Em respeito à terra – Crocadon Farm, Cornwall

Área externa com gazebo de madeira, mesas e cadeiras ao redor, e um guarda-sol, rodeada por vegetação.

Que graça tem para o leitor, saber sobre um lugar que já fechou? Talvez nenhuma, mas precisei escrever porque foi um dos projetos mais fantásticos que já tive o prazer de conhecer, que não vingou por ser muito distante de tudo. Deixo o meu reconhecimento. E seguirei o chef, onde quer que vá.

Paramos o carro num descampado que servia de estacionamento e, dez segundos depois, atrás do capim dourado e das árvores que margeavam uma trilha lateral, a silhueta de um homem altíssimo e elegante cruza um pequeno portão. A luz do sol do fim do dia brilhava quente em suas costas e a coleira de um border collie o puxava aos solavancos, em nossa direção.
Estava numa cena de Jane Austen.
“Bem-vindos!” – ele disse. “Em breve estarei lá!”.
O “lá” era o salão da Crocadon Farm, um restaurante “solo-cêntrico”, nos explicaram, com um menu criado a partir de tudo que brota na fazenda, sempre orgânico ou de cultura regenerativa. O homem altíssimo era o chef Dan Cox.

Caminho de terra entre vegetação exuberante, ladeado por plantas altas e folhas grandes, com cercas e um antigo edifício de pedra ao fundo.

O filme não parou de rodar enquanto entrávamos pelo corredor lateral da construção feita de pedra, com plantinhas pelo chão que eram meio mato, meio horta. Tive ímpetos de mastigar tudo ali, mas disfarcei meu lado bicho e mantive o focinho em pé.

Desembocamos num pátio central em que tudo era cinza, fora o azul do céu: o cascalho no chão, os tampos das longas mesas de piquenique, as casas de pedra, o telhado do quiosque no meio do pátio. Imaginei um café com croissant recém-saído do forno vindo da padaria que funciona ali, fechada àquela altura do dia.
Enquanto a hora da reserva não chegava, passeamos pela horta que tinha de tudo: uma estufa que parecia uma instalação artística, com fios que suspendiam galhos aqui e ali, flores comestíveis, kohlrabi, mizunas, e variedades que nunca ouvi falar, fossem de couves, cenouras, repolhos, nabos ou rabanetes, além dos 50 tons de beterraba que reencontraria depois, esparramados pelo cardápio.

No salão, os bancos de inspiração nórdica cobertos de peles davam a pista de que, mesmo no Verão, a temperatura cai bastante à noite. Tudo se resolve com a gordice emblemática e incontornável da Cornualha, o cultured cream, que ali vinha num canapé com shiso crocante em folha e creme, em excelente abre-alas.
Mas fujo do assunto…

Cozinha estilizada com chefs trabalhando, mostrando preparação de pratos e utensílios de cozinha.
Mesa de jantar redonda em madeira com cadeiras de madeira, cobertas com peles. Decoração simples e aconchegante em ambiente iluminado.
Prato gourmet com sobremesa apresentada em uma fina camada verde, decorada com folhas de hortelã e pequenos pontos de molho branco e verde, servida em um suporte de pedra.


Logo que recebi o cardápio, em notas de rodapé, soube que comeria um carneiro mestiço das raças Jacob e Zwartbles, maturado por 5 semanas e abatido com 6 anos de idade. Passou a vida melhorando o solo, diziam.
Gosto da abordagem direta britânica, que não cerca de eufemismos nossos hábitos carnívoros, mas convém não dizer, assim de sopetão, a idade da vítima.
Brincadeiras à parte, a declaração vinha para esclarecer que a carne de um carneiro ‘maduro’ pode tão deliciosa quanto a de um cordeiro – que é abatido com 120 dias, em média – quando o animal é bem tratado. E era.

Três chefs cozinham em uma cozinha rústica e bem iluminada, com uma bancada de madeira e utensílios de culinária.

Rimando com o conceito orgânico da casa, há cidras de baixa intervenção, uma parceria com uma microcervejaria local e vinhos naturais; alguns melhores, outros bem difíceis. O espumante foi “funky” demais, mas tomamos rótulos agradáveis.

Uma sobremesa decorativa em uma tigela branca, com camadas de creme ou mousse e pétalas de rosa em cima, servida em uma superfície de madeira.

Seguimos com a vieira de pesca artesanal, com rabanete branco e caldo de rosas. Nunca imaginaria que desse certo, mas era delicadíssimo o todo, com rabanetes que não deixam a textura ficar enjoativa.

Prato gourmet com uma mistura de vegetais frescos, flores comestíveis e uma base de molho verde, servido em um prato redondo sobre uma mesa de madeira.

Então, veio um dos melhores pratos da sequência; uma poesia em forma de abobrinhas – as primeiras da estação, disse o chef – com margaridas e menta. Carrego a textura crocante dos legumes e o frescor dos sabores até hoje.

Um prato elegante com um molho laranja sendo derramado de uma jarra, sobre guarnições de legumes coloridos.

A lagosta vinha com a cenoura mais doce e tenra do planeta – a híbrida sugarsnax 54 –, além de abóbora duschesne e folhas de pimenta. Estava bom, mas o molho fermentado ofuscava um tanto o crustáceo.

Prato de comida gourmet apresentando uma salada com folhas verdes, fatias de vegetal e flores comestíveis, servido em uma louça rústica sobre uma mesa de madeira.

Na sequência, polvo com duo de beterrabas – a badger flame e a avalanche – com anis hyssop, em caldo delicadíssimo. Como já escrevi outras vezes, a alta gastronomia está fugindo de polvo por conta da pesca de pote, que está exterminando com as fêmeas. Ali, explica o chef, só serviram porque foi um bycatch da pesca da lagosta. As beterrabas eram inacreditáveis demais, coisa de outro planeta, com seu caldo assado e caramelizado lentamente. Espetacular.

Prato elegante com uma composição de folhas verdes e fatias de vegetal, servido em um prato de cerâmica sobre uma mesa de madeira.

Depois, um robalo pescado com linha, aspargos, kohlrabi em molho de azedinha e urtiga, bem executado.

Prato de carne com fatias de vegetais como rabanete e uma folha grande verde, em fundo de mesa de madeira.

Finalmente, o carneiro macio, claramente bem tratado, não partiu em vão. Veio com nabo temari vermelho – um híbrido mais doce que o normal – e flor de sabugueiro. Na foto, antes da regada do seu caldo profundo.

Um prato com uma sobremesa verde em uma tigela artesanal, acompanhado de um arranjo floral colorido em um vaso de cerâmica.

Nos doces, um sorbet de verbena limão, como pré-dessert ácida, em contraste com a sobremesa de morangos verdes do jardim, com o tradicional pudim local e merengue de ervas da horta. E não, você nunca comeu morangos… Os da Cornualha são considerados alguns dos melhores que há, com alto teor de açúcar. Eu não comeria outra coisa de abril a agosto.

Bolo de sobremesa em uma tigela com morangos, folhas verdes e pedaços de um ingrediente branco, enquanto uma colher toca o prato.

Fora o tempo entre os pratos, longo demais, a refeição foi perfeita em todos os sentidos: procedência, criação, execução, propósito, ambiente e serviço.
Dan Cox acredita que quanto mais se regenera o solo, mais sabor o alimento tem. Não só concordo como sou a prova viva; alguém que escreve sobre comida há anos e garante que os ingredientes dali tinham muito mais sabor.

Assim, terminava uma das melhores refeições do ano. Saí querendo voltar.

Fim

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[Abaixo, um vídeo sem a menor vocação para o sucesso, que não sabia que seria postado…]

Uma pessoa segurando uma garrafa de vinho com rótulo artístico apresentando um polvo e o texto 'Beck Ink'.
Estufa coberta com rede, contendo mudas de plantas em mesas de cultivo.
Vista interna de um viveiro de mudas, com plantas verdes em bandejas sob uma cobertura de lona verde que filtra a luz do sol.
Flores pink em um jardim com uma cerca ao fundo e céu azul.
Entrada de uma estufa, com paredes de plástico transparente e uma estrutura de madeira, cercada por plantas verdes.

Lisboa, debaixo d’água – um roteiro de restaurantes

Vista panorâmica de uma praça em Lisboa, com um monumento ao centro e edifícios históricos ao redor. Pessoas caminham e se sentam nas escadas do monumento, enquanto nuvens brancas pairam sobre o céu azul.

Fui perseguida por Ingrid, maltratada por Joseph, stalkeada por Kristin, e me aborreci com Leonardo. Por sorte, Marta não me alcançou.

Prática comum nos EUA, batizar tempestades agora é moda em Portugal. Como “amigos’ que não anunciam a visita, essa turma me fez inesperada companhia nas três semanas em que estive em Lisboa, trazendo ciclones que me empurravam pelas ruas, granizo que mirava em minha testa (é grande!), e pôças gigantes que me distenderam minhas coxas.

A verdade é que desastres climáticos não ficam mais ‘fofos’ quando batizados, mas são práticos na hora do xingamento.

Felizmente, há restaurantes.

A VOLTA (INEVITÁVEL) AO PRADO

Placa com o nome 'Prado' em frente a edifícios históricos em uma rua iluminada pelo sol.


A saudade era tanta que enfrentei bravamente os 30 minutos de ventos a 120km/h na caminhada do Príncipe Real até o Prado enquanto os cabelos açoitavam meu rosto. Cada passo vencido foi motivado pelas lembranças da última visita, fosse o estufado de boi Barrosã; um ovo de codorniz escorregadio e sedutor com cremezinho de cogumelos cheio de umami e…. PAF! Vira o guarda-chuva pela décima vez.

Força, Cristiana! Em breve haverá vinho!

O Prado é meu porto seguro, desde 2019, por um sem-número de motivos. O salão, nas lindas mãos da competente Becas, flui rapidamente e sem afetações, rimando com a casa. O serviço de vinhos está à altura da carta que é das minhas preferidas na cidade, com equipe muito bem-preparada para entender o cliente e traduzir seus desejos, não à tôa são “ouro” na Star Wines List. Por fim, adoro o esquema de pequenos pratos que acomoda fomes e bolsos P, M ou G.

A cozinha de António Galapito passa longe da cansada e apelativa fórmula “trufa / caviar / wagyu / foie gras”. Ao contrário, tem foco na criação, sempre com os melhores produtos, frescos e da época, vindos dos quatro cantos de Portugal.

Nas duas visitas que fiz nesta viagem, saí com vontade de voltar, fosse para a abóbora manteiga com soro de queijo de cabra, brioche e pistaches; quem sabe, para as gambas da costa fresquíssimas com maçã verde, azeitonas e alcaparras e caldo perfeito de algas kombu. Uma poesia. Também não esqueço da enguia defumada com manteiga de cabra, tupinambo e trompetas negras, com ‘peso’ ideal contrabalançar o olhar gelado de Ingrid, pela janela. O colágeno da aleta de robalo com mexilhões [foto abaixo], emulsão de alho e coentros, parecia um lip gloss, perfeito em acidez, equilibrado e denso.

[Faço aqui uma pausa ranzinza sobre o atum]

“Atum de cativeiro sabe a cavala”, disse Galapito. Em português brasileiro, quer dizer “tem gosto de cavala”, isso porque o peixinho cavala é grande parte da ração do peixão atum.

