outro de queijos e ainda um de cafés, porque não estava ali para brincar.
A Hedonism Wines é parceira do restaurante e, não à toa a carta é ótima, mas as outras bebidas não ficam atrás. Londres não tem muita oferta de cafés coados, em restaurantes. Quando falo café, pense sempre num espresso.
Para quem gosta de um salão menor, intimista e elegantíssimo, com serviço clássico, pompa e circunstância na medida, o CORE BY CLARE SMYTH é incontornável. O serviço de vinhos foi, disparado, o melhor que vi e merece, por todos os motivos, suas 3 estrelas Michelin e a presença no 50 Best. Queria um Barolo, não muito caro, e o sommelier acertou, em cheio, com o Corini-Pallaretta Le Strette 2016, pronto para beber. Apesar da pouca idade, ficou na memória.
As duas entradas estavam ímpares: uma era um foie gras em geleia de vinho Madeira e a outra, um pato confit defumado em seu caldo profundo e delicado, acompanhado dos cogumelos morilles e chaga, fungo que não conhecia e adorei. Não estaria na Inglaterra se não pedisse um cordeiro de Herdwick. Eram costeleta e barriga em seu próprio caldo, com bacon de cordeiro crocante, coalhada de ovelha, ervas “vindas das montanhas por onde passeia o cordeiro”, além de ervilhas e menta.
Fiquei particularmente impressionada com as sobremesas: um parfait de limonada feito de tangerina e limão siciliano, com iogurte de ovelha e sorbet de limão. Por cima de tudo, uma telha de mel Rhug, orgânico, do País de Gales, que fez toda a diferença. Excelente. Também linda foi uma sobremesa inspirada num doce “afetivo” chamado Eton Mess – uma espécie de pavlova de morangos estrambelhada – que ali vinha sofisticadíssima, com morangos selvagens da época, delicados discos de merengue e toque de verbena.
Para não dizer que não falei dos pubs, fui ao HARWOOD ARMS, que já habitava minha lista de desejos, há 15 anos. A anacrônica cabeça de um veado pregada na parede e o lustre coberto com plumas de avestruz, com certeza assustam a nova geração, mas só reforçam a idade do restaurante (2009) e os valores ingleses, um país devorador de carne e com grande amor pela caça.
Pausei para comentar comigo mesma: “nada mais típico que abrir com pães feitos com centeio e Guiness”. Muito bons. O cardápio é curto e acho um alívio. Ponto altíssimo para o muntjac – como um cervo de sabor muito delicado e absurdamente macio – com cogumelos enoki, um purêzinho de um tubérculo que esqueci de investigar e molho da carne, com vinho. Espetacular. Só esse prato justificaria, para mim, a estrela Michelin da casa. Bebi cerveja, claro.
Era um domingo azul de Verão, como deveriam ser todos os domingos londrinos, e pareceu boa ideia passar o dia em Turnham Green, antiga vila medieval que fica em Chiswick, nos arredores da cidade.
Caminhamos por coisas lindas: o gramado do parque, a igreja de 1843, a rua principal com bares, livrarias, floriculturas e tal, até chegar ao LA TROMPETTE, um clássico de bairro há 23 anos, com gente de todas as idades e trajes.
O sommelier só precisou de meia dúzia de palavras sobre meu gosto para me ler como ninguém e trazer o melhor vinho branco inglês da viagem, pinçado da carta que tinha tudo: um chardonnay de Essex, cheio de casca de cítricos, mineral como nenhum (ostras!!!), toque de maçã, melão, camomila e nota oxidativa adorável.
Tudo que comi foi perfeito e, como diz o guia Michelin que deu uma estrela à casa, sem adornos desnecessários.
Hábito de muitos anos, decidi comer duas entradas: um vitelo tonnato com aspargos da estação, feijões e pecorino envelhecido e um tortellini recheado com vieiras de Orkney e caranguejo, em bisque com manjericão e gengibre; tudo para caber a sobremesa, um torta de morangos com baunilha, pimenta kampot e pistache.