Mais do que ninguém, NADA tenho contra produtos de cativeiro, já que a avassaladora maioria não entende a diferença. Digo o mesmo sobre o gosto metálico das ovas do esturjão industrial ou da falta de firmeza e personalidade do camarão de tanque. Se ninguém nota, tanto melhor para o planeta, mas há quem venda gato por lebre, exibindo peças insípidas como troféus, com margens absolutamente incompatíveis. Um grande retrocesso para o setor.

Pois bem, ali era selvagem e fresco. Vinha com suco de pimentões grelhados, vinagrete feito de óleo de pimentões defumados e garum de salmonete. Estava, realmente, de chorar.

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Prato com peixe grelhado, decorado com ervas e legumes, servido em um restaurante, com água, pão e óleo de oliva ao fundo.

O sommelier do Jura me recomendou um dos melhores rótulos da viagem: um branco feito com a uva ‘galego dourado’, autóctone de Portugal, muito aromático e gordo na boca, cheio de tangerina, maçã verde, mineral e salino, que acompanhou lindamente vários pratos. Era um Quinta de San Michel 2023.

Sugiro encomendar um vento a favor, na volta.

BROTO

Um prato com fatias de peixe grelhado e um cítrico sendo ralado sobre elas.


Tem cinco meses, a criança.

A casa recém-inaugurada de Pedro Pena Bastos, no Chiado, também serve pequenos pratos. Provei de tudo um pouco e voltei para os que casaram comigo.

Repeti a tarte de vagens e ervilhas com requeijão defumado, alho frito e noz pecã, pequenina e livre de culpa, para se comer quase de uma vez só.

Também repeti o pregado curado, com delicado molho de tangerinas – da época – e purê de brócolis, que muito me lembrou as preparações do Ocyá, no Rio. Da segunda visita, o peixe era sarda, também muito boa.

Como toda a casa que que engatinha, houve pequenas inconsistências entre visitas, mas nada grave, como a molhenga de tomates com ovos orgânicos de galinha pedrês (carijó), paiola, óleo de feno e salada de mizunas, que na primeira visita foi um prato “familiar”, caloroso e inesquecível, da segunda, foi menos feliz. Ainda assim, voltaria para testar uma terceira. Molhenga é o molho untuoso da francesinha e paiola é a carne do porco sem gordura, maturada por 48hs.

Prato de comida com folhas de couve sobre um pedaço de carne, servido em uma tigela branca com molho escuro.

Me encantei com a salsicha de porco com couve lombarda, purê de batata e molho do cozido. Uma delícia. A preparação é comum ao Inverno de toda a Europa, sejam chamados de “embrulhos de couve”, em Portugal, ou “choux farci” na França, e por aí vamos… mas a diferença está na profundidade do caldo do cozido, no ponto perfeito da couve, na qualidade do animal. Lembrei uma versão com foie gras e pistaches que comi no Les Parcelles, em Paris, sobre a qual escrevi aqui, e que sempre ficou na memória. Pois bem, acabou de perder o pódio… Ah! E não se esqueça de pedir o pão, para não perder uma gota do caldo do cozido, e me agradeça depois.

Memorável, também, a sobremesa de cacau 75% de São Tomé com sorvete de pinheiro (delicioso, e lembrava abacate), umas raspas de laranja, rega de azeite fresquíssimo e pinhões.

Vale sempre investir nos queijos portugueses, e ali há ótimos.

A carta de vinhos é muito simpática e a sommelière argentina, uma presença atenta no salão.

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FLAMMA

A brasa, que batiza a casa, fez do seu perfume um companheiro à mesa. Sua “presença”, de início, me incomodou. Cabelos e roupas eram defumados aos poucos, olhos lacrimejavam e a fumaça se interpunha entre os aromas do meu vinho e eu, como um chato que interrompe a conversa. Depois do breve desconforto inicial, a história foi outra.

Um prato elegante com espetinhos de carne ou frutos do mar, servidos em um molho cremoso e decorados com cebolinhas picadas.

Achei o Flamma surpreendentemente barato para a criatividade e ingredientes que oferece. A chef brasileira Alessandra Borsatto – que passou por casas pesadas como as de Alexandre Silva, Avillez e Henrique Sá Pessoa, além de uma temporada em San Sebastián – é apaixonada por comida japonesa e pintxos e consegue fazer milagres numa retaguarda mínima, onde reina o carvão vegetal, de cascas de coco.

ZERAMOS um cardápio de mais de 20 itens, feito de espetinhos na brasa, cheios de latinidade e com muita presença de vegetais, que poderiam me distrair um dia inteiro. Entre eles, sonhos de parmesão com pasta de caju e ají; um milho baby na grelha – que gostei bastante – com pipoca, emulsão de milho frito, tajín (cítricos e malaguetas desidratadas) e talos de cebolinha por cima. Gostei, ainda, de um sashimi de atum balfegó que vinha em espeto, sobre um molho Nikkei que misturava leche de tigre, malaguetas, óleos de gergelim e soja, flocos de alga nori e cebola fresca. Também muito bom o caranguejo de casca mole, empanado em tempura delicada para não roubar sua textura, que vinha sobre um escabeche diferente, feito com tamarindo e sementes de coentro. Nas carnes, coração de frango na marinada anticuchera de especiarias brasileiras, e uma farofa de mini-milho para chuchar o espeto. Junto com o angus na brasa com alho frito, tratou de matar as saudades de casa.

Entre as sobremesas, gostei muito do marmelo com queijo coalho e a folha “limonada” que tem o nome mais simpático da vida, a lúcia lima, que vai ao carvão, e volta sobre um leite condensado com erva-mate e praliné de sementes de girassol.

A sala também merece destaque.

João Marujo, figura simpática e carismática, além de marido e sócio da chef, era quem fazia a recomendação de vinhos no Canalha. Agora, é excelente interpretador de desejos no Flamma e nos deu dicas absolutamente precisas de vinhos de baixa intervenção, a começar com o espumante do Loire, Bellivière Lei P’Tits Vélos extra brut, cheio de maçãs no nariz, fresco, leve e ótimo custo-benefício e, também, um palomino salino, cítrico e mineral chamado Sotovelo, que escoltou muito bem nossa viagem no prato.

Voltarei um dos 8 lugares da calçada, se o tempo permitir, mas naquele dia, Joseph, Kristin, Lorenzo ou Marta, já tinha feito reserva.

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JNCQUOI FISH

Uma mão segurando uma panela de cobre com risoto, adornada com ervas frescas, sobre uma superfície de mármore.


Fui nadando, na companhia de Joseph, até a Avenida da Liberdade.

Depois de tantos cardápios parrudos capazes de fazer o corpo vencer o frio, senti falta do mar; e o Inverno é grande época para os peixes, mais gordos e saborosos.

Na elegante JNcQUOI House, townhouse portuguesa que é parte do grupo que inclui 8 restaurantes entre Lisboa e Comporta e mira no “luxo”, acabam de inaugurar dois restaurantes que homenageiam o Atlântico: o Fish, no térreo e o Table, um balcão de 10 lugares no subsolo para uma experiência mais gastronômica.

Luxo ali, para mim, não é o celebrado caviar no bolinho de bacalhau ou o hot dog trufado, é ter inúmeros peixes recém-pescados me espiando do balcão gelado e a excelência das preparações de Filipe Carvalho [foto], que provei.

O atum laminado vinha gordo, delicioso, com aipo rábano, cítricos e ovas de truta; o peixe-rei, que não está no cardápio impresso, mas está na época, vinha inteiro, fritinho, com maionese de kimchi e lima – viciante (!); a gema gorda dos ovos de codorniz estrelados com carabineiros ao alho estalava na língua; e o arroz de lavagante vinha mergulhado em caldo delicioso e denso. Por fim, provei um delicado peixe-galo ao sal, num dia, e um linguado gordo, no outro. Escrevendo essas linhas, já quero voltar.

O serviço no Fish é impecável e atento. Sob a batuta do gerente geral do hotel, Morgan Inesta, recém-chegado do grupo Ducasse, em Paris, garçons, maîtres e recepcionistas dançam um afinadíssimo balé. Fiquei hipnotizada por um rapaz que limpava obsessivamente a borda de um prato.

Nos vinhos, ninguém menos que Filipe Wang, um dos melhores sommeliers de Portugal, na minha opinião. Ignorei a presença de Joseph e me atirei, de olhos fechados, nas harmonizações precisas. Entre vários copos, passeei pelo Listrão dos Profetas 2024, do Maçanita; por um espetacular weissburgunder Wasenhaus 2023, um porto da safra de Wang e.. Pasmem!, tinha Ratafia JmSélèque.

Por favor, não deixem de pedir a gordice que é o pão de leite no forno com creme inglês.

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JNCQUOI TABLE

Chef apresentando pratos em uma cozinha moderna, com garrafas de bebida ao fundo e um prato de comida na mesa.

A dupla de Filipes também está no subsolo, encantando no JNcQUOI Table. Ali, o menu-degustação teve belos momentos:

Uma sapateira com santola e abacate, nasceu para o salino e crocante côteau champenoise Les Mesnil sur Oger do Robert Moncuit, que se sentou ao seu lado. Também houve um delicadíssimo camarão marreco em tartare, com gel de ponzu e maionese de sriracha. Igualmente memorável era o atum com maionese de pepino, sorvete de alcaçuz, crocantes de maçã granny smith, uma pimenta tão necessária quanto delicada, e alcaçuz muito sutil. Dos pratos mais criativos da noite. As vieiras vêm com couve-flor, caviar ossetra e espuma de manteiga noisette com toque de vinagre de jerez, e muito combinaram com o branco português de altitude, da Susana Esteban, que estagia sob uma camada de véu e tem na boca toques de curry e maçã verde.

Pausa para dar foco a um brioche delicioso, com manteiga francesa extra-seca e crosta estaladiça, como num brioche suíço.

Um pão folhado dourado e macio em um prato preto, com uma garrafa de vinho ao fundo.

Adorei o tortellini de rabo de porco e trufas com crocante de parmesão, espuma de manjericão e presunto, com o contraponto da ervilha lágrima de cozimento perfeito e lagostins de qualidade excelente. Uma festa de muitas camadas e texturas. Ótima surpresa o narai kinmon da Suginomori, um junmai daiginjo delicado, que apesar do polimento e das lindas notas florais, ainda tinha delicado umami. Acompanhou um salmonete com escamas crocantes, diferentes texturas de tomate, lingueirão, feijão verde, molho de caril de ervas e um maravilhoso e denso molho de espinhas e fígados do salmonete. Poderia tomar um balde.

A sobremesa poderia facilmente ser o Madeira Terrantez 20 anos da Henrique & Henriques, mas adorei o frescor da pré-dessert: uma sopa de lima, cremoso de hortelã e sorvete de casca de limão. Depois, tangerina com creme de café e pó de amêndoas, e três folhinhas de cidreira que fizeram toda a diferença para levantar o todo.

O Jncquoi Table é onde a base francesa clássica encontra os incríveis peixes e frutos do mar de Portugal. A manteiga está por todo lado, mas de forma equilibrada e sem atropelar o produto.

Ah! Se todos fossem assim…

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KHAYYAM

Ambiente de jantar acolhedor com mesa coberta por toalha branca, duas cadeiras confortáveis e decoração com plantas, tapete colorido e prateleira cheia de objetos variados.

Como Kristin não largava do pé, cobicei uma viagem por climas áridos.

É um luxo ter uma boa comida iraniana, em LIsboa. O Khayyam tem sabores originais, com uma profusão de tâmaras, almondegas suculentas com especiarias originais e iogurtes.

A cozinha iraniana tem muitos vegetais, frutos secos, além de carnes de frango ou vaca em kebabs ou ensopados. Sobretudo, tem muito arroz e açafrão.

Logo de entrada, as pastinhas com tiras de um pão da casa (que parece o barbari, achatado e comprido, de crosta dourada, mas macio por dentro), podem nos fazer companhia até o fim da refeição. O mast-o-moussir, por exemplo, é pasta feita com iogurte bem denso feito com echalotas persas, secas e vinha decorado por pequenas pétalas de uma flor que não investiguei.

Cada província, no Irã, tem seu jeito de preparar almôndegas. Minhas koofteh, grelhadas por fora e macias por dentro, eram de vitela, com arroz muito perfumado, um tanto de açafrão, lentilhas bem firmes, tâmaras e cebolas caramelizadas. Não se consegue parar de comer. O arroz basmati é muito perfumado – demora 4 horas para ficar pronto – e tem menos carboidratos por conta do número de lavagens. Alivia a culpa?

De quebra, há muitas opções vegetarianas com perfumes persas. Aliás, e nada a ver com nada, descobri que zeytoon é azeitona….

Como um pequeno bistrô iraniano de bairro, de comida simples, mas saborosíssima, o restaurante tem tapetes pelas paredes, pelos encostos de cadeira, chãos e mesas. Um projeto da acadêmica Sépideh Radfar, professora de Iranologia da Universidade de Lisboa, tem ótimos menus a preço fixo no almoço, para bolsos de todo tipo.

Sinceramente, um achado.

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CANALHA

Fachada de uma loja chamada 'CANALHA', com grandes janelas exibindo prateleiras e copos. Interior iluminado com utensílios de cozinha e um funcionário visível ao fundo.

De frente para o Tejo, a cobertura do MAAT me pareceu o guarda-chuva ideal para os violentos baldes d’água despejados por Joseph, sobre a cidade. Quando o tempo deu uma trégua, subi ao telhado do museu e entendi que, a partir de lá, se pode atravessar uma ponte sobre os trilhos que desemboca pertinho de uma das tascas mais queridas de Lisboa: o Canalha, Shangrilá do estômago.

João Rodrigues é, seguramente, um dos melhores chefs do país, que tem ali um projeto simples e adorável. Comece com o clássico bolinho de bacalhau; ou ainda os pasteizinhos de perdiz, muito bem temperados; os ovos de gema densa, com deliciosa sobrasada e cogumelos e o suco da cabeça de carabineiros despejados sobre eles; também o robalinho, se estiver na época, fresquíssimo e inteiro; ou mesmo um ribeye de chorar de bom com batatas ótimas. Ah! Para quem “sweet tooth”, há doces – e muito, muito doces. Não espere grandes acompanhamentos. A proposta ali é ser um restaurante de bairro excelente, com ingredientes sazonais. E entrega.

Fica aqui a dica de um programa casado.

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MAR

Prato de frutos do mar com lagostas e camarões em uma panela de metal com alça.


MARÉ, de JOSÉ AVILLEZ (Cascais)


Os restaurantes que vão da Boca do Inferno até o Guincho, com a exceção do estrelado do Fortaleza do Guincho, com seus menus-degustação, não têm exatamente foco em criação. Brilham pelas preparações clássicas que valorizam o ingrediente puro do Atlântico, avistado em ondas que explodem logo abaixo de nossas mesas.

Com os vizinhos Mar do Inferno e Monte Mar fechados para o Inverno, o Maré, de José Avillez parecia o ponto de encontro de todas as famílias de Cascais, que se reúnem em torno dos peixes.

Tenho uma relação afetiva com o Mar do Inferno, com seus peixes fresquíssimos expostos pelas vitrines, e assados inteiros no sal. No Maré, há poucas opções de peixes inteiros. São servidos em postas, e sempre na brasa. Então, meu foco ali foram os frutos do mar.

Gostei das gambas da costa, realmente frescas e de sabor muito doce, que estavam na sugestão. Também adorei as bruxas, pequenas primas da cavaquinha, conhecidas como cavaco-anão ou santiaguinho [foto]. Totalmente locais e abundantes por ali, e estavam bem cheias de sabor.

O serviço foi excelente e acolhedor, como o espírito da casa. Bela carta de vinhos.

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BAR DO FUNDO (Sintra)

Tomamos coragem de encarar aquele manto branco do céu antes que arrebentasse, e apresentar Sintra aos filhotes enquanto Tempesta – a deusa das tempestades –, distraída, distribuía tarefas para Leonardo e Marta.

A ideia era passar pelo Palácio da Pena e Quinta da Regaleira e almoçar em “qualquer lugar”, sem muita pesquisa. Pois bem… O “lugar”, ofendido, respondeu.

Não esperava muito do Bar do Fundo, além da bela vista, mas o todo me arrebatou. Comida correta, serviço simpático, as montanhas que mergulham no mar, e o deque de onde se avistava aqueles 50 tons de cinza.

O casco de sapateira recheado estava ótimo, assim como o correto arroz tostado de carabineiros. No copo, voltei à vinícola San Michel para um Malvarinto de Janas 2023, fresco e delicioso.

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VINHOS

Interior de um restaurante com mesas cobertas por toalhas brancas, cadeiras de madeira e velas acesas. Ao fundo, uma prateleira com garrafas e uma janela que revela um ambiente externo iluminado.


BAR ALIMENTAR

Cheguei às 19, numa casa vazia em que me lembraram que eu teria de ceder o meu lugar em 2 horas. Quando parti, às 20:30, havia apenas 4 lugares – e só no balcão – em meio a uma casa lotada.

Bar Alimentar é o nome perfeito para aquele canto. O ambiente é uma graça, com paredes branquinhas, iluminação gostosa, música boa e luz baixa, distribuídas entre os pequenos salões, gostosos de estar. Num deles se pode, inclusive, sentar junto à vitrine para namorar o movimento da cozinha.

A reserva é obrigatória nesse bar de cheia de gente bonita, com comida superior à média, para uma casa de vinhos – aliás, como o Bar Belisco, no Rio.

Era delicioso e equilibrado o crudo, com toques cítricos, mas doces, no auge da época. Segui a sequência sugerida por João, barman dublê de cozinheiro e garçom, e não me arrependi. A língua vem bem assada e muito farta, num pão de fermentação natural, com salsa verde e malagueta. Para grandes fomes.

O grande acerto da última visita, no entanto, foi uma equilibrada salada de Inverno, com tupinambo e stracciatella fazendo um creme na medida, leve como um iogurte; tudo em temperatura ambiente. A hortelã nos tira do Inverno e faz lembrar que é uma salada.

Nas duas vezes em que lá estive fui muito bem atendida, tanto por Vasco quanto por João.

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PARRA

Mesa redonda de mármore com talheres e copos, cercada por duas cadeiras vermelhas, em um restaurante com vista para uma rua externa através de uma janela de vidro.

Apesar de haver opções de pequenos pratos e, por vezes, pop-ups de chefs convidados, a ideia ali é tomar um copo, ou vários, levar uma garrafa, ou várias, de um estilo, ou vários.

Com sorte você encontra o sócio, Artur Emashev, para ótimas dicas e bom papo.

Artur é um sommelier russo, que saiu do país quando a guerra começou. Foi gerente geral de um grupo de restaurantes em São Petersburgo – a capital gastronômica do país – e. apesar de seu wine bar lisboeta ter apenas dois anos, já está redondo e com muita qualidade. Tem excelentes produtores, que conhece pessoalmente e um profundo conhecimento que repassa para a equipe, num salão feito majoritariamente de ucranianos e russos. Em breve, a loja ao lado será adicionada ao projeto, já bastante feliz.

Da última visita, o Champagne de Montagne de Reims: Chartogne-Taillet Sainte Anne foi ótimo custo-benefício. Extra-brut floral, mineral e cítrico.

Passeei pelo Saint-Roman Sarnin Berrux 2017 e parti, em seguida, para um surpreendente vinho da Toscana, projeto pessoal de Federico Staderini, chamado CUNA. A pinot fin, antigo clone da pinot noir e uva cult do momento (badalada na Borgonha por Arnoux-Lachaux, Romanée Conti, entre outros), faz esse vinho marcante, mas elegante, com cerejas maduras, violetas e especiarias. Foi sugerido para acompanhar o veado da sugestão, com castanhas, purê de aipo e marmelo, prato concebido pelo chef Hugo Candeias, que fez um pop-up na casa.

Fiz reverência a um Madeira, como sempre. Era o Barbeito Single Harvest 2011. Além dele, coisa linda foi o riesling austríaco da Loimer, um TBA 2019 cheio de damasco e limão.

Também houve um Vigna del Volta, da espetaculosa Elena Pantaleaoni, O Parra é distribuidor exclusivo dos rótulos La Stoppa.

Não é bobo, não, esse Artur.

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ROCCO

Homem vestindo um terno preto e gravata, sorrindo e parado em um corredor com prateleiras de vinho ao fundo.

Não falo da comida, e sim dos vinhos; em especial da experiência da última visita aos banheiros.

Sim, os banheiros do Rocco já têm grande fama, com seus papéis de parede cheios de plantas e flores, com tantos espelhos que chego a ficar tonta. Já presenciei tiks e mais toks, poses, bocas e pezinhos por ali. O que nunca tinha visto – et ça m’interésse – era o mundo de garrafas que se esconde na adega atrás dos lavabos, como uma passagem para outro mundo. Essa sim, fez a cabeça girar.

Quem desce as escadas vindo do lobby do hotel Ivens, chega até lá diretamente. Já quem desce do restaurante, faz a curiosa passagem espelhada e florida, por entre pias e toalhinhas, que considero bem mais divertida.

Depois de um ótimo atendimento no restaurante e um monte de perguntas minhas sobre os copos indicados, o gentil sommelier Antonio Roxo fez um tour pelas prateleiras da adega, feita predominantemente de clássicos para um público idem. São champagnes, vinhos verdes, brancos, tintos ou de sobremesa, fortificados ou licorosos, de Norte a Sul de Portugal, além de rótulos italianos, franceses, neozelandeses, que incluem também grandes nomes do Mundo, como Château Margaux, por exemplo, ou jóias como vinhos Madeira especialíssimos, de lotes de apenas 600 garrafas. Há, ainda, curiosidades como a garrafa única do Czar 1999, da Ilha do Pico, o vinho tinto tranquilo com mais álcool do mundo: impressionantes 19% sem açúcares ou leveduras adicionados; também uma pequena pipeta que sobrou de um lote de ABF do Vallado, de 1843.

Achei a Disney no subsolo.

Troquei o balde de chuva que caía lá fora, por outro de saliva, cultivada ao longo de torturantes dois minutos e meio de montagem cuidadosa e bem narrada, de um delicioso tiramisú, no restaurante.

Encerro aqui a temporada de 2026, numa cidade que me impressiona cada vez mais pela qualidade média dos produtos e pescados, e pelo nível da hospitalidade.

Mesmo sem poder flanar pelas ruas, os restaurantes foram as mais lindas bóias num oceano vertical sem fim.

Todas as fotos dos pratos, vinhos e ambientes descritos acima podem ser vistas nos destaques “Lisboa 4” e “Lisboa 5” no meu Instagram crisbeltrao.

Alugue um escafandro e mergulhe.

saiba mais sobre o Rocco

Vou me embora para a Cornualha – Outlaw’s Fish Kitchen – Port Isaac, Inglaterra

Vista da costa de Port Isaac, na Cornualha, com casas em um penhasco verde e um pequeno cais no mar, sob um céu nublado.