Também para um momento clássico, já na capital, vá com alegria ao LOCANDA LOCATELLI, elegante, mas acolhedor no serviço. Voltei para uma salada de favas, rúcula e pecorino e um talharim com verduras e bottarga. De sobremesa, uma pannacota de coco, abacaxi, pêssego e sorbet de morango. Um bom restaurante italiano é sempre um abraço no estômago, antes de seguir viagem. Ótima carta.
Ter um Royal Warrant não é pouca coisa. Melhor mesmo anunciar no letreiro, na correspondência, na propaganda e no site a honra de ser um comerciante de confiança da família real.
É assim com a H.R.HIGGINS, loja londrina de cafés e chás, fundada em 1942 e considerada “ponta firme”pela Rainha Elizabeth II, desde 1979.
A loja do térreo é uma graça e ainda tem no porão um pequeno salão com bebidas bem tiradas.
Luiz Horta , o dono da dica, conta que frequentava o lugar no fim dos anos 90 e os Higgins já faziam torra mais clara e selecionavam grãos de qualidade, muito antes da “terceira onda” de cafés especiais.
Recomendo o delicioso Silver Needles White Fujian chinês.
Está cada vez mais difícil fugir de restaurantes de rede, que em geral não são a minha escolha, mas quando a rede e a do FRENCHIE, vale muitíssimo a pena, inclusive pela qualidade dos vinhos em taça. Já que está lá, peça vinhos ingleses como o Sov’ran, de Kent, feito com a uva ortega, que tem um nariz entre sauvignon blanc e muscat. Leve, delicado, bom para abrir a refeição. Ou, quem sabe, um Albariño laranja de pequeníssima produção (1.000 garrafas) do País de Gales. Ótimas escolhas do sommelier Charlie – que parece ter 12 anos -, um rapaz inglês do Norte do país.
Curiosamente, foi ali que provei o melhor ponto de massa da cidade, um delicioso papardelle de cordeiro bem temperado, com um bom vinho base engrossando o caldo.
Uma entrada de beterraba branca parecia ter um gosto bem perfumado, de rosas. Aliás, às vezes, beterraba branca parece querer ter nascido pêra. Vinha com sorrel, prima da azedinha, também aromática e picante na boca, com toque de harissa.
Na sobremesa, fui de bannoffee, aquela gordice despretensiosa e nada chique, que me fez querer voltar com olhos de dependente química. Era feita de um creme etéreo, uns suspiros, outro creme de banana gelado, um biscoitinho bom de cereais … Engoli com um Tokaji.
Voltaria sempre ao NOBLE ROT, tanto pelo ambiente quanto pelas infindáveis opções a copo. Lá, podemos tomar um Cédric Bouchard Roses de Jeanne Les Ursules, como se nada fosse. A cozinha ali é despretensiosa e correta, mas a grande estrela são indubitavelmente os vinhos. A comida tem um quê de maionese onipresente, mas havia uma boa vitela e um rabanete maravilhoso, com caviar. Mas boa, mesmo, foi a companhia do Danilo Nakamura. Um upgrade no que já era ótimo.
E por falar em Danilo, fundamental a dica de ir ao BAR TERMINI para drinks pré-almoço. Ali, ninguém fala que Negroni ou Bloody Mary são datados. Ao contrário, são os carros-chefe da casa e altamente recomendados.
A casa, que esteve no World’s 50Best Bars por 3 anos seguidos, também serve ótimos cafés e confeitaria.
“Uma rua que funciona 365 dias no ano”. Assim é o slogan do BROADWAY MARKET, em Hackney, uma das melhores descobertas gastronômicas de Londres.
Com 120 barraquinhas cadastradas, ali se acha de tudo (de bom e barato), aos sábados: queijos, vinhos, ostras, pães ou doces. Em 1883, já era importante mercado de vegetais, frutas, flores, ovos, estanho, tecido e outros, transportados para a capital até o início do século XIX, através dos canais, tributários do Tâmisa.
Com o advento das rodovias e, em seguida, a Segunda Guerra, o mercado perdeu sua importância, mas voltou com tudo, desde 2004, e é muito animado, especialmente no Verão.
Ruas com nomes como “das Ovelhas” ou “dos Cordeiros” dão a pista de sua importância na venda de alimentos para a capital, no passado.