Em abrigos instalados no alto dos penhascos, era esse o brado dos ‘huers’ quando o primeiro cardume de sardinhas do ano era avistado, lá pelo fim de julho. Dali até outubro, eram tensos os dias de silêncio, que determinavam se o estoque de Inverno seria gordo ou magro.

O mesmo grito que preparava homens e mulheres para a ação, também batizou um bolo denso e quebradiço de groselha que existe ainda hoje – o havva cake – que costumava receber os pescadores, como um abraço, depois de um exaustivo dia de pesca.

No trem que me levou até a Cornualha, li sobre os séculos da relação de Port Isaac (e de toda a península) com a sardinha.

Na época dos Tudors, era tão importante para a economia da Inglaterra, que o Estado baixou várias regras para incentivar sua indústria, como dias nacionais de jejum de carne no país ou a proibição da salga do peixe para coibir sua exportação.

Depois de breve estudo dos cardápios da cidade, me sentei no Outlaw’s Fish Kitchen com a pergunta encomendada: “Por onde anda a famosa sardinha, se não vi em lugar algum?”.

O garçom respondeu, meio espantado com a minha ignorância, que talvez tenha visto umas duas vezes nos bons restaurantes da cidade, na sua longa vida de pouco mais de 20 anos.

“Estão associados a grandes barcos de pesca industrial. Aqui não fazemos mais…”.

Somos cupins dos oceanos, pensei.

Quando a sobrepesca e as mudanças climáticas fizeram com que a sardinha rareasse no fim do século XIX, foi a vez do arenque sumir, só que mais rápido, lá pelos anos 40.

Duas mulheres observando o cardápio na entrada do Outlaw's Fish Kitchen, um restaurante de fachada branca com janelas amplas, localizado em Port Isaac.

Nestas décadas, sua importância para o vilarejo foi tão grande que acabou por cunhar um ditado local: “Pago quando os arenques chegarem!”. Até hoje, vê-se as chaminés de defumação, já que o sal para conservar o peixe não era abundante até a conquista normanda, no século XI.

O restaurante fica numa das casas mais antigas de Port Isaac, uma construção do século XV lindinha e de pé direito baixo, bem de frente para o pequeno porto em forma de ferradura, do qual irradiam ruelas sinuosas e estreitas em escalada infinita, como artérias que dão vida aos penhascos.

Vista do porto de Port Isaac na Cornualha, com barcos ancorados e casas brancas ao fundo sob um céu azul.

As águas do Atlântico entram e saem do porto, duas vezes por dia, deixando os barcos tortos como peões que tombam de lado na areia, na maré baixa. À toda volta, as casas branquinhas ou de ardósia olham para o porto como quem espera peixe. É assim nas dezenas de vilas de pescadores pelas quais passei na Cornualha, comunidades costeiras que conectaram a Bretanha com o mundo.

O salão pequenino do Outlaw’s Fish Kitchen, todo branco, de uns parcos 15 lugares, é adorável. O cardápio dizia: “estamos comprometidos com a compra dos melhores peixes e frutos do mar da costa córnica, que aportam aqui diariamente e usam métodos de baixo impacto que preservam e asseguram o futuro do nosso ambiente marinho. Não abrimos mão da qualidade ou da sustentabilidade.”. Um dia verei isso pelo Rio de Janeiro inteiro, pensei. Antes que chegasse a conclusões, pedi um vinho.

Interior do restaurante Outlaw's Fish Kitchen em Port Isaac, com mesas de madeira, cadeiras brancas e decoração náutica nas paredes.

O serviço é eficiente e amigável, características que nunca entendi serem excludentes, por vezes.

A casa tem um prato clássico: um cozido de peixes para a mesa toda, feito de tamboril, polvo e trilha cozidos num caldo de camarão com linguado, ervas e especiarias, acompanhado de uma maionese de anchovas com açafrão. Não tive coragem de me comprometer com uma coisa só, mas a ideia do prato ainda invade meus sonhos. Peçam e me contem.

Ao contrário, começamos anchovas em picles, azeite e limão, de uma simplicidade perfeita, com o pão idem.

Prato de anchovas em conserva com ervas, servido em uma mesa de madeira, com pratos e talheres ao fundo.

Em seguida, as ostras (a mesma variedade do Pacífico que servimos em todo o Brasil), mas ali cultivadas em outras águas. Que bomba de sabor! Com um leve toque de nozes, típico da ostra que cresce ali. Deliciosas!, balofas!, leitosas!, acompanhadas de vinagrete de echalotas.

Prato com ostras servidas em gelo, acompanhadas de fatia de limão e molho de framboesa, com pão ao fundo.

Depois veio o gurnard, peixe que vive no fundo do mar, junto da areia ou das rochas. Ali, com molho ponzu delicado e na medida, valorizando a carne fresquíssima.

Prato com filé de peixe grelhado, ervas e pimenta, servido em um molho escuro, acompanhado de pão de uma mesa de madeira.

Lambi meus dedos ao pegar mais um tanto de pão para mergulhar no molho das vieiras feito de jerez e harissa. Ponha aqui um suspiro…

Fatias de pão integral servidas em uma tigela de cerâmica, acompanhadas de manteiga em um pequeno recipiente, sobre uma mesa de madeira clara.

Prato com vieiras gratinadas servido em cumbucas de concha, com talheres de sobremesa sobre uma mesa de madeira.

Também atacamos um John Dory (não temos aqui, mas é o peixe galo português). De carne branca, mas firme, vinha inteiro sem cabeça, pele e cauda. Bom.

Prato composto por um peixe grelhado com ervas, acompanhado de batatinhas e uma salada com alface e tomate.

A sobremesa é daquelas bobagens afetivas e perfeitas: um manjericão delicado perfumava a pannacota bem pouco doce, com farelo de aveia (nada mais inglês) e morangos de época. Não preciso de mais.

Uma sobremesa em um recipiente branco, com morangos cortados sobre uma camada de farelo de aveia, servida sobre uma mesa de madeira.

Mal terminei a refeição, já queria voltar.

Hevva!

Outlaw’s Fish Kitchen

Um pub de 500 anos – Halzephron, Cornwall

Há tão poucas construções à vista que, da beira daquele despenhadeiro, consegui projetar a vida há 557 anos. E o pub já estava lá. 

O grande programa de um dos primeiros povoados da Cornualha, instalado no vilarejo de Gunwalloe – que existe ao menos desde 1086 – era ver navio afundar. De um dos naufrágios veio parte da madeira dos quartos e do bar da estalagem/pub Halzephron, que fica no topo de um penhasco, de frente para o mar.

Da praia lá embaixo, tesouros de navios espanhóis, portugueses, holandeses ou ingleses foram surrupiados pela população local através dos anos: de conhaques a moedas e lingotes de ouro e prata.

Atrás de uma das paredes da estalagem, um alçapão leva ao túnel que desemboca na igrejinha do séc.XV, ali perto. Dizem que uma das cavernas da praia dava na casa de um contrabandista local.

Pensava nos 5 séculos de história que a casa avistou, enquanto goles de Porthleven, pale ale da cervejaria local Skinners, escorregavam pela garganta.

Passeei pelos salões de pé direito corcunda, abaixando a cabeça a cada vão de porta e admirando objetos náuticos amontoados por todo lado. Nas paredes do cômodo nos fundos, fechado para o almoço, várias pinturas de navios e mesas com toalhas engomadas, em azul marinho e branco, claro. De frente para a minha mesa, no bar, a foto do avô do dono, um pescador com rede, cesto e cachimbo, me espiava.

Comecei com um chowder (sopa de peixe) pedaçudo e delicioso, com toque defumado que aqueceu e fez esquecer do vento implacável, lá fora e segui com uma salada simples e fresca de caranguejo, enquanto o marido foi de sopa de cogumelos e um corte de alcatra, ambos muito bons.

De sobremesa, a treacle tart, talvez a torta mais doce do mundo, feita de melaço, uma lembrança afetiva do povo britânico. Tá explicado.

O desvio de rota foi lindo. Gunwalloe é um dos 46 lugares na Grã-Bretanha com o selo AONB “área de beleza natural fora do comum”, mas além do pub, igreja e praia, há pouco para se ver, ali.

Na saída, lendo sobre o vilarejo, vi que o último censo há 20 anos trazia a população de 219 pessoas, incluindo os da aldeia vizinha.

Decerto, há mais fantasmas de contrabandistas e marinheiros náufragos, bebendo naquele bar.

Halzephron

Sapatos confortáveis – Bar Crispin, Londres

Close-up of a glass of amber-colored drink on a table in a bar, with a water glass and a bottle in the background. People can be seen socializing outside the bar.

Alguns dos segredos de uma vida feliz: “usar sapatos confortáveis” e “saber de lugares abertos o dia inteiro, com bons vinhos, não tão caros e de boa qualidade”.

Frasco de água no Bar Crispin com a inscrição 'BAR CRISPIN'.

Assim fui parar no Bar Crispin, no SoHo londrino, depois de muito andar para lá e para cá.

Espremidinho na Rua Kingly, o bar tem ‘varandica’ e salão pequenino feito de espelhos triangulares, bancos altos, mesas de zinco e detalhes em rosa, que me lembraram uma decoração futurista dos anos 70. 

O serviço é muito simpático – às vezes distraído –, a comida é boa e a carta é ótima e bem grandinha, feita basicamente de vinhos de baixa intervenção, orgânicos e biodinâmicos, de toda a Europa.

Um prato com fatias de pão integral e uma bola de manteiga fermentada batida, sobre uma mesa de metal escuro.

Pedir o pão é uma alegria, e ela vem com manteiga fermentada batida.  

O pequeno ‘sando’ de camarão é uma bobagem deliciosa. Num pão branco fininho, daqueles que saíram de moda, o camarão empanado vinha com molho cítrico e tempero na medida.

Um mini sanduíche de pão branco com uma croquete empanada e maionese, montado sobre um prato branco.

O steak tartare tem estilo mais gordo e fechado que os nossos, com cominhos e outros tons indianos, sem tanta acidez, valorizando a carne. Gostoso.

Prato com steak tartare servido em um pão redondo, colocado sobre uma mesa de pedra em um ambiente de bar moderno, com iluminação suave e paredes de cor clara.

Já o mackerel (primo da cavala) vinha em porção generosa, chamuscado e oleoso – afinal, assim é o peixe –, com harissa (aquela pastinha de pimenta, que ali tinha um toque de chá e especiarias) e creme azedo fazendo bom contraste. Quando tudo terminar, então você me agradece por pedir o pão.

Prato com fatias de mackerel chamuscado, servido com molho em um cenário de mesa com pão, copo de vinho e utensílios.

Brinquei com os copos do dia, na lousa: um Falanghina Cooperativa Campani 23 simples, fresco e frutado, e um ótimo espanhol, Silice Viticultores Blanco 23, de Ribeira Sacra, feito de treixadura, albariño e Palomino, muito interessante, quase salgado e com muito aroma de levedura.

Um copo de bebida em uma mesa de metal em um bar com prateleiras ao fundo, onde estão dispostos garrafas e utensílios de bar.

O sorvete de aipo com maçã e mousse de creme fresco rimava com o dia, lá fora. Fui a ele, com sapatos confortáveis, claro.

Sorvete de aipo com mousse de creme fresco servido em uma tigela branca, acompanhado de um prato vazio e colheres de inox sobre uma mesa de metal.

Bar Crispin

Melhor não saber. Ikoyi – Londres

À primeira vista, o nome engana: Ikoyi.

Parece japonês e há orientais por toda parte: cozinheiros, garçons e clientes, mas não é: Ikoyi é o nome de uma cidade na Nigéria.

Cozinha de um restaurante moderno com chefs trabalhando em pratos, vitrines de inox e mesa redonda em primeiro plano.
a cozinha aberta e silenciosa

Ninguém consegue dar uma explicação breve do conceito, que seria mais ou menos o seguinte: um restaurante londrino de comida inspirada no oeste da África, mas com especiarias do mundo todo, com foco na micro-sazonalidade de produtos ingleses, misturando “mar e montanha” com uso de carnes maturadas.

Parece confuso? Mas funciona…

Funcionou tanto que, agora em 2025, além das duas estrelas Michelin, acabaram de alcançar o 15º melhor lugar no guia 50Best, a maior subida de posições do ranking, em relação a 2024.

O Ikoyi fica no térreo de um edifício comercial de arquitetura brutalista (voltaram à moda). Passando a câmara de maturação com carnes, aves e peixes, bem na entrada, o salão é um vão em tons neutros, com mesas desprovidas de grandes enfeites com foco na cozinha aberta, no melhor estilo “olhe para a comida”.

Quando as descrições começam, você jura que vai dar muito errado. Veja bem:

Uma pequena tigela branca com molho escuro, contendo pedaços de um ingrediente sólido, sobre uma mesa de madeira.

Começamos com um caldo feito de duas infusões: uma primeira feita de asas de galinha caramelizadas com vegetais e especiarias, e uma segunda, com ervas. No fundo do copo, três sólidos: um shitake glaceado com manteiga de anchovas, um triângulo de beterraba amarela e um naco de pombo branco em picles. No topo, flores de cogumelo e de funcho. Por fim, um pingo de óleo de pimenta gola, de Serra Leoa. E juro… essa escola de samba desfilou lindamente nesse pequeno copinho aí.

Prato minimalista apresentado em um fundo de madeira, exibindo um pequeno montículo de sobremesa com uma base escura, coberto por uma camada de fios finos, ao lado de um prato com design artisticamente abstrato.

Depois, veio uma lula confit numa base de arroz fermentado, enrolada em alga nori caramelizada, para abocanhar de uma só vez. Não sei bem como fizeram para aquilo tudo parecer uma pasta única, que se derretia na boca, mas cheia de sabores escondidos, que se alternavam. Sensacional.

Um prato sofisticado com uma peça de proteína, coberta por espuma, guarnecida com folhas verdes e acompanhada de molhos coloridos em um prato elegante.

O prato de peixes vinha com uma brincadeira de micro molhos, bem diferentes: um era ‘tonnato’ com cheddar e limão, outro era um leite de avelã e por fim um molho de folhas de cassis. Eram um bacalhau de Cornwall e um pregado com maturação de uma semana, em tempura, lambuzados com pimentas fermentadas e salpicados com folhas de mizuna (como uma rúcula selvagem mais picante) sobre uma emulsão de crustáceos e melão. Evolução, alegorias e adereços, nota 10.

E então veio a galinha d’angola.

Lembrei de um cozinheiro cearense, que contava que na sua infância e adolescência, as aves eram como uma praga. Apareciam por todo lado e metia-lhes balas de chumbinho enquanto corriam pelo seu quintal, o que tornava a vida mais difícil na hora de comer, mas era prato cotidiano, já que abundantes no seu Estado.

Prato em um fundo preto com um filé grelhado, acompanhado de legumes coloridos, molho e um copo de bebida ao fundo.

Me perguntei a razão de não mantermos o hábito no Brasil (sem chumbinho, por gentileza) quando chegou uma galinha d’angola cozida à perfeição, com cogumelos girolles, creme de lagosta, cenouras em picles e arroz jollof (delicioso e fora da foto), uma preparação que existe desde 1300, no Oeste da África, feita com especiarias, chilis e tomates.

Ao fim da etapa salgada, já tinha a certeza de que se tratava de uma refeição extraordinária, quando o garçom perguntou: “algum preferido?”, e eu não soube dizer. Só sabia que tinha gemido nos três.

As sobremesas foram interessantes, mas não tão marcantes, especialmente as que levavam alguma massa, sempre um pouco pesada.

Sobremesa apresentada em um prato rosa, composta por um sorbet de cereja, fatias de cereja fresca, um molho escuro e uma folha grande decorativa sobre a sobremesa.

Gostei especialmente da primeira: um sorbet de cereja com noz de kola e trezentas coisas: era açaí, biscoito, limão, cravo, babaganoush (purê de berinjela com tahine defumado, e ali, doce) além de um cítrico que não entendi, um “esmalte” de cereja, creme com baunilha do taiti e flor de sabugueiro em conserva. Em cima, cerejas glaceadas e azedinha com óleo de amêndoas.

Ufa! Deu certo.

Sobremesa apresentando um bolo coberto com uma camada de sorvete em formato de cogumelo, servido em um prato rosa com detalhes em textura.

Depois, um sorvete de manteiga queimada sobre um bolo de ameixa com gengibre e cravo e um caramelo de café, gengibre e cravo. Por cima, mousse de pimenta indiana salpicada de pó de cassis.

Prato de sobremesas apresentando uma fatia de gelatina vermelha decorada com tiras de casca de limão e uma pequena taça com um doce que contém frutas e folhas de hortelã.

Num pratinho, duas sobremesas: um melão honeydew glaceado com mel, enfeitado com açafrão e flor de coentro, que gostei bastante; e uma ganache de chocolate com pudim de cereja, baunilha do taiti, manteiga queimada, amoras pretas e brancas e pimenta vermelha longa.

A harmonização é um assunto à parte e funcionou muito bem. Pode ser feita com vinho, sake ou chá. Pedi vinho e o marido, sake. Tomei ambos a título de “afinal eu escrevo sobre comida” e ambos funcionaram bem com a comida.

Duas garrafas de bebidas sobre uma mesa, uma é uma garrafa de sake japonesa com rótulo em caracteres orientais e a outra é uma garrafa de vinho com rótulo branco e letras pretas que indicam 'TERRE FORTI'.
Um garçom segurando duas garrafas de vinho em uma mesa de restaurante, com um copo de vinho ao lado.

Como destaque, o sake que harmonizou com a sobremesa. No sabor, é doce, mas tem acidez para compensar, e vem com notas malucas de shiitake, castanhas, mel, além de ser muito lácteo. Uma bomba de umami. O sabor inusitado vem de um produtor que levou a fermentação ao limite. O sake Tsuchida 99 usa 99% de koji (o arroz cozido inoculado com o fungo que ajuda na fermentação) e só 1% de arroz, quando a proporção normal é de uns 20% de koji. É uma tentativa de fazer sake como antigamente, pelo método Kioto, tipo de fermentação ortodoxa que existe desde 1700.

Quando descrevi o conceito e um prato para uma amiga, ouvi: “Credo! Melhor não saber!”.

Para alguns, talvez…, mas garanto que tudo está na medida certa. Todas as especiarias do cardápio “se dão muito bem, obrigada”, e as notas picantes tinham sempre razão de ser.

Jeremy Chan, o chef, e seu sócio Iré Hassan-Odukale, estão de parabéns. Ikoyi é um grande (e original) restaurante que quer fazer comida boa e não está nem aí para explicar como consegue.

Informações: Ikoyi, Londres

Três dias em Porto Alegre

Deco, sócio da Komka, a mais tradicional churrascaria de Porto Alegre

KOMKA

A graça que a idade costuma tirar da gente, empresta aos restaurantes antigos. Entrei no Komka, em Porto Alegre, como quem chega na casa de um amigo de toda a vida.

Edesio Komka, o Deco, sujeito alto e simpático, com pais vindos do leste europeu, tem a mais tradicional churrascaria e galeteria da cidade, desde 1967.

No seu bairro, São Geraldo, mais de 4.000 empresas sofreram com as enchentes. Deco perdeu máquinas e outros bens, viu seus funcionários passarem por dificuldades e fez vaquinha para ajudar, mas os horrores da cheia só reforçaram o sentido de “família” de quem frequenta o local, atrás de um bom “xixo”.

xixo de alcatra, salsichão, porco e legumes e picanha no espeto

Me senti abraçada pelo pé direito alto, pelo ladrilho azul que cobria as paredes até a metade, as cristaleiras e aparadores antigos, as pás dos ventiladores girando pelo teto, os galheteiros sobre as mesas, os saleiros de vidro, as travessas de inox. Um alívio num mundo de storytellig.

Me projetei morando ali, indo com a família aos fins de semana, cumprimentando os vizinhos de mesa. Assim faz o casal Flavia Mu e Marcelo Schambeck, do restaurante Capincho, que frequenta o Komka com os filhos, atrás da polenta frita, sequinha – que polvilham com parmesão-, ou das carnes, corações e galetos deliciosos; do amarguíssimo radiche com bacon; ou ainda do incontornável sagu embebido em vinho colonial sobre um flan viciante. É sério, que eu podia pedir 15 daqueles potes. Cada colherada é mais um passo no teletransporte para a infância.

flan, sagu e vinho colonial – uma passagem relâmpago para a infância gaúcha que eu nunca tive
bar do Komka

Talvez eu devesse, agora, fazer uma pausa para explicar que radiche é a nossa chicória; vinho colonial é o de agricultura familiar, da Serra Gaúcha; e “xixo” é o nosso “espeto” de churrascaria, que ali no Komka é gigantesco e pode vir com alcatra, salsichão, porco e legumes.  

Estive em Porto Alegre, este mês. Um destino que nunca considerei “de fim de semana”, com tantas opções, culturais e gastronômicas mais próximas, mas penso sinceramente em voltar e voltar para essa surra de hospitalidade e civilidade que despejo aqui.

detalhes do salão da Komka

Churrascaria Komka


WILLIAM & SONS COFFEE CO.

Ficar no bairro de Moinhos de Vento torna a vida mais fácil.

Dá para acordar e caminhar até o Williams & Sons, para o (meu) tradicional meio litro de café de qualidade no coador V-60, que consigo mais facilmente em casa do que pelo mundo.

Ramon Brisotto

Ali, você pode encontrar o animado barista Ramon Brissotto, um homem grande, acelerado e de colorido viking, que descreve lindamente a curadoria dos produtores de café e explica as últimas técnicas para melhorar a bebida, como gotinhas de minerais que modulam a água, um dos principais componentes da boa xícara. Provei um ótimo café de Haroldo Barcelos, da Fazenda São Lourenço, de Carmo da Parnaíba, primeiro lugar no Concurso dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro e, de quebra, comi o um pão de queijo, a única comida que servem na casa e, felizmente, tão gostoso que inibe qualquer outra vontade.

William & Sons Coffee Co Porto Alegre


CAPINCHO

Todas as dicas que trago aqui vieram de Flavia, Marcelo e Fred, do restaurante Capincho. E o que falar do Capincho?

De cara, existe uma intersecção de almas, de um casal que fundou o Instituto Identidade RS, tão parecido em propósito quanto o meu próprio Instituto Bazzar. O trabalho é manter viva a cultura gaúcha, suas tradições, as receitas de pai para filho, valorizando ingredientes do bioma do Pampa e da Mata Atlântica, que habitam o seu Estado. Com trabalhos em cantinas de escola a palestras, eventos e outros, vão espalhando essa semente tão difícil de germinar, que é a de valorizar o que é nosso.

O restaurante é de um bom gosto ímpar (mãos de Flavia), com ambientes internos e externos, distribuídos por dois andares aquecidos pelos tijolos das paredes, numa casa de 1930.