Não poderia fechar esse texto sem dizer que voltei ao LA FROMAGERIE e foi amor à décima quinta vista, já que recomendo a casa desde o século passado (meu primeiro texto foi em 2009 – aqui).
Lembro do melhor momento da primeira visita, quando perguntei ao mestre queijeiro qual era o seu queijo preferido. A resposta: “queijos são como sapatos: alguns se ajustam à gente, outros não”.
“Aqui na Inglaterra, não crescemos comendo bons peixes”, comentava Andy.
Fish & chips (peixe empanado com batata frita) é prato que se encontra em qualquer canto da Grã-Bretanha, mas surgiu sem pretensão de estar associado à qualidade. Nasceu há mais de 160 anos, como comida popular, barata e prática de uma classe trabalhadora cercada pelo Atlântico Norte.
A frase aqui do início foi do chef Andy Benon, a estrela mais rápida do Oeste. Explico: Andy conseguiu merecer sua primeira estrela Michelin com apenas 20 dias de funcionamento do BEHIND, seu balcão de peixes e frutos do mar, em Hackney. E imagino exatamente como aconteceu…
Andy Beynon e o melhor espumante inglês que já bebi
Entendi que o jogo ali era outro no momento em que dei o primeiro gole em um caldo de camarão límpido e perfeito – de outro planeta – que abria o menu degustação. Tomei de olhinhos fechados, alternando dentadas no pão de erva-doce e na deliciosa tartelette de ervilhas, quando chega o chef com um espumante inglês nas mãos.
você pode achar amuse bouche um detalhe, mas voltaria mil vezes por esse caldo de camarões
Mas preciso começar do início.
Hackney, uma das áreas mais pobres de Londres nos anos 80, passou por um processo de gentrificação e animadas mudanças até ser eleito agora, em 2023, como o bairro mais “cool” da capital. “Badaladices” à parte, é ali que fica o BEHIND, o balcão de 18 lugares de onde se pode avistar a cozinha com distância suficiente para não defumar os cabelos e a roupa, funcionando em apenas dois turnos: um no almoço e um no jantar.
Posso dizer sem medo que foi uma das melhores refeições do ano, e já estamos na segunda metade do jogo. Ao contrário da cansada fórmula de soterrar peixes e frutos do mar com uma quantidade absurda de manteiga (gordura vende), o restaurante valoriza os elementos, a acidez e o sabor puro das coisas. Em vez de usar mais sal na comida, por exemplo, prefere achar ingredientes naturalmente mais salinos, como algas.
O espumante que abriu os trabalhos foi o melhor dos 6 que provei no país. Era o Langham Corallian Classic Cuvée, sem tanto açúcar residual como seus pares e perfeito para acompanhar o cardápio, já que tem boa nota cítrica e as uvas plantadas perto do mar e emprestam muita salinidade ao vinho.
Falando em sabores puros, impressionante a ideia de combinar a untuosidade das vieiras de Orkney com a acidez dos morangos da estação. Dois elementos e um resultado equilibradíssimo.
vieiras de Orkney, o arquipélago escocês, com morangos da estação
Poderia falar de vários pratos, mas destaco:
1) a truta curada com método japonês (himono) e cozida em salicornia, pesto concentrado de abobrinha e um brioche de limão com amêndoas, de gritar;
2) o divino monkfish da Cornualha com 3 pimentas (verdes, em salmoura, pimenta rosa e do reino fresca) e molho caprichado no colágeno (combinou perfeitamente com um St.Aubin);
3) um ótimo drink do meio do caminho feito de ruibarbo, maçã e espuma de maçãs granny smith, sem nenhuma adição de açúcar;
o drink de ruibarbo e o prato de queijos
4) a INESQUECÍVEL mousse de chocolate branco com pistache, cerejas frescas e hortelã por cima, sorbet de cereja amarga e gergelim.
Tudo equilibrado, de cabo a rabo, num menu criativo de tamanho palatável.
Andy Beynon pode até não ter crescido com bons peixes, mas todos os peixes que provei cresceram, e muito, com Andy Beynon. Espero que a próxima estrela chegue… e rápido.