É indispensável reservar um tempo para morar no bar, que merecia muito mais litragem do que pude dedicar numa noite. Fred Muller, sócio da casa, apresenta uma das coquetelarias mais elegantes em muito, muito tempo. Não tem nada sobrando ali, seja na apresentação ou no sabor, e suas bases – gins, whiskies, sakês, cachaças, vodcas… – bitters e ingredientes, são todos muito bem escolhidos, com a preocupação adicional de usar coisas da região e da estação.  

Como exemplos, o rum da destilaria Alba, em Monte Belo do Sul, que passa por fermentações longas (ao contrário da nossa cachaça) de 30 a 90 dias, com dupla destilação, o que lhe dá profundidade. Ou ainda, o licor Pacomienne, produzido artesanalmente com 40 ervas, sementes e raízes de horto próprio pela Granja Santo Antonio, fundada por irmãos Maristas, que chegaram ao Sul em 1904.

No balcão do Fred, tomei um delicioso Figo Fashion, com Bourbon (uma das minhas bases favoritas), licor de folha de figo, xarope de figo e angostura. Elegantíssimo aos olhos, equilibrado na boca. Sorri ao lembrar que estou a duas horas de avião entre minha vontade de tomar outra dose, agora.

Ainda no balcão, vem Marcelo Schambeck, o chef, com “algo” de Carlos Barbosa (adoro os nomes…). É nessa cidade da Serra Gaúcha que está instalada a Charcutaria Zampa Grigia, que produz o porco moura, nativo, com salames desenvolvidos em parceria com o Capincho.

Num salame comum, a gordura é moída junto com a carne. Ali, a carne é temperada com erva doce e pimenta e depois se acrescenta a gordura do toucinho, que vem em bolinhas cremosas e amanteigadas, prensadas em fatias finíssimas cortadas na hora, como asas de borboleta transparentes que se desfazem na boca. O chef não descarta o mofo branco que envolve a carne, para emprestar aquele gostinho de queijo brie. Produto de uma leveza ímpar. Também no bar, provamos a tradicional copa lombo sulista com sua deliciosa gordura e, por fim, azeitonas gaúchas de Livramento que demoram um ano depois de colhidas para chegar ao ponto, marinadas com laranja, ervas e azeite.

Passando pela vitrine da cozinha, que dá para o salão, vi um balde cheio de macela aguardando o momento de perfumar a marinada de um cordeiro. Fiquei emocionada. A gramínea nativa – que lembra camomila – eu só conhecia pelos sachês perfumados e livros de Monteiro Lobato da infância, já que recheava a boneca Emília. Só podia ser prenúncio de um bom jantar.

Os pratos, servidos à la carte, foram devorados na mesa mais lindinha da casa, num canto junto à janela. Não houve nada “mais ou menos”.

Começamos com um prato vegano com gosto de mar: um tartare feito de pepinos e melões levemente assados, ainda firmes, com óleo de algas cultivadas na Universidade Federal de Santa Catarina – que pesquisa novas fontes de alimento – com pó de tomates. Flores desidratadas da família Bellé polvilhadas por cima, junto com um pouco de gergelim. Adorei.

Em seguida, um caqui fresco – que ali se diz “cáqui” – com coalhada de iogurte, lâminas de caqui chocolate – que é mais firme – com hortelã, manjericão e vinagrete de maracujá para dar contraste, num todo bem picante. A estrela, sem dúvida, é o coquinho de butiá que gosto, mesmo, de coco queimado. Lembrança afetiva do chef que catava os coquinhos caídos das árvores, na infância. Quebrava com pedras e ficava roendo. Eu fiz questão de roer o prato todo.

Gostei muito, e particularmente, da ideia de levar um coração de galinha, comida simples do Sul, para a alta gastronomia. Aliás, os chefs costumam ir a um bar para comer sanduíche de coração com queijo, maionese, cebola e tomate, no fim do turno. No Capincho, vinha salteado, malpassado (nham!) com ervilhas e seu creme ácido como vinagrete, além de um pouco de óleo de salsa. Acompanhando esse todo, um challah na parrilla bem lambuzado com manteiga de alho.

Então, um camarão vermelho argentino na brasa com óleo de pimenta, amendoim e molho de coentro, com tupinambo assado por baixo (tubérculo de outono), dando textura. Por cima, e para a nossa sorte, um trevo roxo e outro, de quatro folhas.

Ainda pegamos lulas, agora no fim da estação, salteadas, com creme de queijo colonial forte e bem curado, com bottarga da tradicional região de Tramandaí. A cidade tem até festa anual da tainha, devorada assada na taquara estendida, com fogo no chão. Para comer junto, um pão tostado com uva e tomate.

O prato de peixe era uma pescada branca, bem suave e fresca, de Santa Catarina. Vinha com batata yacon assada em cubinhos, um quiabo passado na frigideira, com algas – além da salicórnia da UFSC, um alecrim do mar, alga salina potente e crocante. Por fim, shiso com molho de limão e óleo de pimentão.

E não seria o Sul, não houvesse carnes na brasa. A bochecha de porco vinha laqueada com molho à base de demiglace e tomate, sobre purê de mandioquinha branca plantada em Antonio Prado (mais um nome que adoro). Vale dizer que a mandioca amarela não suporta frio. A branca aguenta bem as geadas e tem sabor que mistura coco e salsão. Por cima, folhas de mostarda e vinagrete de pêra pau, a variedade durinha gaúcha.

Estava tudo tão bom que ainda partimos para uma costela do dianteiro assada por 16hs, com manjerona e broto de girassol trazendo um pouco de leveza ao molho potente. Acompanhava uma moranga coração assada (uma variedade de abóbora crioula resgatada pela família Stefanoski, em Cerro Grande), com suas sementes, creme de queijo de ovelha de Santana do Livramento, vinagrete de casca de laranja e folha de aipo. Uma farofa de mandioca acompanhava a costela que foi raspada em lascas que se desfaziam no prato.

costela assada de Angus, por 16hs do dianteiro, laqueada no forno, do Frigorífico Coqueiro, com gado ali do Rio Grande do Sul. Gosta da costela mais alta, não do novilho, com mais nível de gordura entranhada

A gula também deu conta de um prato de 3 queijos de vaca (Madrugueiro, Geada e Origem) e um Santana, de ovelha. Tudo foi regado por mais um drink de whisky turfado com água de flor de laranjeira, vodca, creme de leite e clara de ovo, criado por Fred Muller.

O doce desfecho veio no sorvete de folha de figo infusionada no leite, figo fresco e sua calda, com amendoim tostado.

sorvete de folha de figo

Uma sobremesa bem sazonal (e deliciosa) foi a de abóbora pescoço em sorbet sobre creme de chocolate 70%, de amêndoas amazônicas temperadas pela Magian cacau, ali de POA, com tuille de especiarias.

E ainda, uma sobremesa clássica de merengues que varia conforme a estação. A base é um merengue ácido com vinagre de framboesa, morango, baunilha e raspas de framboesa fresca, com jeito de raspadinha, com quatro suspiros: puro; com calda do morango e baunilha; de cacau com pimenta; e com pó de hibiscos (na estação!) da feira do Rafa do Sítio Capororoca (uma pequena zona rural bem no meio da cidade).

Essa imensa descrição da refeição veio é culpa da pena de abandonar qualquer prato.

Retirem meu excesso de explicação, que existe por necessidade didática. É realmente uma experiência deliciosa e sem afetamento, com muito sabor e isso basta.

E, antes tarde do que nunca, Capincho é o nome que se dá à capivara, no Rio Grande do Sul

Capincho Restaurante


PÂTISSIER – POR MARCELO GONÇALVES

Um lugar que me encantou, absolutamente, foi o Pâtissier. Um bistrô, confeitaria e imenso armazém de coisas lindas, como quadros, móveis, objetos e livros, garimpados ao longo da vida de Marcelo Gonçalves, em ferros-velhos e feiras de antiguidades. Seria ótimo, só “viver” o espaço, não fosse também um clássico da boa mesa de Porto Alegre.

tudo aqui é abraço

Passamos à tarde para um café, uma dose de cachaça e sua confeitaria generosa e afetiva, mas também há pratos salgados, para outros momentos do dia.

o banco feito de embalagens de ovos

Marcelo, sentado num banco – que concebeu, por acaso, a partir das embalagens de 3030 ovos e foi parar numa exposição de arte – conta que achou manuscritos com receitas de sua mãe, que se foi, no ano passado. Do caderninho, provei um naco da divina torta de coco queimado com baba de moça, que só mães e avós sabem fazer.

Também pedimos o mil-folhas de bergamota, de perfume bem intenso. Aliás, peçam tudo de bergamota na cidade. A fruta ali, é outra estória.

torta de coco queimado com baba de moça – impossível dizer “chega”

Pâtissier, por Marcelo Gonçalves


BENJAMIN OSTERIA MODERNA

Por fim, falo do Benjamin Osteria Moderna, um projeto arquitetônico grandioso que surge “assim” meio inesperado, por trás da fachada de um prédio comercial. E não é qualquer prédio. O restaurante é homenagem dos filhos Bruno, Mauro e Fernanda Zaffari ao pai, que batiza a casa: João BENJAMIN Zaffari. O restaurante fica no JBZ, sede do conglomerado gaúcho que comanda supermercados, shoppings, empresas de logística e outros negócios, de uma das famílias mais icônicas da cidade.  

A casa, de pé direito altíssimo, começa com um bar imponente que se desdobra num salão imenso com quadros em preto e branco, cabines em couro, toalha nas mesas e projeto de Sid Bergamin. Um ambiente que chama um jantar mais elegante ou almoço de negócios.

chef Bruno Hoffmann

O chef é o paulista Bruno Hoffmann, que trabalha os clássicos da cozinha italiana, usando ingredientes locais. Gostei particularmente da conserva de berinjela, balsâmico e castanhas (da época, sempre busque o da época), e do cavatelli com semolina, camarões e lagostas com creme de açafrão e limão siciliano. Delicado, redondo e bem feito. A torta cremosa de queijos regionais e compota de laranjas (é tempo de cítricos) também estava muito saborosa.

A carta tem predominância de vinhos clássicos convencionais, especialmente italianos, com um ou outro natural, entre rótulos estrangeiros e estrelas da região. Provamos o tinto da família, o João Benjamin, feito de cabernet sauvignon, merlot e tannat, para rimar com o lugar.

Vale pedir os ótimos queijos regionais com compota de araçá (viva a Mata Atlântica!), incluindo o TUNA, da Queijaria Tempo (“a menor do mundo”, de Mariana Guarienti e Rodrigo Polidoro), que tem apenas 3 vacas Jersey criadas lindas, leves e soltas, em plena zona rural de Porto Alegre.

E assim termino meus 3 dias na cidade.

Se esse post lhe pareceu longo, foi a saudade.

Benjamin Osteria Moderna

Ó linha tênue, que separa o encantamento da pretensão. Where art thou?

Ó linha tênue, que separa encantamento de presunção! Where art thou? 

Já anda difícil fazer viagens, com o câmbio nas alturas; mais ainda para quem escreve sobre comida. 

Não basta chegar lá, do outro lado do mundo… tem que comer e beber em euro, penhorar um rim no couvert e agradecer por ter outro para bancar o cafezinho. 

Há anos ouço falar desse lugar, “bi-michelado”, super elogiado por amigos confiáveis, que querem meu bem. Só por isso, tive fé. 

Pode ser ruim? 

Pode. 

Há alguns anos, estive num triestrelado, na França, uma das experiências mais patéticas da vida. Tudo parecia ter saído dos anos 80, da criatividade à validade do tempero. O cenário era idílico, talvez para imaginar um céu perfeito, na hora do ataque cardíaco ao receber a conta daquela comida de hospital. 

Pois… 

Cá estamos nós, planejando outra viagem.

Fiz a reserva, que não tem direito a cancelamento, e recebi o email de confirmação. 

Dizia:

“Você pode pensar que fez uma reserva para um restaurante. Mas, a verdade é que você acaba de abrir uma porta. Do outro lado, você encontrará surpresas, perguntas, algumas respostas, histórias e ideias comestíveis. Convidamos você a fugir conosco para novos horizontes; no entanto, e acima de tudo, a escrever seu próprio desfecho à nossa mesa: sua cooperação é essencial, apenas você poderá esculpir sua experiência.”

Me convidaram para fugir para novos horizontes. Eu tentei, mas lembrei que não tem reembolso. 

Se você é um dos sortudos que já passou pela “experiência”, por favor não diga o nome do restaurante. Tenho pena de quem empreende, mas estou aqui depois de um MUITO LONGO dia de trabalho pensando que eu vou ter que esculpir minha experiência quando chegar lá. 

Rezem por mim.

Londres, em garfo, faca e copo

Londres é um esculacho: tem muito de tudo, sempre cheio, para todo lado e na sua cara. 

Sejam livros, peças de teatro, shows, museus ou comida, a cidade dá uma surra de cinto no turista, que sai com as dores certeiras de quem nunca mais verá tanta pujança ou variedade. 

Escolher um restaurante na cidade significa abandonar outros tantos e ter a certeza de que, na volta, sempre haverá um infeliz a dizer: “ah! Mas não comeu ‘sei lá onde’? Era o melhor!”.

Danem-se! Fui feliz.

Queria escrever um texto para cada restaurante, como fiz com o BEHIND [aqui], mas esse blog vive o drama de quem trabalha. Com 25 lugares visitados – e mesmo dispensando os que não gostei –, talvez só terminasse o capítulo londrino em dois anos. Decidi, portanto, espremer a lista em um texto só como quem pariu um filho de 4,5kg (aliás, esse foi meu peso, ao nascer – prenúncio de uma vida balofa). 

Nasce a criança, na forma de um guia nada definitivo dos lugares que mais gostei em Londres.

OS DELICIOSAMENTE DESPOJADOS

Começo com o THE SEA, THE SEA, uma peixaria onde comeria todos os dias, feito de umas 7 mesinhas, lá fora, e uns 6 bancos, lá dentro. 

“Explique aos clientes, antes de tudo, que não temos um forno, um microondas, um fogão”, dizia Tiago, um português engraçado e rápido que treinava, aparentemente, três pessoas novas no salão. 

Aquele trecho adorável de Chelsea parecia atrair toda a população da Grã-Bretanha, mas eu cheguei cedo. 

O balcão da peixaria que atende alguns dos melhores restaurantes de Londres, virou imediatamente um dos meus lugares preferidos para comer na cidade. Tudo fresco, simples, com um fio de azeite aqui, um limãozinho, uma erva ali. O pescado chega na loja em até 6 horas, é sustentável, rastreável e, mais importante, de sabor impecável nas criações do chef Leandro Carreira, um português de Leiria.

Simplicidade com qualidade. Não dá para ser mais feliz que isso.

https://theseathesea.net

Em seguida, preciso falar do BRAT, sem dúvida um dos preferidos da viagem, numa das áreas mais vibrantes da gastronomia londrina: Shoreditch.  

Não sabia que o País de Gales tinha sido um dos que mais recebeu refugiados bascos depois da Guerra Civil espanhola, e foi justamente isso que inspirou o chef Tomos Parry. 

BRAT é o termo inglês antigo para ‘linguado’ e, também, significa ‘avental’, em galês. Parecia o termo perfeito para um lugar que usa técnicas de preparo tão bascas, como cozinhar um peixe inteiro sobre carvão.

Naquele antigo bar de pole-dancing, as mesas enfileiradas são separadas por, talvez, 3 dedos de distância, umas das outras. Tampos de madeira sem toalhas, pequenos pratos espetaculares, serviço rápido e ótima seleção a copo, são a fórmula redonda que levou a casa a ganhar uma estrela Michelin e entrar no radar do 50Best Discovery. 

Bebi um delicioso grüner veltliner (ou veltlinski zelene) tcheco, da Ota Ševčík, 2019 e, para não perder o hábito, um savagnin ouillé do Domaine de La Pinte. É incrível, de verdade, a qualidade dos vinhos a copo. 

Amei, especialmente, o pão árabe inflado e recheado de vento, coberto por anchovas e um fio de azeite. Ainda na memória, o caldo que sobrou de um prato de mackerel com pepino grelhado (a cavala portuguesa) que poderia me hidratar pela vida inteira. Morri de amores, também, pela codorna assada com blood pudding, toque de mel, vinho e alecrim. Macia até não poder mais…

https://bratrestaurant.co.uk

Outra incrível descoberta no bairro, foi a fórmula de almoço do LEROY.

Amei a música, o ambiente simples e o serviço incrível, talvez um pouco rápido demais, mas que parece atender bem o público executivo da região. 

Podia morar numa simples salada que, até hoje, não me sai da cabeça. Era só alface-de-cordeiro – comum na Europa, mas não vemos muito no Brasil) – toranja (grapefruit) e um queijo de ovelha de Essex. Tão perfeitamente temperada que (salivo enquanto digito) foi capaz de colocar a casa em outra prateleira da minha despensa mental. Era parte do menu executivo do dia, que tem pouquíssimas opções e pode ser de 2 ou 3 pratos. 

Também pedi um vitello tonnato na torrada de pão feito na casa e, como prato principal, fui de opção vegetariana: pimentão recheado com orzo, abobrinhas e queijo pecorino. Delicioso. Ficou claro porque o chef Simon Shand é conhecido pela simplicidade elegante. Concordo, assino embaixo e carimbo em 3 vias. A sobremesa também foi simples e divina: um naco de loquat (um fruto com algo de pêssego), sorvete de ricota e bolinho de manteiga queimada.

Há quem ache as porções pequenas (aviso), mas para mim foram perfeitas. Tive vontade de voltar no jantar, para o menu harmonizado com vinhos naturais ou convencionais e a excelente seleção de discos de vinil da casa.  

O salão que vi vazio ao meio-dia, estava abarrotado às 13hs, entre executivos e casais, em partes iguais.

https://www.leroyshoreditch.com/ 

Ainda em Shoreditch, revisitei o LYLE’S, sobre quem já escrevi há muitos anos, no antigo blog, aqui. 

https://crisbeltrao.blogspot.com/2015/06/hipster-melhor-quem-hipster-por-ultimo.html

A visita ali ainda vale, por todos os motivos: seja a cozinha, a carta, ou o serviço atencioso.

https://www.lyleslondon.com

Também numa tarde de sol fui ao ELYSTAN STREET. A rua toda vale o passeio, com seus restaurantes lindinhos, além de um belo açougue e loja de vinhos que desembocam em praça adorável. Tive vontade de comer absolutamente todas as entradas. Por isso mesmo, pedi duas: uma sopa de amêndoas que podia entornar em baldes, e a massa com coelho muito bem feita (apesar do ponto inglês de cozimento). O serviço é simpático, mas distraído, do tipo que bate papo e esquece de trazer o pão, que vem depois das entradas, mas o ambiente é claro, agradável, espartano, numa combinação de elegância e informalidade que atrai gente de todas as idades.

https://www.elystanstreet.com

ALMOÇO DE NEGÓCIOS 

Ainda no capítulo “almoço”, fui no WILD HONEY ST. JAMES, que eu escolheria para um momento de trabalho. 

O chef Anthony Demetre, o primeiro a fazer pegar na Inglaterra o termo “bistronomy” adora méis, daí o nome do restaurante que fez sucesso por 12 anos em Mayfair e há alguns anos se mudou para o saguão imponente de um hotel, em St.James. Não sou fã do ambiente, mas a comida é irretocável. 

Comi cavala na brasa com cebolas tropea (a rainha das cebolas calabresas, extremamente doce); vieiras balofas da ilha de Orkney, catadas a mão, com fricassé de ervilhas e favas e sabayon de missô; um coelho de gritar de bom, com feijões crocantes e molho de avelãs, com aquele acompanhamento que eles chamam de “torta” (cottage pie) e eu chamo de “deliciosice”: um purê ultra cremoso de batatas soterrando mais carne de coelho cozida em seu suco, com legumes. Muito, muito bom; e por fim, pedi um incontornável english custard (torta de natas) com passas, pignoli e manteiga salgada. 

https://www.sofitelstjames.com/en/wildhoneystjames.html

ÓTIMAS COMIDA, CARTA E SERVIÇO DE VINHOS

Um serviço impecável com comida excelente, experimentei no HIDE, que recebe seus clientes com uma escada Escheriana e um salão generoso – repleto de asiáticos – com janelas com vista para a agitada Picadilly e o Green Park.  

Provei um ótimo siri mole (soft shell crab) e fiquei impressionada com a salada roubada do marido, divinamente temperada. Dentre os principais, um porco parecia reunir tudo que amo no universo: mostarda de frutas, amendoim, uma morcela bem temperada e até um nabo que tinha lugar no céu, limpando o palato entre uma dentada e outra. Tudo no ponto perfeito de cocção, acidez e doçura. Fiz um flight de vinhos do Porto, outro de queijos e ainda um de cafés, porque não estava ali para brincar.

A Hedonism Wines é parceira do restaurante e, não à toa a carta é ótima, mas as outras bebidas não ficam atrás. Londres não tem muita oferta de cafés coados, em restaurantes. Quando falo café, pense sempre num espresso. 

https://hide.co.uk

Para quem gosta de um salão menor, intimista e elegantíssimo, com serviço clássico, pompa e circunstância na medida, o CORE BY CLARE SMYTH é incontornável. O serviço de vinhos foi, disparado, o melhor que vi e merece, por todos os motivos, suas 3 estrelas Michelin e a presença no 50 Best. Queria um Barolo, não muito caro, e o sommelier acertou, em cheio, com o Corini-Pallaretta Le Strette 2016, pronto para beber. Apesar da pouca idade, ficou na memória.  

As duas entradas estavam ímpares: uma era um foie gras em geleia de vinho Madeira e a outra, um pato confit defumado em seu caldo profundo e delicado, acompanhado dos cogumelos morilles e chaga, fungo que não conhecia e adorei. Não estaria na Inglaterra se não pedisse um cordeiro de Herdwick. Eram costeleta e barriga em seu próprio caldo, com bacon de cordeiro crocante, coalhada de ovelha, ervas “vindas das montanhas por onde passeia o cordeiro”, além de ervilhas e menta. 

Fiquei particularmente impressionada com as sobremesas: um parfait de limonada feito de tangerina e limão siciliano, com iogurte de ovelha e sorbet de limão. Por cima de tudo, uma telha de mel Rhug, orgânico, do País de Gales, que fez toda a diferença. Excelente. Também linda foi uma sobremesa inspirada num doce “afetivo” chamado Eton Mess – uma espécie de pavlova de morangos estrambelhada – que ali vinha sofisticadíssima, com morangos selvagens da época, delicados discos de merengue e toque de verbena. 

www.corebyclaresmyth.com

GASTROPUB

Para não dizer que não falei dos pubs, fui ao HARWOOD ARMS, que já habitava minha lista de desejos, há 15 anos. A anacrônica cabeça de um veado pregada na parede e o lustre coberto com plumas de avestruz, com certeza assustam a nova geração, mas só reforçam a idade do restaurante (2009) e os valores ingleses, um país devorador de carne e com grande amor pela caça. 

Pausei para comentar comigo mesma: “nada mais típico que abrir com pães feitos com centeio e Guiness”. Muito bons. O cardápio é curto e acho um alívio. Ponto altíssimo para o muntjac – como um cervo de sabor muito delicado e absurdamente macio – com  cogumelos enoki, um purêzinho de um tubérculo que esqueci de investigar e molho da carne, com vinho. Espetacular. Só esse prato justificaria, para mim, a estrela Michelin da casa. Bebi cerveja, claro. 

harwoodarms.com

QUANDO A FOME É DE UM CLÁSSICO

Era um domingo azul de Verão, como deveriam ser todos os domingos londrinos, e pareceu boa ideia passar o dia em Turnham Green, antiga vila medieval que fica em Chiswick, nos arredores da cidade. 

Caminhamos por coisas lindas: o gramado do parque, a igreja de 1843, a rua principal com bares, livrarias, floriculturas e tal, até chegar ao LA TROMPETTE, um clássico de bairro há 23 anos, com gente de todas as idades e trajes.

O sommelier só precisou de meia dúzia de palavras sobre meu gosto para me ler como ninguém e trazer o melhor vinho branco inglês da viagem, pinçado da carta que tinha tudo: um chardonnay de Essex, cheio de casca de cítricos, mineral como nenhum (ostras!!!), toque de maçã, melão, camomila e nota oxidativa adorável. 

Tudo que comi foi perfeito e, como diz o guia Michelin que deu uma estrela à casa, sem adornos desnecessários. 

Hábito de muitos anos, decidi comer duas entradas: um vitelo tonnato com aspargos da estação, feijões e pecorino envelhecido e um tortellini recheado com vieiras de Orkney e caranguejo, em bisque com manjericão e gengibre; tudo para caber a sobremesa, um torta de morangos com baunilha, pimenta kampot e pistache.

Casa deliciosa, serviço impecável.

https://www.latrompette.co.uk

Também para um momento clássico, já na capital, vá com alegria ao LOCANDA LOCATELLI, elegante, mas acolhedor no serviço. Voltei para uma salada de favas, rúcula e pecorino e um talharim com verduras e bottarga. De sobremesa, uma pannacota de coco, abacaxi, pêssego e sorbet de morango. Um bom restaurante italiano é sempre um abraço no estômago, antes de seguir viagem. Ótima carta.

https://www.locandalocatelli.com

CAFÉ & CHÁ

Ter um Royal Warrant não é pouca coisa. Melhor mesmo anunciar no letreiro, na correspondência, na propaganda e no site a honra de ser um comerciante de confiança da família real.

É assim com a H.R.HIGGINS, loja londrina de cafés e chás, fundada em 1942 e considerada “ponta firme”pela Rainha Elizabeth II, desde 1979.

A loja do térreo é uma graça e ainda tem no porão um pequeno salão com bebidas bem tiradas. 

Luiz Horta , o dono da dica, conta que frequentava o lugar no fim dos anos 90 e os Higgins já faziam torra mais clara e selecionavam grãos de qualidade, muito antes da “terceira onda” de cafés especiais.

Recomendo o delicioso Silver Needles White Fujian chinês.

https://www.hrhiggins.co.uk

WINE BARS

Está cada vez mais difícil fugir de restaurantes de rede, que em geral não são a minha escolha, mas quando a rede e a do FRENCHIE, vale muitíssimo a pena, inclusive pela qualidade dos vinhos em taça. Já que está lá, peça vinhos ingleses como o Sov’ran, de Kent, feito com a uva ortega, que tem um nariz entre sauvignon blanc e muscat. Leve, delicado, bom para abrir a refeição. Ou, quem sabe, um Albariño laranja de pequeníssima produção (1.000 garrafas) do País de Gales. Ótimas escolhas do sommelier Charlie – que parece ter 12 anos -, um rapaz inglês do Norte do país.

Curiosamente, foi ali que provei o melhor ponto de massa da cidade, um delicioso papardelle de cordeiro bem temperado, com um bom vinho base engrossando o caldo. 

Uma entrada de beterraba branca parecia ter um gosto bem perfumado, de rosas. Aliás, às vezes, beterraba branca parece querer ter nascido pêra. Vinha com sorrel, prima da azedinha, também aromática e picante na boca, com toque de harissa.

Na sobremesa, fui de bannoffee, aquela gordice despretensiosa e nada chique, que me fez querer voltar com olhos de dependente química. Era feita de um creme etéreo, uns suspiros, outro creme de banana gelado, um biscoitinho bom de cereais …  Engoli com um Tokaji.

frenchiecoventgarden.com

Voltaria sempre ao NOBLE ROT, tanto pelo ambiente quanto pelas infindáveis opções a copo. Lá, podemos tomar um Cédric Bouchard Roses de Jeanne Les Ursules, como se nada fosse. A cozinha ali é despretensiosa e correta, mas a grande estrela são indubitavelmente os vinhos. A comida tem um quê de maionese onipresente, mas havia uma boa vitela e um rabanete maravilhoso, com caviar. Mas boa, mesmo, foi a companhia do Danilo Nakamura. Um upgrade no que já era ótimo.

https://noblerot.co.uk

BAR 

E por falar em Danilo, fundamental a dica de ir ao BAR TERMINI para drinks pré-almoço. Ali, ninguém fala que Negroni ou Bloody Mary são datados. Ao contrário, são os carros-chefe da casa e altamente recomendados. 

A casa, que esteve no World’s 50Best Bars por 3 anos seguidos, também serve ótimos cafés e confeitaria.

https://bar-termini-soho.com

MERCADO DE RUA

“Uma rua que funciona 365 dias no ano”. Assim é o slogan do BROADWAY MARKET, em Hackney, uma das melhores descobertas gastronômicas de Londres.

Com 120 barraquinhas cadastradas, ali se acha de tudo (de bom e barato), aos sábados: queijos, vinhos, ostras, pães ou doces. Em 1883, já era importante mercado de vegetais, frutas, flores, ovos, estanho, tecido e outros, transportados para a capital até o início do século XIX, através dos canais, tributários do Tâmisa.

Com o advento das rodovias e, em seguida, a Segunda Guerra, o mercado perdeu sua importância, mas voltou com tudo, desde 2004, e é muito animado, especialmente no Verão.

Ruas com nomes como “das Ovelhas” ou “dos Cordeiros” dão a pista de sua importância na venda de alimentos para a capital, no passado.

broadwaymarket.co.uk

QUEIJARIA

Não poderia fechar esse texto sem dizer que voltei ao LA FROMAGERIE e foi amor à décima quinta vista, já que recomendo a casa desde o século passado (meu primeiro texto foi em 2009 – aqui).

Lembro do melhor momento da primeira visita, quando perguntei ao mestre queijeiro qual era o seu queijo preferido. A resposta: “queijos são como sapatos: alguns se ajustam à gente, outros não”.

E é assim, com qualquer dica desse blog. 

https://lafromagerie.co.uk

Aproveitem Londres!

Travessuras ou Gostosuras?

O Halloween é muito mais nosso do que supunha a minha cabecinha de abóbora.

Nosso dia de Finados é uma depressão só, feito de choradeira e romaria em cemitérios. Não à toa, invejamos os rituais dos outros.

Meu pai, morto há 22 anos, costumava dizer: quando o assunto for triste, minha filha, faça em ritmo de samba, que é melhor. Daí a minha vontade de importar o ‘Dia de Los Muertos’ mexicano, no lugar de Finados. A celebração por lá é das nossas, carnavalesca e feliz, com danças nas ruas, caveiras coloridas e comida de verdade em homenagem a quem se foi.

Dia desses, me senti uma extra-terrestre numa superprodução hollywoodiana, cheia de gente fantasiada de Freddie Krueger, Pennywise ou Chucky, brincando de “travessuras ou gostosuras”. Felizmente, havia gin. Não sou nenhum Policarpo Quaresma, mas implico aqui e ali com a adoção de ritos distantes demais da nossa cultura e não consigo aderir.

Para conter impulsos xenófobos, sempre penso na comida de fundo. Afinal, todos sabemos que o melhor do Halloween sempre foi a abóbora: mea curcubita, mea maxima curcubita.

Só que a abóbora brilha no Outono e seu uso faz mais sentido no Hemisfério Norte. Nossa festa emprestada acontece em época errada, com a bicha feia, seca e, ainda por cima, cara. É só mesmo um “cabeção” perdido na Estação. Convém importar tradições que venham com legumes na hora certa para o preço da escultura não estar sempre pela hora da morte (com o perdão do trocadilho).

Uma variedade que vinga quase o ano inteiro é a cabotiá ou kabocha, a abóbora asiática de casca verde. Poucos sabem, aliás, que seu batismo aconteceu quando chegou ao Japão pelas mãos de comerciantes portugueses. Eles vendiam “abóbora do Camboja” e os japoneses a compravam com sotaque: “cabotiá”. Apesar de ótima no mês de outubro, até hoje não vi ninguém disposto a esculpir cabeças verdes no Halloween. Fica a dica econômica de tentar reproduzir o rosto do Coringa, o terror da vez.

Retomando o assunto, foi no México que conheci o “pan de muerto”, delícia em formato de crânio e ossos, feito com raspas de laranja. Se come no próprio dia de Finados e ao longo das festividades que podem durar semanas, dependendo da região. Fora da capital há outras versões, feitas com gergelim, com chocolate, com dedicatória especial para o defunto, ou ainda recheadas com caveiras, a exemplo da rosca de Reis. Em Oaxaca, o pão vem com uma figura humana feita de açúcar, que representa a alma do homenageado. Por mais macabro que seja, acho bonita a ideia de “incorporar” um pouco de quem foi através da comida, engolida com o espírito em festa.

Segui na divagação ranzinza, importando caveiras, quando me deparei com a história do Coco, mito de origem portuguesa e galega.

O Coco é um fantasma que nos vigia do alto dos telhados, com interesse particular pela desobediência infantil. Devora crianças difíceis e malcriadas ou as que não querem comer ou dormir. Seu batismo vem mesmo de crânio, “cocoruto” e, desde o século XV em várias regiões de Portugal (Coimbra, Beira Alta e Minho, entre outras), abóboras ou cabaças iluminadas representam a assombração que também atende por Coca. Enfim, o folclore não está tão distante.

Ainda em Portugal, a Coca é parte do ritual chamado de “pão-por-Deus”, que acontece em 1º. de novembro. Nesse dia, as crianças saem à rua batendo de porta em porta, pedindo o bolinho e outras guloseimas preparados para alimentar as almas queridas, que lhes visitam à noite na forma de borboletas ou pequenos animais. É nossa versão de “gostosuras ou travessuras”, que também adotamos desde o Brasil-Colônia. O pão-por-Deus em Florianópolis, por exemplo, leva o nome de “finadinho”.

Em outra de suas versões, já na Espanha, o Coco teria corpo de tartaruga e chifres ao longo da coluna, com garras e cabeça de dragão. Lembram de alguém? Pois é. O mito se espalhou no Brasil com os primeiros colonizadores, e a Coca virou nossa querida Cuca, popularizada por Monteiro Lobato.

Enfim, Halloween é quase tupiniquim.
E que todos os queridos finados sejam muito bem lembrados.

[texto feito para a Revista Época, em Halloweens passados]